A estratégia por trás do movimento que tornou o governo de Minas majoritário na Codemig

Readequação societária aconteceu a fim de garantir oferta de 100% da Codemge, controladora da estatal, em tratativas do Propag
Sede de Codemge e Codemig
Governo Zema ofereceu 100% da Codemge à União. Foto: Guilherme Bergamini/ALMG

A estratégia do governo de Romeu Zema (Novo) de alterar a divisão societária da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig) passa pela ideia de manter o estado como acionista majoritário da estatal mesmo com o eventual repasse de títulos da empresa à União no âmbito do Programa de Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados (Propag). A mudança é, na prática, uma nova tentativa de abater parte do débito com o governo federal por meio do repasse de uma fração da companhia — e não por meio de uma federalização integral.

Até a terça-feira (4), a Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge) possuía 51% das ações da Codemig, ante 49% do governo estadual. Uma assembleia geral, contudo, elevou a participação do Executivo para 95%, reduzindo o papel da Codemge em sua subsidiária a 5%.

Trata-se de uma nova tentativa de transferir uma fatia minoritária da Codemig à União porque, como revelou O Fator em agosto, a equipe de Zema propôs a modelagem em ofício encaminhado à Secretaria do Tesouro Nacional (STN)

A STN, entretanto, recusou a hipótese por entender que o decreto que regulamentou o Propag só permite a incorporação de parcelas minoritárias de sociedades anônimas com presença na Bolsa de Valores — o que não é o caso da estatal mineira, que tem capital fechado.

Agora, o governo mineiro ofereceu ao Palácio do Planalto a dação de 100% da Codemge, em um pacote que inclui os 5% da empresa na Codemig.

Em documento remetido nessa quinta-feira (6) ao chefe da STN, Rogério Ceron, Zema e seu vice, Mateus Simões, do PSD, dizem que o percentual da Codemge na Codemig pode crescer se houver necessidade. 

O acréscimo aconteceria para cumprir a regra do Propag que permite o desconto de 20% do passivo por meio do repasse de ativos e dá acesso a uma correção do débito com juros a 0%.

“Fica, desde já contemplada, nessa oferta, a faculdade de ajustar, desde que necessário e dentro desse mesmo ativo, a subscrição à Codemge no percentual de tanto quanto for indispensável de participação na Codemig , a fim e desde que essa inclusão seja necessária para compor o total de 20% (vinte por cento) do saldo devedor da dívida do estado de Minas Gerais, fazendo jus aos juros reais anuais nulos, ou seja, iguais a 0% (zero por cento/ano)”, lê-se em trecho do material, obtido por O Fator.

Contrato do nióbio renovado

O carro-chefe da Codemig é a exploração do nióbio de Araxá, no Alto Paranaíba. O trabalho minerário acontece em parceria com a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), de natureza privada.

A sociedade entre Codemig e CBMM venceria em 2032, mas foi renovada até 2055, com possibilidade de prorrogação até 2070. O aditivo foi assinado na semana passada e dá, à estatal, 25% do lucro líquido proveniente da extração de nióbio, abrangendo também outros minerais da região de Araxá, como futuras minas de terras raras.

Foi repórter especial do caderno de Política do Estado de Minas. Trabalhou, também, na Rádio Itatiaia. Antes, militou no jornalismo esportivo, no Superesportes.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

Leia também:

A frase de Aécio para justificar pré-candidatura à Presidência

Carta de moradores e poucas autoridades: a audiência sobre a Mina de Jangada na ALMG

Ganem diz que denúncia sobre fraude ao domicílio eleitoral se baseou em ‘ilações de matérias jornalísticas’

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse