Caso Mariana: Vale vê chance ‘remota’ de derrota em ação bilionária na Inglaterra, mas ‘possível’ na Holanda

Relatório da mineradora fez estudo a investidores sobre todas as ações em que a empresa responde no Brasil e outros países
A ação na Inglaterra tramita desde 2022 no tribunal de Londres. Foto: Pogust Goodhead

A mineradora Vale avalia como “remotas” as chances de a BHP Billiton, sua sócia na Samarco, ser derrotada na ação bilionária que pede, na Inglaterra, indenização a mais de 600 mil atingidos pelo rompimento da barragem de Mariana.

Já o risco de a própria Vale perder processo semelhante na Holanda é classificado como “possível”. As informações constam no Formulário de Referência de 24 de outubro, enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).​

O julgamento sobre a admissibilidade da ação na Inglaterra foi concluído no meio do ano. A decisão é esperada para 2025, com expectativa de divulgação ainda neste mês.​

As duas ações foram movidas pelo escritório de advocacia inglês Pogust Goodhead.​ Em julho de 2024, Vale e BHP fecharam acordo para dividir em partes iguais qualquer indenização nas ações internacionais, desde que não sejam duplicatas de valores já pagos no Brasil.​

As empresas listam com periodicidade à CVM, como fatores de risco, os processos em que estejam implicadas e que possam resultar em perdas aos cofres da própria companhia. A transparência sobre as chances de perda permite aos investidores e ao mercado traçarem perspectivas sobre o futuro e fazerem cálculos de riscos nos investimentos.​

O documento enviado à CVM foi revelado pelo Metrópoles e confirmado por O Fator.

Processo na Inglaterra

A ação na Inglaterra tramita desde 2022 no tribunal de Londres. A ação é movida por atingidos, entre municípios, empresas, pessoas e entidades.​

A fase de depoimentos da primeira etapa do julgamento ocorreu entre outubro de 2024 e março de 2025. Se a responsabilidade da BHP for confirmada, haverá segunda etapa a partir de outubro de 2026 para definir valores. O processo pode resultar em impacto financeiro superior a R$ 10 bilhões para a Vale.​

Em 2022, a BHP ajuizou ação de contribuição contra a Vale, pedindo que a mineradora fosse condenada a contribuir com 50% ou mais da possível condenação. Em 2023, a Vale apresentou pedido de ausência de jurisdição perante a Corte Inglesa, que foi rejeitado. Com o acordo de compartilhamento de responsabilidade de julho de 2024, a BHP retirou a ação contra a Vale.​

Processo na Holanda

A ação na Holanda foi aberta em março de 2024 contra a Vale e a Samarco Iron Ore Europe.​

Um dia após o ajuizamento, o tribunal holandês concedeu medida cautelar que bloqueou ações da Vale Holdings, subsidiária da Vale na Holanda, no valor de cerca de £ 920 milhões.​

Os autores apresentaram documentos complementares em fevereiro deste ano. A corte ainda não definiu o cronograma processual, incluindo o prazo para a Vale apresentar sua defesa.

Vale e BHP têm cada uma 50% da Samarco, dona da barragem que se rompeu em 5 de novembro de 2015 em Mariana. As duas mineradoras respondem de forma subsidiária pelas obrigações de reparação.​

Poucos processos com risco “provável”

A mineradora classificou como “provável” a chance de perda em processos que, em sua maioria, tratam de questões fiscais e trabalhistas, além de autos de infração relacionados ao rompimento da Barragem B1 em Brumadinho, em 2019.

Entre os casos com risco “provável” estão processo administrativo sobre cobrança de IRPJ e multas no valor de R$ 952 milhões, ações civis públicas sobre danos morais coletivos a trabalhadores na Zona de Alto Salvamento em Carajás e na Barragem de Mirim, e processos relacionados ao rompimento em Brumadinho, incluindo auto de infração da Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM) sobre Declaração de Condição de Estabilidade da Barragem B1 e ação sobre indenização por dano morte a trabalhadores falecidos.​

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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