O pedido de ex-presidente da Codemig à direção do PT sobre Fernando Pimentel

Ex-presidente da Codemig afirma que dirigentes do PT reforçam discurso de Romeu Zema sobre Pimentel.
Ex-dirigente pede que convenção do PT aprove defesa oficial do governo Pimentel. Foto: José Cruz/Agência Brasil

O ex-presidente da Codemig e da Codemge no governo Fernando Pimentel, Marco Antônio Castello Branco, pediu à direção nacional e mineira do PT que “pare de repetir, em público, a narrativa de Romeu Zema” sobre a gestão do petista em Minas entre 2015 e 2018 e aprove, na convenção de julho, uma defesa explícita do que o partido considera ter feito por Minas. Ele também cobra um balanço escrito, com dados e fontes, sobre o governo Pimentel, “em vez de julgamentos baseados em boatos de bastidor”.

Na nota, obtida por O Fator, Castello Branco afirma que, ao tratar Pimentel como responsável exclusivo pela derrota de 2018, o PT “reforça o discurso do ex-governador e evita discutir o contexto em que a gestão ocorreu”.

Ele argumenta que o governo petista assumiu o estado com déficit projetado superior a R$ 7 bilhões, após 12 anos de PSDB, com forte crescimento da folha de pessoal e passivos acumulados na Cemig, e enfrentou a maior recessão registrada pelo IBGE no Brasil, além de queda nas transferências da União.

O ex-presidente da Codemig destaca ainda que foi Pimentel quem obteve, em 2018, a liminar no STF que suspendeu o pagamento da dívida de Minas com a União, decisão utilizada por Zema no mandato seguinte enquanto a dívida do estado aumentava. Ele lembra o impacto da Operação Acrônimo no antipetismo de 2018 e aponta que “Pimentel foi absolvido em todas as instâncias, com reconhecimento da nulidade de provas”, quadro que, segundo Castello Branco, “nunca foi incorporado à leitura interna do PT sobre o episódio”.

Ao comparar o caso mineiro com a derrota de Fernando Haddad em São Paulo em 2016, Castello Branco defende que o partido adote a mesma “régua” para avaliar Pimentel e contesta o chamado “efeito Pimentel” usando os resultados eleitorais de 2014, 2018 e 2022 em Minas.

Veja o texto na íntegra:

Quem repete Zema não constrói Minas

Escrevo como quem esteve dentro do governo, e não como quem leu jornal.

Em 24 de junho, o PT decidiu ter candidatura própria ao governo de Minas Gerais. A decisão foi correta e eu a saúdo. O que não posso saudar é o que veio depois: dirigentes do próprio partido seguem repetindo, na imprensa nacional, a narrativa que Romeu Zema construiu contra nós durante oito anos. O líder do PT no Senado e integrante da coordenação da campanha do presidente Lula declarou, há poucos dias, que o partido não deveria lançar nome próprio em Minas — e o fez, textualmente, “por conta do resultado do governo do Pimentel”.

No dia seguinte, Romeu Zema afirmou publicamente que o PT não disputaria o governo de Minas, atribuindo essa incapacidade exatamente ao período 2015- 2018.

Adversário e companheiro dizendo a mesma frase, na mesma semana. Não é coincidência: é o efeito de uma década em que o partido preferiu um bode expiatório ao espelho.

O que se cala quando se fala do governo Pimentel.

Reconheço, sem rodeios, o que é reconhecível. O governo estadual atrasou salários. Houve retenção de repasses aos municípios. A memória eleitoral disso é real e custou caro. Não peço absolvição. Peço contexto — o mesmo que o partido concede, com naturalidade, a todos os seus outros quadros.

Porque há fatos que somem sempre que essa conversa começa:

  1. O estado recebido. A administração petista assumiu Minas em 2015 com déficit projetado superior a R$ 7 bilhões, herdado de doze anos de gestão do PSDB, e com um crescimento da folha de pessoal que já era estruturalmente insustentável — segundo o próprio Tribunal de Contas do Estado, a despesa com pessoal cresceu 55,29% entre 2013 e 2016, contra 22,56% da despesa total.
  2. Os passivos da CEMIG. A entrada da Light/CEMIG na Renova Energia custou R$ 360 milhões em 2011 além de aumento da dívida do Estado em dólares. O aporte da CEMIG GT na Renova, de R$ 850 milhões, é de 2014. A compra de 51% da Brasil PCH é de janeiro de 2014. A Light havia sido adquirida em 2006. Nenhuma dessas decisões foi tomada pelo PT. E foi sob Romeu Zema, em outubro de 2019, que a participação da Light na Renova acabou vendida pelo valor simbólico de R$ 1.
  3. A conjuntura nacional. Minas atravessou a maior recessão da série histórica do IBGE, iniciada em 1948: dois anos consecutivos de queda, com retração acumulada de cerca de 7% no biênio 2015-2016. Ao mesmo tempo, o estado sofreu uma contração severa de transferências correntes e de operações de crédito da União — algo que não ocorrera nos quatriênios anteriores.
  4. O que se sustentou em pé. Minas manteve os serviços públicos essenciais para a população mais pobre. Não teve rebeliões e mortes em presídios, como ocorreu em outras unidades da Federação. Não teve racionamento de água na Região Metropolitana de BH graças à ação da Copasa em 2015 que salvou o sistema Rio Manso praticamente seco devido à maior crise hídrica dos últimos anos. E foi o governo Pimentel que obteve, em 2018, a liminar no Supremo Tribunal Federal que suspendeu o pagamento da dívida com a União — a mesma liminar da qual o sucessor se beneficiou desde o primeiro dia de mandato, sem pagar as parcelas, enquanto a dívida do estado saltava de pouco mais de R$ 100 bilhões para a casa dos R$ 179 bilhões. O reconhecimento não é meu: é do presidente Lula, e o próprio partido Novo já admitiu, por escrito, que a liminar vem do governo Pimentel

Quem administrou melhor: quem segurou um estado quebrado dentro da pior recessão da história, ou quem passou seis anos sem pagar a dívida, com a liminar que Pimentel conquistou, e ainda assim quase dobrou o endividamento?

O estrago que o partido aceita — e a causa que nunca auditou

Há um silêncio ainda mais constrangedor, e ele não é sobre gestão. É sobre lawfare.

A derrota de 2018 não foi feita apenas de salário atrasado. Foi feita, também, de manchete. A Operação Acrônimo correu dentro do mandato, com buscas, vazamentos e acusações que ocuparam a imprensa mineira durante anos, e desembocou em uma condenação em primeira instância, em 2019. Esse processo alimentou diretamente o antipetismo que Romeu Zema capitalizou nas urnas.

E o que a Justiça decidiu, depois?

Em março de 2022, o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais absolveu Fernando Pimentel, por unanimidade, dos crimes pelos quais fora condenado em 2019;

em agosto de 2022, a Justiça Federal em Brasília o absolveu, registrando que a acusação não apresentara prova alguma dos fatos alegados;

em setembro de 2025, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal encerrou definitivamente a ação de improbidade, reconhecendo a nulidade das provas derivadas da Odebrecht.

Todas as instâncias. Todos os processos.

Que fique claro, porque não quero ser mal compreendido: nenhuma absolvição judicial apaga um contracheque atrasado, e não é disso que se trata. Trata-se de outra coisa, mais grave.

O PT denunciou o lawfare durante dez anos. E, no entanto, aceita o estrago político que o lawfare produziu como se fosse um dado da natureza — e jamais reexaminou a causa. Quando o partido trata o resultado de 2018 como veredito definitivo e inapelável sobre o governo Pimentel, ele está homologando, sem perceber, o instrumento que ajudou a fabricá-lo. Está dando de graça ao lawfare a vitória que os tribunais lhe negaram.

A régua

Em 2016, o PT fez a coisa certa. Fernando Haddad perdeu a reeleição em São Paulo no primeiro turno — caiu de 1.776.317 votos em 2012 para 967.190 em 2016, uma queda de 46% — no mesmo ciclo em que o partido perdeu mais de 60% das prefeituras do país. O PT não o transformou em pária. Entendeu que a derrota era filha do antipetismo nacional, da Lava Jato e da crise. Contextualizou, protegeu, reconstruiu — e hoje colhe.

Foi maduro e foi acertado. Peço apenas uma coisa: a mesma régua para Minas.

Se a contextualização valeu para um Fernando, por que a criminalização é a norma para o outro?

O mito eleitoral

Diz-se que o “efeito Pimentel” condena o PT em Minas. Os números dizem o contrário.

Pimentel foi eleito em 2014, em primeiro turno, com cerca de 52,98% dos votos válidos. Em 2018, terminou em terceiro lugar, com 23,12%. Quatro anos depois, em 2022, Lula venceu em Minas Gerais com 50,20% dos votos válidos no segundo turno.

O eleitor mineiro reprovou um governador petista e, em seguida, elegeu um presidente petista. Ele distingue governos, cargos, conjunturas e projetos. Não existe voto mineiro mecanicamente condicionado pela lembrança de 2018. Transformar uma derrota eleitoral em condenação perpétua não é análise: é profecia — e é profecia que serve ao adversário.

O que eu não estou dizendo

Não estou dizendo que o governo 2015-2018 foi impecável. Não foi. Erros de gestão existiram e devem ser examinados com números, não com boato.

E não estou dizendo que quem defende aliança é traidor. Há quem leia as pesquisas — que hoje apontam a liderança de um pré-candidato de direita com folga — e conclua, de boa-fé, que a composição é o caminho mais seguro. Respeito. Mas respondo: aliança por cima, sem projeto próprio, não forma um único quadro novo. Em 2030 estaremos exatamente onde estamos hoje — pedindo palanque emprestado no segundo maior colégio eleitoral do país, onde nenhum presidente se elege sem vencer.

O antipetismo mineiro não nasceu apenas de contracheques atrasados. Ele foi alimentado pela incapacidade de nossos quadros — sobretudo dos deputados estaduais e federais — de defender um legado, explicar uma crise e apresentar um projeto de futuro. Quem projeta a própria omissão sobre o governo de 2015-2018 está, na prática, terceirizando a própria conta.

Cinco perguntas — e um pedido

Faço cinco perguntas à direção nacional e à direção mineira. Não são retóricas. O silêncio diante delas será, ele próprio, uma resposta.

A “avaliação muito ruim” de 2018 é responsabilidade de um governo estadual — ou também da condução econômica nacional de 2015, do impeachment e da Lava Jato, que custaram ao partido mais de 60% das prefeituras do país?

A Operação Acrônimo correu dentro do mandato e alimentou o antipetismo que Zema capitalizou —e a Justiça, depois, absolveu Pimentel em todas as instâncias, com o STF reconhecendo a nulidade das provas. O partido já reexaminou o peso do lawfare na derrota de 2018, ou apenas homologou o resultado?

Por que a derrota de 2016 em São Paulo foi contextualizada, e a de 2018 em Minas foi criminalizada?

Em oito anos de oposição a Zema, quantos quadros competitivos o PT mineiro formou? Quantos parlamentares defenderam, na tribuna, o legado de 2015-2018?

Se a candidatura própria foi decidida em 24 de junho, por que dirigentes do partido continuam alimentando, na imprensa nacional, a narrativa que Romeu Zema construiu contra nós?

E faço um pedido — três providências que não custam nada e cuja recusa seria vexatória: que o balanço de 2015-2018 seja feito por escrito, com números e fontes, e não por boato de bastidor; que nenhum porta-voz do PT repita, em rede nacional, a narrativa de Romeu Zema sobre o governo que o partido elegeu; que a convenção de julho aprove, junto com o nome do candidato, a defesa pública do que fizemos por Minas.

Fernando Pimentel não inviabilizou o PT em Minas Gerais. Foi seu enfrentamento firme e sereno que ajudou os mineiros a atravessar a maior crise política e econômica desde a redemocratização.

Se o partido não tem coragem de defender o que fez, não terá autoridade para pedir o voto do que promete fazer.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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