O passado, o presente e o futuro 

A idade chega, o ostracismo costuma vir e os holofotes se apagam para quem, ao longo de décadas, foi protagonista da história
Foto: Instituto Galo

A vida não se cansa de nos ensinar e de ratificar lições básicas que todos deveríamos saber de cor, mas que, por arrogância, vaidade, ignorância ou mesmo preguiça, insistimos em não enxergar, não compreender e não exercer. 

Recentemente, assisti a um vídeo (abaixo) em que uma professora – uma senhora com cabelos grisalhos, voz doce e suave das avós mais queridas – ensinava a um pequeno grupo de crianças, que todos os seres humanos, “por dentro”, são iguais. 

Ela pegou dois ovos – um com casca branca e outro, marrom -, quebrou-os em uma tigela, tomando cuidado para manter as gemas intactas, e após girar suavemente o vasilhame, perguntou às crianças quais gemas pertenciam a cada ovo quebrado.

Diante da impossibilidade de os pequeninos adivinharem, a “vovozinha”, amorosamente, citou Martin Luther King e suas lições, explicando que, por fora, nossas peles e aparências podem ser diferentes, mas o interior é sempre igual. 

Aqui é Galo!

Pois bem. Sábado, 31, foi dia de outro evento mágico do Instituto Galo – braço social do Clube Atlético Mineiro e o maior projeto do segmento na América do Sul – e do Clube dos 113, sob a liderança dos queridos Sergio Coelho, Maria Alice, Walter Froes e Rafael Lacerda, dentre tantos outros abnegados pelo Atlético e pelas mais nobres causas sociais. 

Um dos mais belos trabalhos do IG é o chamado Imortais – que completou dois anos de muito sucesso -, grupo que reúne atletas históricos e funcionários do Clube que, com muito amor e dedicação, transformaram, ao longo de mais de 100 anos de glórias e sofrimento, o Atlético Mineiro neste neste gigante do futebol mundial; e uma verdadeira família. 

A idade chega, o ostracismo costuma vir junto e os holofotes se apagam de forma implacável para quem, ao longo de décadas, foi protagonista da história. A fama, o dinheiro e a agitação costumam dar lugar ao esquecimento e, não raro, a dificuldades financeiras e sociais. É neste contexto que o IG olha de forma tão atenta e carinhosa para sua “velha guarda”.

No Labareda, um dos clubes esportivos do Atlético, durante um churrasco para centenas de pessoas que durou o dia inteiro, personagens da história atleticana, seus familiares e amigos, ao lado dos associados do IG e do 113, puderam, mais uma vez, resgatar e viver momentos de um passado, muitas vezes distante, onde a vida era farta em alegrias.  

Recordar é viver

Por lá, ao lado de amigos queridos, vivi um momento especialmente significativo. O inesquecível Paulo Isidoro, um dos jogadores mais importantes do Atlético (com passagens pela Seleção Brasileira e outros grandes clubes), com aquele sorriso que não cabe no rosto, de tão largo e franco, se aproximou de Eduardo Costa, da rádio Itatiaia, um dos maiores comunicadores da história de Minas, e passou a tietá-lo, sendo imediatamente acolhido pelo jornalista, como ele sempre faz com seus milhões de fãs por todo o Brasil. 

Conhecendo o Du como conheço, me peguei pensando nas inúmeras vezes em que o contrário não aconteceu. Atleticano fanático, Eduardo Costa, por décadas, deve ter tietado Paulo Isidoro – como todos nós, daquela geração mágica de 1970/1980 -, e por ele foi acolhido. E daqui a dez ou vinte anos, em um evento qualquer, um radialista de sucesso deste momento futuro – sim, o haverá, pois o rádio é eterno, venham todas as IAs que vierem – será igualmente tietado pelo Eduardo, e dirá: “Eu sempre fui seu fã.” 

Nascer, crescer, envelhecer, morrer, renascer ainda, tal é a lei”. Sinceramente, eu não sei onde nem quando li isso – só sei que faz muito tempo! -, mas é uma frase atribuída ao francês Allan Kardec, um dos mais importantes pensadores espíritas da história, que jamais esqueci. O ciclo da vida se repete e assim será enquanto houver vida humana sobre a Terra. Nascemos iguais e morremos iguais. Apenas o que faremos e seremos, durante o percurso, irá nos diferir quando chegar a hora. É o legado que ficará. Ou melhor, que restará.

Sermos bons, do início ao fim, é o que devemos buscar; sempre: sermos bons filhos, bons amigos, bons pais, bons irmãos, bons avós, bons profissionais, enfim, boas pessoas. Porque, à frente, quando os holofotes se apagarem e as cortinas se fecharem, inevitavelmente nos encontraremos com o que fomos e com quem fez parte do nosso passado. Só tendo verdadeiramente sido merecedores, é que nossos ídolos nos receberão com afeto e respeito, como Paulo Isidoro e Eduardo Costa se receberam.

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

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