A humanidade acaba de entrar em uma nova era. Pela primeira vez, um único indivíduo acumulou uma fortuna superior a US$ 1 trilhão, mais do que o PIB de muitos países. O feito atribuído a Elon Musk foi celebrado como a consagração máxima da inovação, da tecnologia e da capacidade empreendedora do capitalismo contemporâneo.
Mas existe uma segunda notícia, muito menos divulgada, que deveria provocar uma reflexão ainda mais profunda. Um manifesto internacional liderado pelos economistas Thomas Piketty, Joseph Stiglitz e Olivier De Schutter sustenta que o outro lado da moeda, a pobreza, não é inevitável: ela é fabricada.
A afirmação confronta diretamente uma das crenças mais arraigadas do sistema econômico global: a ideia de que a pobreza seria consequência natural da escassez de recursos ou do fracasso meritocrático individual.
Os autores defendem substituir o PIB como principal medida de sucesso econômico por indicadores de bem-estar humano, justiça social, trabalho digno e sustentabilidade ecológica. Para isso, apontam cinco eixos de propostas.
- Transformação dos sistemas econômicos
O objetivo é fazer a economia servir às necessidades humanas, e não apenas à acumulação de capital. A lógica é substituir uma economia orientada pelo lucro por uma economia orientada pela solidariedade e pelos direitos humanos. - Trabalho, cuidado e democracia econômica
O estudo argumenta que atividades essenciais para a sociedade, especialmente o trabalho de cuidado com crianças, idosos e pessoas dependentes, permanecem subvalorizadas. Isso precisa mudar, inclusive no que diz respeito à proteção do trabalho pelo Estado, com o resgate e a ressignificação do movimento sindical. - Serviços públicos universais e proteção social
Considerado um dos pilares mais importantes, o documento propõe:
a) acesso universal à saúde (bem-estar físico, mental e social);
b) educação pública de qualidade;
c) condições de acesso à moradia adequada e ao saneamento básico;
d) transporte público acessível;
e) proteção social universal;
f) garantia de renda mínima.
A premissa é que direitos fundamentais devem ser garantidos pelo Estado por meio de um mínimo existencial digno, capaz de minimizar desigualdades, desequilíbrios e falhas de mercado. - Justiça ecológica
O estudo reconhece que a pobreza e a crise climática possuem causas interligadas, o que requer:
a) redução da exploração predatória dos recursos naturais;
b) proteção da biodiversidade;
c) estímulo às atividades econômicas de baixo carbono;
d) desestímulo àquelas intensivas na emissão de gases de efeito estufa.
As questões ambientais não se resolvem apenas com tecnologia, e não será possível erradicar a pobreza em um planeta ambientalmente degradado. - Transformação da ordem econômica internacional
Talvez em diálogo com o ideal de pacto universal e direito das gentes, abordado na obra À Paz Perpétua, de Immanuel Kant, as propostas incluem pensar e agir globalmente por meio de:
- reforma da arquitetura financeira global;
- revisão das regras do comércio internacional;
- alívio ou reestruturação das dívidas de países pobres;
- combate aos paraísos fiscais;
- cooperação internacional para o financiamento do desenvolvimento sustentável.
O relatório aponta que muitos países permanecem presos a ciclos de endividamento nos quais foram forçados a ingressar, o que perpetua a dependência e dificulta qualquer estratégia consistente e duradoura de redução da pobreza e promoção do desenvolvimento.
Segundo os pesquisadores, o problema não está na falta de riqueza produzida pelo mundo, mas na forma como essa riqueza é distribuída. A desigualdade extrema é resultado de escolhas produtivas, financeiras e políticas que concentraram, e continuam concentrando, renda e patrimônio em uma velocidade muito superior à capacidade de redistribuição social.
A ascensão de Musk ao clube de um único membro dos trilionários é um símbolo perfeito dessa contradição. Nunca a humanidade produziu tanta riqueza e, paradoxalmente, bilhões de pessoas continuam privadas do básico.
O conflito entre os compromissos globais e o interesse de poucos
Em 2015, os 193 países-membros das Nações Unidas assumiram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O primeiro deles, o ODS 1, estabelece uma meta simples e ambiciosa: erradicar a pobreza em todas as suas formas até 2030. O ODS 2 determina a erradicação da fome. Ambos reconhecem que pobreza e insegurança alimentar não são fatalidades históricas, mas desafios solucionáveis por meio de políticas públicas, proteção social e distribuição equitativa de oportunidades.
A própria ONU reconhece que existem recursos suficientes para garantir padrões mínimos de dignidade humana em escala global. O obstáculo não é tecnológico nem produtivo. É uma questão de escolhas e decisões políticas.
Nesse contexto, o surgimento do primeiro trilionário da história lança uma pergunta desconfortável: como o mundo consegue criar uma fortuna individual de US$ 1 trilhão e, simultaneamente, fracassa em cumprir os objetivos da Agenda 2030?
Muito antes da Agenda 2030, o Brasil já havia inscrito em sua Constituição um compromisso semelhante. O artigo 3º da Constituição Federal estabelece como objetivo fundamental da República erradicar a pobreza e a marginalização, bem como reduzir as desigualdades sociais e regionais. Não se trata de uma recomendação moral. É um mandamento constitucional.
Ao lado da dignidade da pessoa humana, da cidadania e da justiça social, o combate à pobreza integra o núcleo central do projeto de nação pactuado e expresso na Constituição de 1988.
Sob essa perspectiva, a existência de milhões de brasileiros vivendo em insegurança alimentar não representa apenas um problema econômico; representa uma dívida constitucional.
Números mostram avanços, mas são insuficientes
O Brasil registrou avanços nos últimos anos. Dados do IBGE mostram que a pobreza caiu para 23,1% da população em 2024, o menor índice da série histórica. A extrema pobreza recuou para 3,5%, também o menor nível já registrado. Entre 2022 e 2024, milhões de brasileiros deixaram essas condições. Ainda assim, os números permanecem gigantescos, e a desigualdade continua elevada.
Cerca de um quarto da população brasileira continua vivendo abaixo da linha da pobreza. Isso representa dezenas de milhões de pessoas em um país que figura entre as maiores economias do planeta.
Para se ter uma noção dos valores, no Brasil, a linha de extrema pobreza é definida por uma renda domiciliar per capita de até R$ 218 por mês. Já a linha de pobreza considera famílias com renda per capita de até R$ 667 mensais.
O contraste se torna ainda mais chocante quando ampliamos a lente para o cenário global. Enquanto alguns indivíduos acumulam fortunas equivalentes ao PIB de países inteiros, centenas de milhões de pessoas seguem vivendo em condições de extrema vulnerabilidade. Uma desigualdade obscena e fabricada.
A discussão proposta por Piketty, Stiglitz e De Schutter surge exatamente nesse ponto. A questão não é quanto o mundo produz. A questão é quem se apropria e quem se beneficia do que o mundo produz.
Os defensores do atual modelo econômico argumentam que empreendedores como Elon Musk impulsionam avanços capazes de beneficiar toda a humanidade.
A mesma inteligência artificial, os mesmos satélites, as mesmas plataformas digitais e os mesmos sistemas automatizados que criam trilhões de dólares em valor de mercado poderiam coexistir com sistemas tributários mais progressivos, proteção social mais robusta e investimentos públicos capazes de reduzir desigualdades.
A pergunta central é se uma sociedade pode considerar-se bem-sucedida quando a velocidade de acumulação de riqueza no topo supera a velocidade de redução da pobreza na base.
O símbolo de uma encruzilhada histórica
Talvez Elon Musk não seja a história principal. Talvez seja apenas o símbolo. O símbolo de uma era capaz de colocar foguetes reutilizáveis no espaço, conectar continentes por satélite, desenvolver inteligência artificial em escala global e produzir fortunas trilionárias.
Mas também incapaz de garantir, para todos os seres humanos, aquilo que a ONU definiu como mínimo e aquilo que a Constituição brasileira transformou em dever do Estado: alimentação, dignidade, cidadania e oportunidade.
O primeiro trilionário da história já existe. Mas quando a humanidade será capaz de produzir o primeiro país sem pobreza?
Porque, se a riqueza pode ser criada, como demonstra a trajetória dos trilionários, devemos dar atenção aos estudos de Piketty, Stiglitz e De Schutter, que apontam que a pobreza também é uma escolha, e toda escolha pode ser revista.
O passado nos ajuda a entender o presente e a escolher qual futuro queremos construir.