Alô, Sinfazfisco-MG: processar não é censurar 

Quando críticas descambam para ataques, melhor que devolver na mesma moeda é, civilizadamente, debater no foro adequado
O subsecretário Osvaldo Scavazza
Osvaldo Scavazza quer que sindicato não volte a publicar notas consideradas por ele como difamatórias. Foto: Alexandre Netto/ALMG

Sou um defensor intransigente da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa, do livre exercício da atividade política e de todos os instrumentos legítimos de participação pública e privada nos debates sobre ideias, ideologias e rumos do país. Pessoalmente, inclusive, como colunista e comentarista, não economizo na contundência.

O que jamais aceitei e aceitarei, contudo, é a utilização abusiva desses direitos, assegurados pela Constituição, como escudo para a prática de crimes contra a honra, como calúnia, difamação e injúria. Opinião não se confunde com mera ofensa. Em toda a minha carreira, perdi apenas um processo – julgado de forma totalmente destrambelhada.

Nesse sentido, me causa positiva surpresa a posição das entidades Sindifisco-MG, Fenat, Affemg e Febrafite acerca das manifestações públicas de uma outra entidade ligada aos servidores do estado, o Sinfazfisco-MG. Dessa vez, o tal corporativismo deu lugar à sobriedade e à lucidez, e a defesa da liberdade de expressão saiu ganhando. 

Entenda o caso

Quando da substituição do então secretário de Estado de Fazenda, Luiz Claudio Gomes, por Luciana Mundim, o Sinfazfisco-MG divulgou um comunicado em que, entre diversas observações e críticas à condução da pasta, atacava diretamente – e sem provas fundamentais – o subsecretário da Receita Estadual, Osvaldo Lage Scavazza.

Servidor de carreira, respeitado por colegas e integrantes da própria Secretaria de Fazenda, Scavazza foi acusado pela entidade de atuar em benefício próprio, em condutas que, segundo os autores da nota, tangenciariam a improbidade administrativa. O sindicato foi além e chegou a defender publicamente sua saída do cargo.

Contrariado, por razões óbvias, o subsecretário ingressou com ação judicial. Em resposta, os dirigentes utilizaram os canais oficiais da própria entidade para divulgar uma manifestação pública intitulada: Nota de repúdio em defesa da liberdade sindical, da democracia e do serviço público mineiro.

As demais entidades

O Sindifisco-MG, a Fenat, a Affemg e a Febrafite defendem, com veemência, a boa luta da atuação das entidades de classe, por coerência e em ratificação a tal defesa, sempre repudiamos tentativas de limitação à atuação sindical e das associações, mas a liberdade de expressão exige responsabilidade, o que também defendemos…

“… Nenhuma democracia se fortalece quando a honra das pessoas é transformada em alvo. A atuação sindical e a liberdade são valores fundamentais, mas sempre que a liberdade for utilizada como escudo para atacar a honra alheia, o Poder Judiciário deve ser o caminho”. Bem, para mim resta muito clara a posição das demais entidades.

Já o Sinfazfisco-MG alegou: “Também é importante registrar que as críticas formuladas pelo Sinfazfisco-MG nunca tiveram como alvo o auditor fiscal Osvaldo Lage Scavazza. O alvo sempre foi o subsecretário da Receita Estadual, ocupante de um cargo comissionado, de confiança e de natureza eminentemente política e administrativa.”

Justiça é o caminho adequado

A manifestação do Sinfazfisco-MG é simplesmente ridícula. Seus autores tentam convencer que não atacaram Osvaldo, mas o subsecretário, como se o cargo ocupasse a cadeira sozinho e as acusações formuladas na nota não tivessem destinatário certo, determinado e perfeitamente identificável. É tão frágil que desmorona na segunda frase.

Particularmente, apesar de reconhecer a importância dos sindicatos na organização social e econômica do país, não tenho a menor afinidade com essa forma de representação. Salvo honrosas exceções, muitos deles dedicam mais energia às próprias disputas internas do que à defesa efetiva dos interesses de seus milhares de representados.

Mas o caso aqui é outro. Trata-se do direito de qualquer cidadão recorrer ao Judiciário quando entender-se alvo de acusações, sem que isso o transforme em um censor da ditadura ou inimigo da liberdade de expressão. Quando críticas descambam para ataques, melhor que devolver na mesma moeda é, civilizadamente, debater no foro adequado.

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

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