Dizem que o problema é o trabalho. Ou o relacionamento. Ou a idade. Ou o espelho. Mas, na maioria das vezes, o problema é a conversa que temos conosco quando estamos diante do espelho, antes de escovarmos os dentes – já que podemos mentir para qualquer pessoa, menos para nós mesmos.
A autoestima é essa raiz invisível que ninguém vê, mas que sustenta ou que apodrece a árvore inteira. Quando ela está doente, tudo parece dar errado. O amor vira sofrimento, o elogio vira desconfiança, o erro vira prisão perpétua. Só que a vida não pesa mais do que deveria, nós é que já acordamos nos sentindo pequenos demais para carregá-la.
Vivemos numa época de vitrines. Todo mundo parece seguro, produtivo, realizado. E a comparação virou um vício. Mas essa comparação é injusta: você se compara por dentro com o outro por fora. Você conhece suas dúvidas, suas falhas, sua caverna. Do outro, só vê a moldura. Então, por coerência, nós somos a nossa referência.
Conheço pessoas lindíssimas que duvidam da própria beleza. Profissionais extremamente competentes que não se manifestam, preferem os bastidores. Gente que quase pede perdão por existir. Pessoas que dão “afrouxo de mão” em vez de aperto de mão. E também quem não termina relacionamentos ruins por medo da solidão. Não é falta de oportunidade. É falta de atualização da própria identidade.
O curioso é que ninguém nasce se achando insuficiente. Isso é aprendido. Aprendemos quando nos silenciam, quando nos criticam, quando nos dizem “você não é tudo isso”. E, como alunos aplicados, decoramos a lição. Crescemos tentando provar algo para alguém, principalmente para aqueles em quem ancoramos o nosso valor: pais, professores, amores, esquecendo-nos de que a única pessoa que precisa verdadeiramente nos estimar é aquela com a qual nos deparamos diante do espelho.
Demorei para entender que autoestima não é inflar quando aplaudem, nem desaparecer quando criticam. Autoestima é constância. É um reconhecimento interno que não oscila conforme o clima externo. Ela não depende de palco.
Hoje, quando algo dá certo, eu sorrio. Quando algo falha, eu ajusto. Mas já não me reduzo nem me superestimo por causa disso. Entendi que valor não é prêmio por desempenho. É a nota que eu me dou por aquilo que eu sou.
Já a baixa autoestima é a raiz de muitos desencontros. É ela que nos faz aceitar migalhas, vestir roupas que não cabem, desistir dos nossos sonhos. É ela que nos convence de que não somos capazes, de que não merecemos, mesmo quando as evidências mostram exatamente o contrário.
Mas, como toda raiz, também pode ser cuidada. Não com frases prontas coladas na geladeira. Nem com uma foto bem editada nas redes sociais. Mas com pequenas decisões diárias que dizem não quando algo fere; sim quando algo desafia; e que impõem limites sem transformá-los em fracasso.
No fundo, talvez a vida seja menos sobre como aparecemos para o mundo lá fora e mais sobre como fortalecer essa raiz aqui dentro. Porque quando ela é firme, o vento pode até balançar, mas não a derruba.
E, como no final do dia seremos nós com nós mesmos, de frente para o espelho do banheiro, o que realmente importa, independentemente dos erros, é nos acolhermos. Reconstruirmos a autoimagem que carimbamos na nossa identidade e que mais condiz com a nossa tão sonhada realidade.