O Cavaleiro que habita em cada um de nós

Camisa com estampa de São Jorge.
Ser Jorge é ser interpelado. É ouvir constantemente a pergunta que tua mãe plantou para sempre: vais recusar o dragão ou vais deixá-lo falar por ti?. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Um nome é um estandarte que se recebe sem pedir. Vem de outras mãos, de outras urgências, costurado em silêncio por mulheres que negociam com o absoluto enquanto a história desaba lá fora. Na penumbra de uma maternidade qualquer, alguém elegeu para ti um santo improvável, um guerreiro de lança e armadura, um que não deserta. Ela precisava de alguém que furasse bloqueios, que rompesse cordões de silêncio, que atravessasse os jipes da autoridade. E acertou. Acertou porque sabia, no escuro do quarto, que a vida recompensa os que ousam pedir o impossível. O leite ainda não tinha descido e já havia um santo sentado na beira da cama. Já havia um sim costurado no avesso do medo.

O mais intrigante em São Jorge não é o dragão vencido, figurino tardio acrescentado séculos depois. O intrigante é que ele insiste em existir apesar da escassez de provas, das reformas litúrgicas que o rebaixaram a santo opcional, da arqueologia que não encontra seus ossos. Sua força reside na imprecisão: como não sabemos exatamente quem foi, cabe a cada geração preenchê-lo com sua própria urgência. Os escravizados preencheram-no com Ogum, e não se tratou de disfarce. Reconheceram nele o que sabe o peso das correntes porque já as arrastou. Onde o colonizador via um padroeiro de conquistas, o escravizado via um protetor contra o que devora. Não é essa a prova definitiva de que a esperança é matéria maleável, que se infiltra e vinga onde aparentemente não há solo?

Toda vida, quando olhada de perto, contém um cárcere. Umas vezes o cárcere tem grades e implicações. Outras vezes é feito de diagnóstico, de luto, de silêncios que ninguém explica. Em qualquer das formas, há sempre uma mãe fazendo promessa para que o preso chegue até ela. Há sempre um momento em que a força bruta cede passo à força da promessa. Isso não é exceção. É regra. O filho que herdou o nome cresceu e demorou a compreender. Depois a vida ensina que os dragões existem, mudaram de tática, aprenderam burocracia. O verdadeiro dragão não cospe fogo. Ele sussurra que desistir é legítimo, que tua lança não vale nada. Mente. A lança vale. Sempre valeu. A retórica das cinzas é só fumaça, e fumaça se dissipa com um gesto.

A coragem nunca foi ausência de medo. A coragem é recusa diária. Recusar o cinismo que se apresenta como inteligência. Recusar a covardia que se veste de prudência. Recusar, sobretudo, a desistência de si mesmo. O guerreiro que habita cada um de nós não é o que vence dragões externos; é o que contém o dragão que nos habita, aquele que oferece o caminho mais fácil quando sabemos qual é o justo. Vencemos não quando matamos o monstro, mas quando, apesar dele, permanecemos de pé. A lança treme na mão, as pernas vacilam, e ainda assim avançamos. E avançar, ainda que tremendo, já é vitória. Já é festa no escuro. Já é o santo aplaudindo de dentro da tua fadiga.

Anos depois, já homem, o filho descobre que o voto da mãe não caducou. Percebe que todo 23 de abril, dia em que Jorge e Ogum dividem o mesmo altar e a mesma trincheira, é também o dia do teu nascimento, mesmo que o calendário insista em maio. O que importa não é a data. É a trama. É o instante em que uma mulher, sem certeza de nada, pediu a um santo guerreiro que protegesse um menino comum. E o menino entendeu que a proteção não vinha de fora. Vinha do gesto de continuar, de honrar, com atos miúdos mas firmes, o fio que liga a origem à permanência. E esse fio é inquebrável. Foi trançado por mãos que não tremem. Ser Jorge é ser interpelado. É ouvir constantemente a pergunta que tua mãe plantou para sempre: vais recusar o dragão ou vais deixá-lo falar por ti? E a beleza dessa pergunta é que ela já contém a resposta. Quem pergunta já acredita. Quem acredita já venceu pela metade.

Quem lê estas linhas talvez não tenha nascido em maio de sessenta e quatro. Talvez teu nome não seja Jorge nem venha de promessa alguma. Mas certamente carregas um cárcere. Certamente tens um dragão que te visita com regularidade. A pergunta é universal: o que fazes com o voto invisível que alguém, em alguma noite escura, fez por ti? Talvez tenha sido uma avó que ninguém lembrou de beatificar. Talvez um pai que não soube dizer amor, mas soube chegar. Talvez o voto ainda esteja por ser feito. E se ainda está por ser feito, podes fazê-lo agora. O céu está ouvindo. O santo está de prontidão. O orixá já afiou o metal. A história de ambos se esvai em documentos incertos, mas sua função permanece intacta: são o signo daquele que não se dobra, a memória viva de que é possível, mesmo sem garantia, mesmo com a alma em frangalhos, recusar. E ao recusar, vencer. E ao vencer, iluminar outros.

Ao final da tua vida, não importará se o dragão morreu. Importará se você, apesar dele, viveu. Viveu como quem sabe que o nome próprio é a primeira herança e a última trincheira. Viveu como quem compreende que certas batalhas não se ganham com estrondo, mas com a persistência silenciosa de quem entendeu o voto. E viveu, sobretudo, com a certeza que arde nas entranhas: a de que o bem já venceu. Nós é que estamos, aqui embaixo, apenas confirmando o que o céu decretou. O voto, no fim, era este: que o menino se tornasse um homem que sabe levantar-se. Mais nada. Se fizer isso, se faz isso, então o santo e o orixá cumpriram sua parte. E tua mãe também. A vida, que parecia tão dura, revela enfim sua arquitetura secreta: tudo conspira para que te erga. Tudo. Até o dragão, sem saber, te serve. Até o medo, sem querer, te fortalece. Basta agora girar a fechadura. O resto é alvorada.

Leia também:

O Cavaleiro que habita em cada um de nós

MP Eleitoral pede anulação de decisão que cassou ex-vereador de BH

Minas fechou o primeiro trimestre com arrecadação abaixo da meta e frustração de R$ 1 bi

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse