Há sotaques que identificam uma região. E há sotaques que revelam uma civilização. O dialeto mineiro é um deles.
O chamado Mineirês não é apenas um modo peculiar de falar. Não se resume ao “uai”, ao “trem” ou ao hábito simpático de encurtar palavras e alongar conversas. O Mineirês é, em alguma medida, a tradução oral de uma formação histórica, antropológica e moral.
Forjado entre as montanhas de Minas Gerais, esse sotaque carrega a prudência de quem aprendeu a desconfiar, a sutileza de quem prefere sugerir a impor, e a inteligência de quem entende que, muitas vezes, o silêncio comunica mais do que o excesso de palavras. Minas é estratégica até na fala.
A própria formação social de Minas Gerais ajuda a explicar isso. O encontro entre o português colonial, as influências africanas, os traços indígenas e a geografia das alterosas moldou um povo introspectivo, acolhedor e politicamente sofisticado. Não por acaso, Minas foi berço de alguns dos momentos mais relevantes da construção nacional.
Foi aqui que a liberdade ganhou um dos seus primeiros contornos políticos com a Inconfidência Mineira. Não se tratava apenas de um movimento separatista; era um grito intelectual e político contra a opressão fiscal, a ausência de autonomia e o abuso do poder. Minas, desde cedo, aprendeu a desconfiar do Estado quando ele pesa, ameaça e persegue mais do que serve.
Esse espírito ajudou a formar uma vocação política singular. Minas produziu estadistas e articuladores de alto nível. De Juscelino Kubitschek, com seu desenvolvimentismo ousado, a Tancredo Neves, com sua habilidade conciliadora, o estado ajudou a construir a política brasileira em sua versão mais elevada: a da inteligência, da moderação e da negociação responsável.
Mas Minas não construiu apenas política.
Construiu indústria, literatura, arquitetura, aviação, empreendedorismo e cultura. O estado produziu nomes decisivos para a formação do Brasil moderno e também consolidou um patrimônio simbólico raro: uma gastronomia reverenciada, uma hospitalidade quase aristocrática e paisagens naturais que misturam riqueza mineral, montanhas imponentes, cachoeiras e cidades históricas.
O Mineirês, portanto, não é só sotaque. É uma linguagem cultural fundada em trabalho, prudência, inteligência e hospitalidade.
Em contraste, o Brasil também convive com outro idioma. Um dialeto sem território, sem tradição e sem honra, falado em compreendido por vagabundos e toda sorte de canalhas: o “PILANTRÊS”.
O pilantrês não é falado em uma região específica. É compreendido em certos gabinetes, em determinados corredores de poder e em ambientes onde a ética foi substituída pela conveniência.
É a língua dos corruptos, dos delinquentes de colarinho branco, dos que enxergam o poder como patrimônio privado e o dinheiro público como oportunidade. É o linguajar daqueles que, ao mesmo tempo, afirmam entender tudo de democracia e de cleptocracia.
No pilantrês, propina vira “acordo”; tráfico de influência vira “articulação”; mentira vira “narrativa”; privilégio vira “direito”; impunidade vira “interpretação”.
É o idioma dos homens sem nobreza, sem espírito público e sem compromisso com a nação. Dos ensoberbecidos pelo abuso de poder e dos que perderam a vergonha na cara porque se acostumaram com a impunidade.
Enquanto o Mineirês é prudente, o pilantrês é cínico. Enquanto o Mineirês acolhe, o pilantrês explora. Enquanto o Mineirês constrói, o pilantrês usurpa.
Enquanto o Mineirês honra a mesa farta, o trabalho duro e a palavra dada, o pilantrês vive do atalho, do conchavo e da esperteza. Talvez a grande disputa brasileira contemporânea não esteja apenas no campo ideológico. Talvez ela seja, antes de tudo, moral.
É a disputa entre a linguagem da honra e a gramática da corrupção. Entre o Brasil que trabalha e o Brasil dos usurpadores. Entre os que servem e os que se servem.
Defender o Mineirês, nesse sentido, não é exaltar apenas um sotaque regional. É defender um conjunto de valores que ajudaram a erguer o Brasil: liberdade, inteligência política, hospitalidade, trabalho, prudência e dignidade. E combater o pilantrês não é atacar pessoas; é denunciar práticas. É expor a vulgarização da das Instituições da República, a normalização da corrupção e a inversão moral que tenta transformar malandragem em virtude.
O Brasil precisa voltar a admirar o que presta. Precisa voltar a respeitar a palavra empenhada, o serviço público sério, a prosperidade construída pelo mérito e a política exercida com grandeza. Todavia, é compreensível que aqueles que balbuciam a gíria das gangues e das facções criminosas não admirem o nosso jeito de falar e de agir, que representam a nossa visão de mundo.
A reciproca é verdadeira. Nós não temos fluência em pilantrês, tampouco admiramos quem fale e quem o compreenda.
Em tempos de tanta confusão moral, talvez ouvir mais o Mineirês faça bem ao país. Não necessariamente no sotaque. Mas no caráter da nossa gente que foi forjado na tradição, na história e na inspiração dos nossos herois.
Entre o Mineirês de Tiradentes e o pilantrês de Joaquim Silvério dos Reis, o Brasil haverá de saber escolher qual dialeto falar.