A situação interna do PL mineiro atravessa seu momento mais delicado desde 2022. Parlamentares do partido afirmam já não acreditar no cumprimento de acordos veto sobre novas filiações à legenda em Minas Gerais. O impasse ganhou força após a entrada do ex-integrante do Ministério do Esporte no governo Lula, Thiago Milhlim, conhecido como Thiago Ganem, no partido. A filiação foi oficializada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na última sexta-feira (20).
O nome de Thiago foi tratado desde o início como ponto sensível dentro da sigla. Em reuniões com lideranças do PL mineiro e da direção nacional, Nikolas havia recebido a garantia de que poderia barrar a filiação de quadros considerados desalinhados da pauta bolsonarista. A decisão de confirmar o ingresso do ex-secretário, contudo, foi vista pelo grupo ligado ao deputado como quebra de acordo.
O entendimento é de que a entrada de Thiago é um sinal de que, até o prazo final da janela partidária, no dia 4 de abril, outros nomes “indesejados” possam ser filiados às escuras.
O movimento ocorre em um contexto de disputa velada pela formação das chapas proporcionais. A alta votação de Nikolas em 2022, quando foi o deputado mais votado do país, transformou o mineiro em ativo eleitoral do PL. Cálculos internos projetam que, caso repita ou amplie o desempenho nas urnas, o parlamentar poderá puxar até 17 nomes para a Assembleia e a Câmara. O potencial atrativo explica, em parte, o interesse de políticos de diferentes correntes em migrar para o partido.
A costura
A ida de Thiago Ganem para o PL é interpretada como resultado de uma costura política mais ampla. Segundo interlocutores, o ingresso serviria como uma espécie de “compensação” ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, cuja filiação ao PL foi vetada diretamente por Nikolas no ano passado.
Com a negativa, Cunha passou a articular sua entrada no Podemos, partido em que a família Ganem, liderada pelo deputado federal Bruno Ganem (SP) exerce influência.
Thiago Milhim é ex-secretário municipal de Esportes e Lazer de São Paulo e ex-secretário de Esporte Amador, Educação, Lazer e Inclusão Social do Ministério do Esporte no governo Lula. Milhim foi indicado a cargos federais e municipais por Bruno Ganem, assim como outros integrantes do grupo. Ele deixou o Ministério do Esporte no final de 2023, após divergências com o ministro André Fufuca (PP) e a revelação, pelo jornal O Globo, da liberação de R$ 73 milhões em recursos para estádios, destinados principalmente a municípios redutos do Podemos.
Atualmente, Thiago Milhim ocupa a diretoria de Relacionamento da Autogestão da Geap, entidade de assistência à saúde de servidores públicos federais. A Geap, nos últimos anos, tornou-se espaço de presença estratégica do grupo Ganem, com indicações para cargos de direção, incluindo passagem do próprio Lucas Ganem, vereador de BH, como coordenador de Assistência Social.
Articulação barrada
Nesta terça-feira (24), no entanto, a direção nacional do Podemos decidiu barrar a filiação de Cunha, avaliando que o movimento poderia provocar debandada de filiados ligados ao grupo do secretário de Governo mineiro Marcelo Aro (PP).
Nos bastidores, a decisão reforçou a percepção de que o PL acabou assumindo o papel de “abrigo alternativo” nessa negociação, contrariando a diretriz pactuada com o deputado Nikolas Ferreira.
A tensão se soma ao movimento de filiações conduzido pela direção nacional do PL, presidida por Valdemar Costa Neto, que tem ampliado espaço a quadros de perfil mais moderado ou de centro. Em Minas, o partido filiou nomes como Greyce Elias, Delegada Ione além do ex-deputado Fabinho Ramalho.
Nikolas defende que a montagem da chapa priorize nomes estreitamente alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro e já havia alertado publicamente que poderia deixar o partido caso perdesse influência nas decisões. Em fevereiro, ao participar do podcast Café com Ferri, disse ver uma chapa “sem coerência política” como um “convite para sair”.