A ampliação da cobrança por descarbonização da indústria colocou o pellet feed em um patamar superior à demanda global por insumos da produção de aço. Chamado de “minério verde”, o pellet se transformou em aposta de peso das mineradoras de ferro, que projetam grandes investimentos no material ao longo dos próximos anos. Companhias de Minas Gerais aderiram à tendência — mundial, segundo especialistas — e traçam estratégias para aumentar a participação do grânulo na produção minerária.
No cenário da descarbonização, o pellet feed é estratégico porque contribui para que mineradoras e siderúrgicas possam melhorar os indicadores de sustentabilidade. Na mineração, tem importância por permitir o aproveitamento de minérios com baixo teor de ferro — que, normalmente, seriam descartados como rejeitos.
Na siderurgia, o pellet, dotado de alta concentração de ferro e menos impurezas, reduz a quantidade de carvão ou coque necessária no alto-forno para a produção do aço. Isso significa redução das emissões de dióxido de carbono, principal responsável pelo aquecimento global. E, por também conter menos óxidos de enxofre, gera menos gases causadores de chuva ácida.
Com o passar do tempo, as reservas naturais de minério de ferro de alto teor tendem a cair. O movimento abre caminho para a valorização do pellet.
Passo a passo da produção
Para chegar ao pellet é preciso, primeiro, que o minério seja moído e transformado em um pó muito fino. Após a moagem, esse pó passa por uma segunda etapa do beneficiamento, que pode ser química ou magnética.
No beneficiamento magnético, o pó é submetido a um equipamento com imãs. Como o ferro responde ao campo magnético, ele é “puxado” e separado. A sílica, que normalmente acompanha o material, é descartada.
No outro processo, o químico, denominado flotação, o minério é misturado a água e a reagentes químicos. Em seguida, injeta-se ar. É aí que ocorre a separação, pois a sílica gruda nas bolhas e flutua. O ferro fica no fundo e é retirado.
Em ambos os processos, o resultado final é um pó com alto teor (da ordem de 65%) de ferro. O material pode ser comercializado na forma de partículas ou como pelotas. Nesse caso, passa por outra usina de beneficiamento, a de pelotização, em que o pó, para formar uma espécie de massa, recebe água e aglutinadores.
Um exemplo de como a tecnologia do pellet feed está em alta foi dado pela mineração Morro do Ipê, que atua nos municípios de Brumadinho, Igarapé e São Joaquim de Bicas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). A operação, iniciada em 2024, é totalmente voltada ao produto. A estimativa é de que 4,4 milhões de toneladas sejam geradas apenas neste ano.

A Morro do Ipê produz apenas o pellet em pó, exclusivamente destinado ao mercado estrangeiro. Há casos em que o pó é exportado da forma como é produzido; em outros, é misturado a mais minérios para atender a especificações nacionais. Essa junção ocorre principalmente nas cargas direcionadas ao Oriente Médio, onde existem fornos programados para usar apenas minérios de alto teor.
Segundo Cristiano Parreiras, diretor de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da Morro do Ipê, a companhia não possui usina para transformar o pellet em pelotas e tampouco há previsão de investimento com tal objetivo.
Na avaliação dele, trata-se de um mercado que em crescimento mundial. Em que pese o avanço, a participação do pellet no comércio global de minério de ferro ainda é pequena, da ordem de 20% do total.
Retorno garantido
Cristiano Parreiras afirma que o pellet exige, por parte das mineradoras, um investimento maior de produção. Porém, como o valor de mercado supera em cerca de 30% os ganhos com o minério de menor teor, o retorno financeiro é garantido.
“É uma estratégia que, para a mineradora, agrega valor, gera um produto mais rentável, tem uma demanda mais estável e, além disso, permite que se tenha o benefício ambiental de ter menos emissões durante a fabricação do aço”, afirma o diretor da Morro do Ipê.
“É um produto que ajuda nas duas pontas”, acrescenta.
O mercado externo também é o principal comprador do pellet feed produzido pela Vale. Das 32,8 milhões de toneladas geradas pela companhia em 2025, dois terços foram para clientes internacionais, com destaque para siderúrgicas da Europa, do Oriente Médio, da Coreia do Sul e do Japão.
Em nota, a Vale informou que trabalha com um cenário internacional de aumento da demanda global por pelotas e aglomerados. As 100 milhões de pelotas produzidas em 2025 devem chegar a 175 milhões em 2030.
A despeito do cenário de alta, a companhia não pretende fazer investimentos para aumentar a capacidade de produção, que, neste ano, deve situar-se entre 30 milhões e 34 milhões de toneladas.
Cedro vai construir planta em Mariana
Em sentido oposto, a Cedro Participações pretende fazer investimentos robustos, de aproximadamente US$ 700 milhões (cerca de R$ 3,6 bilhões), no aumento da produção de pellet feed. Para isso, vai construir uma unidade de beneficiamento na mina que possui em Mariana, na Região Central de Minas. A intenção da companhia é que, até o final da década, toda a produção de minério seja em pellet.
Além da planta de Mariana, a Cedro deseja manter os investimentos na melhoria do Porto do Meio, em Itaguaí, no Rio de Janeiro, e na construção de uma ferrovia de 26,5 quilômetros para ligar as minas da região de Serra Azul, ao sul da Região Metropolitana, à linha ferroviária da MRS, que chega até o Porto do Meio.
A Samarco, por sua vez, tem a produção de pelotas e finos de minério como prioridade. Os dois insumos responderam por 15,1 milhões das 15,9 milhões de toneladas produzidas pela empresa no ano passado.
O beneficiamento do minério produzido em Mariana é feito na planta de pelotização que a empresa tem em Ubu, no Espírito Santo, para onde é transportado por meio de mineroduto.
Em 2025, 10 anos após o rompimento da barragem de Fundão, a Samarco consolidou a segunda fase de sua retomada operacional gradual, com a produção estabilizada em cerca de 60% da capacidade produtiva instalada.
Em nota, a empresa informou que o ano foi marcado por recordes de produção e vendas, que subiram 55% e 68% em relação a 2024, respectivamente. A meta é atingir 100% da capacidade produtiva em 2028.
AVG considera mercado promissor
Rodrigo Gontijo, presidente do grupo AVG, também considera promissor o mercado de pellet feed. A primeira razão é de natureza ambiental, já que o insumo propicia ganhos de produtividade com menos emissões.
O outro motivo, mais forte no mercado doméstico, guarda relação com a redução gradual da disponibilidade do granulado natural de alto teor nas minas. Com isso, as siderúrgicas tendem a aumentar o consumo de pelotas e finos com maior teor, reforçando a demanda por minérios de melhor qualidade
Atualmente, a AVG está em ritmo de produção anual de cinco milhões de toneladas de insumos para a siderurgia, distribuídas em quatro tipos: granulado, hematitinha, sínter feed e pellet feed, cuja diferença entre um e outro é basicamente a granulometria – mais ou menos fino. O pellet é o de menor granulometria e responde por 1 milhão de toneladas/ano na produção da AVG, com incorporação a outros produtos.

A médio prazo, a tendência, segundo Rodrigo Gontijo, é que o pellet feed passe a, progressivamente, representar um percentual maior da produção. O material ganhará terreno à medida as minas ficarem mais profundas, com redução gradual do teor dos materiais extraídos.
A AVG quer alcançar a marca de 8 milhões de toneladas de pellet feed por ano. Uma parte desse acréscimo – 4,5 milhões de toneladas – virá, segundo Rodrigo Gontijo, de um projeto voltado exclusivamente a este tipo de insumo. O empreendimento, ainda na etapa de desenvolvimento de engenharia, deve começar a operar em 2031. A intenção é executá-lo em uma mina com reservas de minério de ferro da ordem de 300 milhões de toneladas.
O restante do aumento da produção de pellet feed virá, de acordo com o presidente da AVG, do início das operações da mina do Brumado, entre Caeté e Sabará, das melhorias que serão introduzidas nas plantas da Emesa, em Brumadinho e Itatiaiuçu, e da ampliação da operação da mina A&G, em Barão de Cocais.