A origem do querer

Pessoas em um balanço.
Às vezes insistimos tanto em algo que, se fôssemos honestos, admitiríamos que nem queremos de verdade. Foto: Pixabay

A gente aprende cedo a dizer “eu quero”, mas passa uma vida sem perguntar “por quê?”. Queremos crescer na carreira, adquirir bens, viver um relacionamento e ter reconhecimento. Queremos tantas coisas, e, ainda assim, há dias em que conseguimos tudo isso e seguimos inquietos, porque querer, por si só, não basta. É preciso entender de onde vem esse querer.

Tem desejo que nasce da alma, silencioso e firme, sem qualquer interferência externa. E tem desejo que vem totalmente de fora, barulhento, urgente, uma cobrança disfarçada de vontade. É o tipo de meta que a gente persegue com disciplina, mas sem entusiasmo. Cumpre, conquista e posta, como aquele diploma de medicina que você entrega aos seus pais pra satisfazer apenas a vontade deles.

Existe um tipo de cansaço que não vem do esforço, vem da falta de sentido. Quando a gente não sabe por que faz o que faz, qualquer resultado parece insuficiente. Porque o problema nunca foi a falta de resultado, mas a falta de clareza sobre a origem do querer, sobre a razão por trás da ação, sobre a nossa motivação. Segundo o dicionário, a motivação é a “força que inicia, orienta e mantém ações, englobando fatores emocionais, biológios e sociais”.

É curioso porque às vezes insistimos tanto em algo que, se fôssemos honestos, admitiríamos que nem queremos de verdade. Queremos a validação que aquilo promete, queremos o olhar do outro, queremos atender a uma expectativa que muitas vezes não é nossa.

Ao investigarmos o “por quê”, algumas verdades ficam difíceis de ignorar. Descobrimos que certos desejos não nasceram dentro da gente, foram plantados. Cresceram alimentados por comparações, por vitrines iluminadas e por vidas editadas. E aí, sem perceber, passamos a correr atrás de algo que, no fundo, nunca foi sobre nós.

Quando você diz que gostaria de comprar uma BMW ou uma bolsa Louis Vuiton, por exemplo, o importante é investigar se esse querer é seu mesmo, se aprecia esse desejo, se entende que faz parte do seu merecimento ou se é um desejo do coletivo que, por si só, comunica status e poder.

E quando vai se casar, será que o desejo é de realmente partilhar a vida com a pessoa que você ama; de ter uma companhia em razão do medo da solidão; ou de apenas cumprir o modelo padrão da sociedade de casar e ter filhos?

Temos motivações que nascem da nossa camada de luz, que guardam relação com a nossa essência, mas também temos motivações que nascem das nossas sombras, da nossa imaturidade, do nosso ego. E o intuito em identificarmos o que motiva os nossos desejos não é o autojulgamento, mas a consciência dos nossos objetivos e a honestidade que devemos ter com nós mesmos.

A pergunta a se fazer diante do nosso querer é “qual a real motivação por trás desse desejo?”

Saber as próprias motivações exige coragem, porque nem sempre o que encontramos é bonito. Às vezes é carência, às vezes é medo, às vezes é necessidade de provar algo para alguém que talvez nem esteja mais prestando atenção.

Mas também pode ser libertador, porque quando entendemos o que realmente nos move, começamos a fazer escolhas mais alinhadas. E não, isso não significa escolher sempre o caminho mais fácil ou mais confortável. Significa escolher o que ressoa na nossa alma, com menos aprovação externa e mais coerência interna.

Como aprendemos na vida, toda escolha tem um preço. E tem mesmo, pois junto com o bônus vem o ônus. Mas, quando a motivação é honesta, até o esforço descansa. E assim a vida se torna mais leve e mais autêntica, já que não se trata de fazer tudo o que se quer, mas de querer de verdade aquilo que se faz.

Escritora. Observadora comportamental. Bacharel em Direito.

Escritora. Observadora comportamental. Bacharel em Direito.

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