O núcleo hacker da organização criminosa ligada a Daniel Vorcaro, do Banco Master, tinha como base um condomínio de alto padrão em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). O local era usado como o QG digital de onde partiam ataques cibernéticos, derrubadas de perfis e monitoramento ilegal.
As informações constam na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que embasa a sexta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (14). O pai de Daniel, Henrique Moura Vorcaro, teve a prisão preventiva decretada sob suspeita de financiar e acionar a estrutura hacker.
“O núcleo ‘Os Meninos’ reuniu agentes com perfil hacker, remunerados para a execução de ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis e monitoramento digital ilícito, tudo sob a gerência de Felipe Mourão e em atendimento, em tese, aos interesses de Daniel Bueno Vorcaro”, diz trecho da decisão de Mendonça.
De acordo com as investigações da PF, o núcleo, batizado de “Os Meninos”, era comandado por David Henrique Alves, programador que, desde 2024, operava a partir de um apartamento no condomínio Golden Class, em Lagoa Santa.
Dali, ele coordenaria um grupo com perfil hacker, responsável por ataques cibernéticos, invasões telemáticas, monitoramento digital de alvos de interesse da organização e derrubada de perfis críticos a Daniel Vorcaro nas redes.
O endereço passou a ser tratado pela PF como base operacional do braço tecnológico do esquema depois da terceira fase da Compliance Zero, em 4 de março, quando o movimento no condomínio mudou de padrão.
Naquele dia, pela manhã, David ligou para a corretora comunicando que queria entregar o imóvel “com urgência”, e, segundo o porteiro, deixou o local por volta das 15h, em uma saída apressada que chegou a gerar reclamações de moradores por conta de manobras bruscas com o carro.
Fuga
Às 23h30 do mesmo 4 de março, David foi parado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) dirigindo uma Range Rover registrada em nome de Felipe Mourão, o “Sicário”, apontado como gerente dos dois braços da organização, o presencial (“A Turma”) e o digital (“Os Meninos”).
No veículo, além de Katherine Venâncio Telles, que o acompanhava, os policiais encontraram um computador de mesa, dois ou três notebooks, caixas e malas, além de um documento de identidade de terceiro.
Questionados, David e Katherine disseram que viajavam para Santos (SP) para ficar com o irmão dela, sob a justificativa de que os pais iriam para a Europa, versão que não se sustentou: consulta a sistemas oficiais não apontou qualquer registro de viagem internacional da mãe de Katherine em 2026.
Para a PF, o conjunto de deslocamento, transporte de grande quantidade de equipamentos eletrônicos ligados ao trabalho de David e a inconsistência da explicação indica tentativa de fuga e possível ocultação ou destruição de provas digitais.
O dia seguinte foi marcado pelo esvaziamento do QG em Lagoa Santa. Um homem identificado posteriormente como Victor Lima Sedlmaier, ligado a David e também incluído no pedido de prisão preventiva, entrou no apartamento com chave em mãos, com acesso liberado por Katherine, e retornou depois com um caminhão de mudança, retirando móveis e pertences do local.
Quando foi abordado, Victor estava com celular, material de informática e dinheiro em espécie.
A PF descreve “Os Meninos” como um braço tecnológico voltado a sustentar, no ambiente virtual, a mesma lógica de intimidação e controle exercida presencialmente por “A Turma”.
Além de David, liderando o grupo e recebendo cerca de R$ 35 mil por mês por meio da empresa Bipe Software Brasil, os investigadores apontam a participação de Victor e de Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos em tarefas técnicas, como suporte de TI, desenvolvimento de sistemas e aquisição de domínios na internet, em um arranjo que teria como finalidade viabilizar ataques, monitoramento e gestão de reputação on-line de Daniel Vorcaro.
Conexões
A etapa desta quinta-feira da Compliance Zero mira justamente a sustentação financeira e a continuidade dos dois núcleos, mesmo após as primeiras prisões.
O ministro André Mendonça decretou prisão preventiva de David, Victor e Rodrigo, consolidando o foco sobre o núcleo hacker, e, ao mesmo tempo, autorizou a prisão de Henrique Moura Vorcaro, descrito como demandante dos serviços da “Turma” e operador financeiro dos pagamentos que mantinham a estrutura ativa.
Segundo as conversas obtidas no celular de Marilson Roseno, ex-policial federal e líder operacional de “A Turma”, Henrique era cobrado por pagamentos mensais que a PF associa à manutenção tanto do núcleo presencial quanto do digital, em valores que chegariam a R$ 1 milhão, incluindo repasses a Felipe Mourão e aos hackers.