Por que os empresários fracassam no debate da escala 6×1

Protesto contra a escala 6x1 em São Paulo.
A escala 6x1, no Brasil de 2026, é uma instituição extrativista. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Em 1607, três naus inglesas desembarcaram 104 homens numa península pantanosa do rio James, na Virgínia. Eles vinham para reproduzir o milagre espanhol. Oitenta e oito anos antes, Hernán Cortés havia atravessado o México capturando Montezuma e descobrindo que, com um rei nas mãos, dava para extrair tributo, alimento e ouro de uma população indígena já organizada em estruturas hierárquicas milenares. Treze anos depois, Pizarro repetiu o truque em Cajamarca, com Atahualpa. A Espanha ficou rica. A Inglaterra, atrasada, queria o seu próprio Montezuma virginiano.

Não havia um Montezema local. Os nativos Powhatan eram dispersos, móveis, e não tinham ouro nem celeiros transbordantes para serem saqueados. Em 1609, o chefe Wahunsunacock decidiu que os ingleses comeriam o que conseguissem caçar e mandou cercar o forte. O inverno daquele ano entrou para a história como o starving time: dos cerca de 500 colonos vivos em outubro, sobraram 60 em maio. Comeram cavalos, ratos, gatos, sapatos. A arqueologia encontrou evidência forense de canibalismo de sobrevivência.

Eu cheguei a essa história, como tanta gente da minha geração, por Por que as nações fracassam, de Daron Acemoglu e James A. Robinson, meus gurus, livro que é quase uma bíblia para mim. Em outubro de 2024, a dupla, agora com Simon Johnson, ganhou o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel (lembrando que não existe Nobel de Economia), nas palavras da Real Academia Sueca de Ciências, “por seus estudos sobre como as instituições são formadas e afetam a prosperidade”.

O argumento central, condensado em mil exemplos históricos, é simples: economias fundadas na extração pura, em arrancar o sobretrabalho de gente que não tem escolha, fracassam no longo prazo. Economias que precisam dar incentivos a quem produz prosperam. Não é geografia, não é cultura, não é raça. São instituições.

O Capítulo 1 de Por que as nações fracassam é sobre Jamestown. Acemoglu e Robinson contam como a Virginia Company tentou, durante doze anos, replicar Cortés e Pizarro num cenário onde isso era impossível. “Embora os colonos a bordo dos navios da Virginia Company fossem ingleses”, escrevem, na tradução brasileira de Cristiana Serra (Elsevier, 2012), “seguiam um modelo de colonização com forte influência do modelo instituído por Cortés, Pizarro e Toledo.

Seu plano inicial consistia em capturar o chefe local e usá-lo como meio de obter provisões e obrigar a população a produzir alimentos e riquezas para os europeus”. Não havia rei nativo para capturar. Não havia ouro. O capitão John Smith percebeu primeiro: “Víveres, é forçoso reconhecer, são toda a sua riqueza”, anotou no diário. E concluiu, segundo os autores, que “para que a colônia fosse viável, eram os colonos que teriam de trabalhar”.

Aí veio a parte feia. “Se os povos indígenas não tinham como ser explorados, raciocinou a Virginia Company, talvez os colonos, sim”, contam Acemoglu e Robinson. Sir Thomas Dale promulgou em 1610 as Laws Divine, Moral, and Martial: um código de tipo militar, lei marcial na prática, em que furtar uma espiga era punível com execução sumária. Os autores narram que esse regime “draconiano” foi imposto “para os colonos ingleses, ainda que não, é claro, à elite que a administrava”. E falhou. A frase do livro é direta: “Não havia como impor o trabalho forçado aos colonos ingleses em troca de rações que mal lhes garantiam a subsistência”. Os colonos fugiam para as aldeias indígenas. Preferiam ser parte da comunidade indígena Powhatan a ser servos da Companhia.

Em 1618, a Virginia Company se rendeu ao óbvio. “Diante da impossibilidade de coagir tanto os habitantes locais quanto os colonos”, resumem os autores, “a única alternativa restante era fornecer incentivos a estes últimos”. Criou-se o headright system: cinquenta acres de terra para cada colono homem, mais cinquenta por dependente trazido. No ano seguinte, instituiu-se a Assembleia Geral, que, nas palavras de Acemoglu e Robinson, “efetivamente conferiu voz a cada homem adulto nas leis e instituições que regiam a colônia. Era o início da democracia nos Estados Unidos”. A passagem-chave do capítulo, a que eu já li umas dezenas de vezes, é esta: “a única opção para uma colônia economicamente viável seria criar instituições que dessem aos colonos incentivos para investir e trabalhar com dedicação”.

Guardem essa frase. Vamos voltar a ela.

Em setembro de 2023, um balconista de farmácia do Rio de Janeiro de 30 anos, Rick Azevedo, gravou um TikTok desabafando sobre a escala 6×1. Trabalhar seis dias, folgar um, ganhar salário mínimo, não ter tempo para ver a família nem para terminar a faculdade (ele já tinha tentado três: enfermagem, marketing, jornalismo). O vídeo viralizou. Rick fundou o movimento Vida Além do Trabalho (VAT). Criou um abaixo-assinado online que, segundo a CNN Brasil, ultrapassou dois milhões de assinaturas.

Antes da farmácia, Rick tinha sido auxiliar de serviços gerais, vendedor, frentista, atendente de academia e de curso de idiomas. Veio de Taipas do Tocantins. Em 2024, candidatou-se pela primeira vez a vereador, pelo Psol do Rio, e, com um quinto da verba que receberam os outros eleitos do partido, foi o vereador mais votado da legenda na cidade.

Quem capturou politicamente a pauta foi a deputada Erika Hilton (Psol-SP). Em fevereiro de 2025, ela protocolou a PEC 8/2025 com 234 assinaturas (precisava de 171), propondo jornada máxima de 36 horas semanais distribuídas em quatro dias. A PEC foi apensada à PEC 221/2019, de Reginaldo Lopes (PT-MG), que prevê transição gradual em dez anos para 36 horas. Em 2026, sob a presidência de Hugo Motta (Republicanos-PB), a Câmara aprovou na CCJ a admissibilidade do texto. O governo Lula mandou em paralelo um projeto de lei propondo 40 horas e duas folgas semanais, fim do 6×1, sem reduzir salário. As duas frentes convergem para uma escala 5×2 como meio-termo.

Eu não sou fã da Erika Hilton. Creio que ela performa demais para uma plateia que confunde indignação com política. Mas Rick Azevedo é uma das figuras mais interessantes da política brasileira em 10 anos, e a pauta dele está certa. É preciso separar uma coisa da outra. O idealizador é o balconista, não a deputada. E a evidência empírica está com ele, não com os outros palpiteiros dessa história.

A escala 6×1 não é uma curiosidade folclórica do varejo. Os números variam conforme a fonte; mas o que não varia é a ordem de grandeza: estamos falando de um terço da força de trabalho formal cumprindo jornada de seis dias com 44 horas ou mais.

No ranking compilado pelo economista Daniel Duque, do FGV/IBRE, o brasileiro trabalha em média 40,1 horas semanais, mais que americano, francês, italiano, japonês. E produz, segundo a OIT, em média US$ 21,2 por hora: 94º lugar entre 184 países, atrás de Uruguai, Chile, Argentina e até Cuba. Em linguagem popular, estamos fodidos e mal pagos.

O Ministério da Previdência Social registrou, em 2024, 472.328 afastamentos do INSS por transtornos mentais: alta de 68% sobre 2023, recorde da década. Em 2022 eram 201 mil. Os afastamentos por burnout, especificamente, saltaram 493% entre 2021 e 2024 (de 823 para 4.880), e o primeiro semestre de 2025 já tinha 3.494, quase igualando o ano anterior inteiro.

Enquanto isso, a informalidade ronda 37,5% da população ocupada, e o Banco Central estima em mais de 2 milhões os trabalhadores de aplicativos. Boa parte deles tem outro emprego: pesquisa do Cebrap citada pelo iFood mostra que 52% dos entregadores têm outra fonte de renda. O trabalhador formal brasileiro virou, em muitos casos, um trabalhador formal mais um informal, o famoso “carteira assinada e bico” porque o salário não fecha o mês. É a concretização da icônica frase “Meu marido tem dois empregos” dita por Rochelle, esposa de Julius na série “Todo Mundo Odeia o Chris”.

E é aqui que entra o problema dos meus colegas empresários. A Confederação Nacional da Indústria, em manifesto assinado em 2025 por confederações nacionais (CNI, CNC, CNT, CNA) e federações como Fiesp e Fecomercio-SP, classificou a discussão como “inoportuna e eleitoreira”. Ricardo Alban, presidente da CNI, disse à CNN Brasil que a razão de pautar isso agora “é eleitoreira”, e que reduzir jornada agravaria a “estagnação da produtividade” e o “desajuste das contas públicas”.

Eu olho para essas declarações e vejo o roteiro de um filme em que o empresário brasileiro está fazendo um papel pequeno demais para si próprio. Parece estereótipo. Parece o cartoon do patrão malvadão fumando um charuto sentado num saco de dinheiro. E o pior é que não é necessário. Ninguém está pedindo a 4×3 amanhã. A PEC mais agressiva, da Erika Hilton, prevê implementação em 360 dias; a do Reginaldo Lopes, em até dez 10. O governo defende ir para 40 horas e 5×2 com adaptação. Pesquisa Datafolha realizada entre 3 e 5 de março de 2026 com 2.004 pessoas em 137 municípios (margem de erro de 2 pontos, 95% de confiança) mostrou que 71% dos brasileiros defendem a redução do número máximo de dias trabalhados semanalmente, contra 27% contrários. É uma briga politicamente perdida, e os empresários que se posicionarem dela vão sair amassados.

Eu sou empresário. Trabalho com prestação de serviço intelectual e tento, da forma mais sincera que consigo, dar paz para a minha equipe. Acredito profundamente em duas coisas: que trabalhador exausto não performa, e que empresa lucra mais quando as pessoas dormem. Sei que nem toda empresa é como a minha: tem gente que depende de trabalhador para carregar caixa. Defendo que governos se organizem para a inevitável mecanização desses trabalhos.

Volto ao livro dos meus gurus. O argumento central de Acemoglu e Robinson é que o que distingue uma economia que prospera de uma que apodrece não é a esperteza das suas elites, mas o desenho das suas instituições: se elas dão incentivo a quem produz ou se simplesmente extraem dele o máximo possível, no menor custo possível. A Espanha colonial enriqueceu rápido com a encomienda, a mita, o repartimiento e o trajin, instituições, nas palavras dos próprios autores, criadas com o “objetivo de rebaixar os padrões de vida dos povos indígenas ao nível da subsistência e, assim, destinar toda a receita excedente aos espanhóis”, e estagnou. A Inglaterra, forçada pelas circunstâncias a dar incentivos aos colonos da Virgínia, criou as instituições que viraram a primeira economia industrial do mundo.

A escala 6×1, no Brasil de 2026, é uma instituição extrativista. Ela extrai do trabalhador o máximo de tempo de vida pelo mínimo de salário, na suposição de que ele não tem para onde correr. Funciona (funcionou?) pela mesma razão que a Laws Divine, Moral, and Martial de Sir Thomas Dale funcionou por alguns anos: porque dá certo, no curto prazo, encurralar gente que não tem alternativa. Mas a Companhia da Virgínia descobriu, depois de doze anos e do starving time, que esse arranjo era insustentável. Os colonos fugiam para as aldeias. Os colonos brasileiros, hoje, fogem para o aplicativo, para o INSS, para o consultório do psiquiatra, para a economia informal ou para tudo quando é lugar que não seja o balcão no domingo de manhã.

A pergunta certa não é se o empresariado consegue, no curto prazo, segurar o 6×1 mais alguns anos no Congresso. Talvez consiga. A pergunta certa é se uma economia que precisa que trabalhe 44 horas em seis dias para entregar US$ 21 por hora, quando outros entregam US$ 81 em 40 horas e cinco dias, é uma economia destinada a alguma coisa, ou se está apenas adiando o seu starving time.

Eu defendo a 5×2 já. Defendo, num futuro mais distante, a 4×3 como horizonte civilizatório. Não por simpatia ao Psol, não por gostar da tentativa de Paris Hilton (não gosto), e não por algum populismo trabalhista. Defendo porque li meus gurus e entendi a lição. Defendo porque tenho equipe e sei o que rende uma equipe que dorme. Defendo, sobretudo, porque me recuso a passar à história como o caricato empresário malvadão que, em 2026, assinou uma nota técnica defendendo que o trabalhador brasileiro precisa, antes de tudo, trabalhar mais.

A Companhia da Virgínia também achou isso, em 1611. Sabemos como terminou.

Profissional de marketing político, colecionador de histórias em quadrinhos e ingressos de shows. Coautor do livro “Cabeça de Candidato”.

Leia também:

Por que os empresários fracassam no debate da escala 6×1

Amparado por decisão do TCE-MG, governo de MG pode acelerar trâmites por oferta de privatização da Copasa

O pedido de Euclydes Pettersen à CGU antes de virar alvo da operação da PF sobre descontos do INSS

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse