A difícil coragem de não agradar

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Existe um tipo de cansaço que não vem do trabalho, do trânsito ou da atividade física. Vem do esforço contínuo de tentar ser agradável o tempo inteiro. De ter que amassar a própria alma para caber na expectativa alheia.

Fato é que aprendemos a sorrir por educação, a concordar para evitar conflito, a não decepcionar. Crescemos acreditando que ser amado tem alguma relação com ser conveniente e, assim, nos tornamos especialistas em perceber o desconforto do outro antes mesmo de perceber o nosso.

Lembro exatamente do dia em que comecei a desconfiar dessa dinâmica. Uma amiga me ligou querendo “uma opinião sincera”. Isso já é uma armadilha clássica da convivência humana, já que ninguém quer sinceridade. As pessoas querem, na verdade, validação da opinião que elas já definiram previamente.

Ela apareceu usando uma roupa que parecia ter sido escolhida por um figurinista de carnaval: brilho, franjas, transparência e uma bota meia pata de cano alto, bem parecida com aquelas usadas pelas passistas das escolas de samba.

Perguntou:

— Ficou bom?

E ali estava eu diante de uma bifurcação moral, pois se dissesse “não”, corria o risco de parecer invejosa. E se dissesse “sim”, estaria sendo incoerente com o que eu eu estava pensando. Então, respirei fundo e respondi:

— Amiga, ficou confuso.

Depois do longo silêncio, achei que perderia a amizade. Mas aconteceu algo estranho: ela caiu na gargalhada. Depois olhou no espelho de novo e disse:

— Nossa, realmente parece que me vesti durante um apagão.

Foi libertador! Naquele dia, descobri que desagradar não mata. O máximo que acontece é alguém fazer uma cara estranha e você sobreviver mesmo assim. Uma experiência revolucionária para quem cresceu acreditando que deveria agradar.

E sabe o mais curioso? Quanto mais você tenta ser impecavelmente agradável, menos autêntica fica. Porque uma pessoa incapaz de frustrar alguém também se torna incapaz de ser inteira.

Não estou falando de brutalidade, arrogância ou indiferença. Há pessoas que usam a sinceridade como licença poética para ferir. Isso não é coragem, é falta de delicadeza. A verdadeira coragem se ampara na honestidade emocional.

É conseguir dizer “não posso” sem ter quer inventar uma doença. É deixar de rir quando algo te ofende só para evitar o desconforto. É não permanecer onde você precisa diminuir a própria luz para não incomodar.

Parece simples, mas não é, porque não agradar confronta um medo bastante humano: o de deixar de ser amado. Só que existe uma armadilha nisso, porque quem gosta de você apenas quando você concorda com tudo talvez não goste exatamente de você, mas da conveniência que você oferece.

Ao longo da vida, a gente entende que maturidade emocional não é ser aceito por todos. É conseguir sustentar a própria verdade sem desmoronar diante da desaprovação do outro, principalmente daqueles que mais estimamos.

Claro que existe um preço. Algumas pessoas vão se decepcionar quando perceberem que você deixou de ser infinitamente disponível. Outras vão chamar isso de egoísmo porque estavam confortavelmente instaladas no seu excesso de gentileza.

Mas há uma paz muito elegante em parar de performar simpatia o tempo inteiro. Porque com a maturidade, entendemos que ser uma pessoa boa não exige ser boazinha. E que uma vida inteira dizendo “sim” para os outros costuma terminar com um “não” gigantesco para nós mesmos.

Escritora. Observadora comportamental. Bacharel em Direito.

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