O garçom passou com a bandeja de saladas e eu estava ali com o Luís Arthur, meu filho, num almoço comum de sábado, faz alguns meses. Churrascaria em Juiz de Fora. Nada de especial. Barulho de talheres, gente falando de negócios, o vapor subindo das travessas. Aí o homem da mesa ao lado se levantou. Cabelo branco, camisa simples, andar tranquilo. Foi até o bufê e se serviu. Ninguém olhou. Mas eu olhei. Era o Toquinho.
Fiquei parado, o garfo no ar. O homem que compôs “Aquarela”, que ajudou a escrever a história da música brasileira, estava a dois metros de mim, pegando alface. O gerente não sabia. Os garçons passavam reto. O Luís Arthur percebeu meu silêncio e perguntou o que era. Apontei com o olhar. Não fomos pedir foto. Ficamos quietos. A grandeza verdadeira não usa crachá, pensei. Mas logo me corrigi: será que é grandeza mesmo o que eu vi? Ou só a estranheza de quem esperava um personagem e encontrou uma pessoa?
Aí me veio a canção. “A Casa”. Aquela que toda criança cantou um dia, rindo da casa engraçada que não tinha teto, não tinha parede, não tinha chão. Onde não dava para entrar. Eu ria, menino, achando que era bobagem. Mas agora, com o Toquinho ali do lado e a vida inteira nas costas, a música voltou diferente — como se sempre tivesse dito algo que eu não estava pronto para escutar. A gente canta, mas não ouve. Canta, mas não mora.
Porque a gente passa a vida empilhando tijolo, assinando papel, confiando na fechadura e no muro alto. E basta uma noite mais silenciosa — daquelas em que a casa está em ordem mas o sono não vem — para perceber: a segurança mora em outro lugar. Menos alarme, mais a voz de alguém que pergunta se a gente quer mais café. Lembrei do meu pai na varanda depois do jantar. A casa ainda inacabada, mas tinha varanda. Ele ficava lá, quieto, olhando o nada. “Pai, tá pensando no quê?” “Nada, não.” Hoje desconfio que ele habitava a casa que não se vê — sem teto, sem parede, sem chão, mas com presença.
A gente não mora em endereço. A gente mora em memória, em cheiro, em voz. Ouvi isso de um amigo e achei bonito. Depois duvidei: será que mora mesmo? Ou só visitamos, de vez em quando, e no resto do tempo somos inquilinos de nós mesmos? O mundo oficial exige parede, teto, endereço nobre. Mas na geografia da amizade a gente habita o número zero — não como falta, como origem. Ali podemos tirar o terno e confessar: estou cansado, triste, ou estupidamente feliz. Se não pudermos fazer isso ali, onde então? Não sei responder. Mas sei que a pergunta importa.
Outra coisa que me ocorreu, e que talvez seja só impressão, é que não existem pessoas boas e más. Existem pessoas alegres e pessoas infelizes. O comportamento é o que sobra dessa equação. Se você prepara um ambiente agradável, quase todo mundo se comporta bem. Mas preparar um ambiente agradável cansa. Dá trabalho. Exige uma paciência que eu mesmo não tenho metade dos dias. A angústia, essa fera, só sossega quando encontra a casa engraçada — onde o acolhimento não pergunta primeiro o currículo. Onde fica essa casa? Não tenho o endereço. Só os indícios: mesa comprida, toalha alisada, a voz do meu pai dizendo “senta aí, filho”. E ali a proteção não vem do que te cerca. Vem de quem te cerca.
O que acontece dentro de nós é criação nossa. Aprendi isso em algum lugar — ou foi meu pai, com outras palavras, olhando o nada na varanda. Tropeço nessa ideia todo dia. É mais fácil terceirizar a culpa, dizer “ele me irritou”, do que admitir que a irritação já estava aqui esperando um gatilho. Estar disposto é estar disponível, um grande “sim” à vida sem guerra com o que não se controla. Mas às vezes é só cansaço mesmo. E a gente se fecha. E a casa que não se vê fica lá, de luzes acesas, esperando.
A melhor casa do mundo não é feita de alvenaria. É feita de escuta, de riso solto, de mão estendida. Mas quem consegue morar nela o tempo todo? Eu não. Visito. Tem dias que fico. Tem dias que esqueço o caminho e só lembro por um detalhe ínfimo: cheiro de café, uma voz no rádio, um senhor pegando salada numa churrascaria. O Toquinho terminou o almoço e saiu. Pagou a conta, desceu as escadas e sumiu. Como entrou. Sem alarde, sem selfie, sem ninguém pedindo autógrafo. E eu fiquei lá, com o meu filho, mastigando o que parecia uma lição — mas talvez fosse só um almoço de sábado.
A gente vê. Ou não vê. Ou vê e não sabe o que fazer com o que viu.