PL processa empresa de TI de ex-diretora do governo Bolsonaro após pagar R$ 1,2 milhão e alegar serviços não entregues

Acordo previa o desenvolvimento de software de formação política. A proprietária da empresa se declarou médica ao TSE
Adriana da Silva e Sousa à esquerda; à direita, prédio em Brasília
À esquerda, Adriana da Silva e Sousa em 2018, quando foi candidata a deputada federal. À direita, edifício em Brasília, onde a Rightech foi registrada junto à Receita. Fotos: reprodução/TSE e reprodução/Google Street View.

A executiva nacional do Partido Liberal (PL) processou, no último dia 4, a empresa de tecnologia Rightech Global Consulting Ltda, sediada em Brasília. A legenda pagou cerca de R$ 1,2 milhão à companhia para prestação de diversos serviços, entre eles o desenvolvimento de um software, mas alega descumprimento do acordo. A agremiação pede a rescisão do termo e a devolução do dinheiro na ação, enquanto a contratada, por meio de resposta extrajudicial a qual O Fator teve acesso, nega qualquer problema.

Aberta em 8 de agosto do ano passado, segundo a Receita Federal, a Rightech tem como única sócia Adriana da Silva e Sousa, ex-diretora do Departamento de Saúde Digital da Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde. Ela foi nomeada pelo então ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, em julho de 2019, com salário de aproximadamente R$ 13,6 mil mensais, e exonerada no primeiro dia da administração do presidente Lula (PT), em janeiro de 2023.

Adriana foi candidata ao cargo de deputada federal pelo Piauí em 2018, quando concorreu pelo extinto PSL. Na ocasião, a mulher informou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter a medicina como profissão. Inclusive, foi proprietária de uma policlínica em Janaúba, no Norte de Minas, de maio de 2005 até outubro de 2018, quando o CNPJ ficou inapto por omissão de declarações.

No contrato, a que O Fator teve acesso, o PL contratou a empresa da médica para desenvolvimento do “Sistema Integrado de Mobilização e Formação Política”, uma plataforma que aliaria inteligência artificial e análise preditiva para estratégia política. 

O pacote completo incluía “desenvolvimento, implementação, operação e manutenção” do software, além de serviços de consultoria em gestão empresarial e estratégica; comunicação e marketing político; e educação política e formação de lideranças. 

O acordo previa, ainda, outros serviços, descritos como gestão e análise de dados, suporte técnico especializado, consultoria em segurança e proteção de dados e desenvolvimento de painéis executivos para monitoramento de métricas.

Para executar tudo isso, a empresa da médica Adriana da Silva e Sousa receberia 12 parcelas de aproximadamente R$ 307 mil cada. O PL repassou a Rightech quatro prestações, referentes ao intervalo entre outubro de 2025 e janeiro deste ano, totalizando os R$ 1,2 milhão citados. O período compreende a fase 1 do projeto, que compreendia a “estruturação e o planejamento integrado” dos serviços.

“Ocorre que, transcorrido o prazo estipulado, verificou-se que as entregas técnicas não foram realizadas conforme pactuado, permanecendo o projeto em estágio de estagnação, sequer concluindo os marcos iniciais da primeira fase”, justifica o partido na ação judicial a qual a reportagem teve acesso. 

“A plataforma e o aplicativo, que já deveriam estar em operação, sequer foram formalmente apresentados à direção da agremiação, o que comprova o grave descumprimento contratual”, alega o PL.

Tesoureiro assina, médica responde

O contrato entre o PL e a Rightech tem duas assinaturas: a da médica Adriana da Silva e Sousa, dona da empresa de tecnologia; e a do tesoureiro do partido, Jucivaldo Salazar Pereira. 

Diante do imbróglio na prestação dos serviços, o PL, representado por Jucivaldo, enviou uma notificação extrajudicial para pedir a rescisão do contrato em 27 de março deste ano. Três dias depois, em 30 de março, a Rightech se posicionou contra a solicitação.

A empresa alegou que “executou regularmente as obrigações técnicas previstas no Contrato nº 001/2025, conforme demonstrado pelos relatórios técnico‑executivos mensais, devidamente encaminhados, recebidos e aprovados pela diretoria do PL”.

Na resposta, a Rightech dividiu as entregas em quatro tópicos:

· Arquitetura sistêmica e prototipagem;

· Desenvolvimento de módulos e integrações;

· Testes, homologação e consolidação técnica;

· Disponibilização da plataforma e aplicativo em ambiente funcional, com todos

os módulos operacionais prontos, aguardando apenas a definição do PL quanto

à data de lançamento.

Ainda no ofício extrajudicial enviado a Jucivaldo Salazar, a Rightech informou que sua diretora-presidente, no caso Adriana Sousa e Silva, é “profissional sênior com ampla experiência em consultoria estratégica e tecnologia aplicada à política juntamente com sua equipe”. 

A empresa ainda alegou que desenvolveu e disponibilizou “mais de 50 aulas” de formação e educação política. 

Sobre os serviços de planejamento eleitoral, análise de dados, gestão de campanhas e consultoria de marketing político, a Rightech informou, na resposta enviada ao PL, que “apesar da reiterada disponibilidade manifestada pela empresa, a prestação efetiva desses serviços não ocorreu porque a diretoria do PL não realizou o chamamento ou a integração formal da equipe da contratada”.

E as outras parcelas?

O contrato assinado entre as partes prevê a possibilidade de rescisão unilateral com antecedência mínima de 30 dias. Como a notificação extrajudicial do PL só chegou à Rightech em 30 de março, a empresa cobra, além das quatro parcelas já pagas referentes aos serviços prestados entre outubro de 2025 e janeiro deste ano, as prestações de fevereiro, março e abril de 2026. 

Ou seja, pela versão da Rightech, o Partido Liberal precisaria repassar, além dos R$ 1,2 milhão já pagos, mais R$ 921 mil. 

“Ressalta‑se que os valores acima representam o patamar mínimo devido, não abrangendo integralmente os custos operacionais, investimentos realizados, despesas com equipe técnica, infraestrutura e demais encargos suportados pela Rightech ao longo da execução contratual. Fica desde já resguardado o direito de apuração e cobrança de eventuais valores complementares em sede própria”, alega a empresa.

Sem conciliação

O processo movido pelo PL ainda está na fase de citação da empresa ré. Em 8 de maio deste ano, o juiz Caio Brucoli Sembongi, da 17ª Vara Cível de Brasília, deu um prazo de 15 dias para que a Rightech responda às alegações feitas pelo PL no processo movido. 

Na decisão, o magistrado deixa claro que não há possibilidade, por ora, de acordo entre as partes. “Ante o desinteresse da parte autora (o PL) na realização de audiência de conciliação, bem como a possibilidade de a qualquer momento as partes transacionarem judicialmente e extrajudicialmente, cite-se a parte requerida (a Rightech) para oferecimento de resposta no prazo de 15 dias”, escreve o juiz.

Partes demandadas

A reportagem tentou ligar para o telefone cadastrado pela Rightech junto à Receita Federal, mas o número não existe. Enviou, então, e-mail para o endereço informado pela empresa à Receita e aguarda retorno. Este texto será atualizado se a companhia se manifestar.

Também entramos em contato com o PL para posicionamento, mas não houve retorno até esta publicação. O conteúdo também será atualizado em caso de retorno da agremiação.

Repórter de bastidores e orientado por dados de O Fator em Belo Horizonte, onde cobre política e mercado. Também é professor da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, onde leciona disciplina ligada ao jornalismo de dados. Trabalhou por sete anos no jornal Estado de Minas, onde foi repórter e coordenador de jornalismo de dados. Também trabalhou no caderno de política do jornal O TEMPO por dois anos. É master em Jornalismo de Dados, Automação e Data Storytelling pelo Insper.

Leia também:

Governo de Minas diz ao STF que privatizar a Copasa sem referendo é ‘escolha política’ para garantir autonomia fiscal

PL processa empresa de TI de ex-diretora do governo Bolsonaro após pagar R$ 1,2 milhão e alegar serviços não entregues

Justiça absolve ex-vereadora de Nova Lima acusada de desviar R$ 266 mil de verba de gabinete

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse