Justiça paralisa a implantação do novo modelo de regulação do SUS em Minas

Modelo, baseado em central única amparada por IA, tem sido alvo de críticas por parte de gestores macrorregionais.
Foto mostra leitos hospitalares
Governo de Minas quer emplacar novo modelo de regulação hospitalar. Foto: Pedro Chagas/Imprensa MG

A Justiça determinou a suspensão do processo de implantação do novo sistema de regulação do acesso aos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) em Minas Gerais. A decisão, tomada em caráter liminar, paralisa a entrada em vigor da chamada Central de Operações para Regulação (Core) e recoloca em funcionamento integral o antigo modelo, batizado de SUSFácil. 

A Core, conhecida pela alcunha “Regulação 4.0”, está baseada na centralização, em Belo Horizonte, das etapas inerentes à liberação de leitos hospitalares e de cirurgias eletivas. A sentença que ordenou a paralisação foi expedida na sexta-feira (22) pelo juiz Wenderson de Souza Lima, da 2ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias de BH.

Diferentemente da Core, o SUSFácil é composto por centrais macrorregionais de regulação de leitos e procedimentos médicos. O cronograma do governo de Minas previa a migração do processo de liberação de serviços de urgência e emergência para a central única no dia 19 deste mês, com as intervenções de pouca urgência permanecendo temporariamente sob o guarda-chuva do antigo sistema.

A decisão foi fruto de pedido do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). Ao solicitar a suspensão da implantação da Core, o MPMG apontou problemas operacionais na transição para o novo modelo. Segundo a petição inicial, houve impossibilidade técnica de migração automatizada dos dados do SUSFácil, podendo ocasionar prejuízo aos pacientes.

Para desenvolver o novo sistema, que tem o uso da Inteligência Artificial (IA) como uma das premissas, o governo de Minas Gerais contratou o Laboratório de Inovação Tecnológica de Saúde (Lais), da Universidade do Rio Grande do Norte (UFRN). Conforme o MPMG, porém, o acordo foi firmado “em absoluto descompasso com os ritos tradicionais de contratação de engenharia de software e sem submissão ao crivo da ampla competitividade”.

Segundo a decisão de sexta-feira, a suspensão da nova engrenagem permanecerá válida até a análise de mérito do caso. 

“Do apontamento acima transcrito, ressurte que o pressuposto genérico, prova inequívoca dos fatos invocados, e cuja constatação, ainda que embrionária, mas com densidade demonstrativa suficiente ao fim colimado, emerge dos autos, cumpriu sua destinação de formar o convencimento, ainda que provisório, acerca da verossimilhança dos fatos alegados, possibilitando a formação de um Juízo de probabilidade e verdade, que torna a delineação dos contornos da tutela pleiteada viável, tornando-os válidos e aptos a motivar a antecipação (a liminar) pretendida.”, escreveu Wenderson de Souza Lima.

Queixas nos bastidores

A ideia da Core foi anunciada pelo governo de Minas em outubro do ano passado, ainda sob Romeu Zema (Novo). De lá para cá, gestores municipais passaram a manifestar receio com a centralização dos estágios de regulação. Prefeitos ouvidos por O Fator sob reservas afirmam que os primeiros dias do novo modelo gerou filas nas unidades de saúde, pois pedidos que antes demoravam minutos para serem processados passaram a precisar de horas para receber aval.

No fim do ano passado, representantes de centrais macrorregionais de regulação enviaram, a colegas de trabalho, um texto discordando da intenção do Palácio Tiradentes de centralizar o trabalho em BH.

“A maioria de nós se posicionou de forma contrária a essa proposta, visto que um dos princípios organizativos do SUS é a descentralização. Entendemos que uma central única será extremamente prejudicial aos nossos usuários, que a regulação de 853 municípios em um único local, que desconhece as particularidades locorregionais, comprometerá a equidade do acesso, impedindo a tomada de decisões mais ágeis e condizentes com a realidade local”, escreveram os profissionais.

Por outro lado, o Executivo estadual sustenta que o sistema, aliado à utilização da IA, diminuirá o tempo de espera por vagas de internação. Há ainda a alegação de que a centralização permitirá que mais médicos reguladores atuem na liberação dos procedimentos.

O Fator procurou a Advocacia-Geral do Estado (AGE) para saber se haverá recurso à medida liminar. Em caso de resposta, este texto será atualizado.

Foi repórter especial do caderno de Política do Estado de Minas. Trabalhou, também, na Rádio Itatiaia. Antes, militou no jornalismo esportivo, no Superesportes.

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