‘Onde está Lula?’: ausência do presidente abre espaço para queixas no PT mineiro

Presidente visitou o estado duas vezes em 2026, enquanto dirigentes do PT reclamam da centralização das decisões em Brasília
Lula em palanque
Presença constante em Minas na campanha de 2022, Lula reduziu as agendas no estado em 2026 Foto: Ricardo Stuckert/PR

A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Minas Gerais começou a provocar incômodo entre integrantes do PT no estado. Em meio à indefinição sobre o palanque ao governo do estado e ao vácuo deixado pela desistência de Rodrigo Pacheco (PSB), dirigentes da legenda passaram a cobrar uma participação mais direta do presidente na reorganização política mineira.

Segundo maior colégio eleitoral do país, Minas recebeu Lula apenas duas vezes em 2026. A última visita aconteceu em março, durante agendas em Betim e Sete Lagoas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Desde então, o presidente não voltou ao estado, enquanto o PT atravessa uma crise de articulação que deixou a legenda sem candidato definido ao Palácio Tiradentes e sem consenso sobre qual caminho seguir.

O contraste chama atenção dentro do partido porque, no mesmo período de 2022, Lula manteve presença intensa em Minas. Ainda na pré-campanha, passou três dias no estado entre 9 e 11 de maio, com agendas em Belo Horizonte, Contagem e Juiz de Fora, numa mobilização tratada pelo PT como estratégica para consolidar alianças e fortalecer o movimento nacional da campanha.

Nos meses seguintes, Minas se transformaria em uma das prioridades centrais da campanha presidencial. Lula voltou ao estado diversas vezes durante a disputa eleitoral e intensificou agendas no interior mineiro e na RMBH na reta final da eleição, diante da avaliação de que o estado seria decisivo para o resultado nacional.

Agora, quatro anos depois, a percepção de parte do PT é oposta. Integrantes da legenda afirmam reservadamente que a ausência de Lula ampliou a sensação de desorganização interna justamente no momento em que o partido perdeu seu principal plano para Minas.

Durante meses, a estratégia construída pelo entorno do presidente esteve concentrada na tentativa de convencer Rodrigo Pacheco a disputar o governo do estado. Quando o senador desistiu da candidatura, o PT foi obrigado a reabrir praticamente do zero as negociações para definir quem representará o campo governista em Minas.

Mandando recados

Mesmo com a distância física, Lula já sinalizou a dirigentes do partido que sua preferência é por uma candidatura petista na cabeça da chapa em Minas. A posição passou a orientar parte das discussões internas após a saída de Pacheco do cenário, mas ainda não foi suficiente para pacificar as divergências sobre qual nome teria viabilidade eleitoral e capacidade de unificar as diferentes correntes da legenda.

O desgaste foi tão grande que o próprio presidente nacional do PT, Edinho Silva, admitiu publicamente que a desistência de Pacheco criou um problema para o partido. Desde então, dirigentes estaduais passaram a defender mais protagonismo do diretório mineiro e a reclamar, nos bastidores, da condução das negociações a partir de Brasília.

O incômodo, porém, não começou com a desistência de Pacheco. Integrantes da legenda relatam que já havia desconforto entre setores do PT mineiro com a centralização das decisões pela direção nacional e pelo entorno de Lula. A avaliação de parte dos dirigentes é de que as principais definições sobre a sucessão estadual ficaram concentradas na cúpula nacional, reduzindo a margem de atuação das lideranças locais justamente no estado considerado estratégico para o projeto de reeleição do presidente.

O PT chegou a sondar o deputado federal Reginaldo Lopes e a ex-prefeita de Contagem, Marília Campos, sobre a disposição de disputar o governo. No entanto, ambos resistem à ideia. Diante disso, passou a ganhar força o nome de Sandra Goulart, ex-reitora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na cota externa de possibilidades, são mencionados Gabriel Azevedo (MDB) e Alexandre Kalil (PDT), mas nenhum deles conseguiu, até aqui, se consolidar como solução consensual.

Contraste

Enquanto o PT tenta reorganizar seu projeto mineiro, adversários ampliam presença no estado. Ronaldo Caiado intensificou agendas em Minas nas últimas semanas e cumpre agendas no estado nesta semana. Já Flávio Bolsonaro desembarca em Belo Horizonte nesta segunda-feira (1º) para compromissos políticos e articulações eleitorais. Ao mesmo tempo, Romeu Zema (Novo) mantém uma agenda permanente pelo interior e transformou o próprio governo em vitrine política.

É justamente essa comparação que passou a alimentar o desconforto dentro do PT. A percepção que se instalou em setores do partido é a de que Minas ficou em segundo plano nas prioridades políticas do presidente.

Ana Mendonça é jornalista e estudante de Ciência Política, ex-colunista do Estado de Minas, onde cobriu os bastidores da política mineira por 8 anos. Em 2024, foi reconhecida no 30 Under 30 da International News Media Association.

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