Ponte histórica furtada em MG foi vendida por R$ 700 mil por madeireira da Bahia

Documento fiscal obtido pela reportagem aponta origem da negociação e ausência de registro no Iphan
A estrutura metálica tem cerca de 20 metros de extensão e cinco metros de largura. Foto: Polícia Civil

A ponte histórica que desapareceu, furtada, na última semana em Prados, na região Central de Minas Gerais, foi vendida por R$ 700 mil e teve nota fiscal emitida por uma empresa de comércio de madeiras da Bahia. A estrutura já foi recuperada. Os compradores negam qualquer irregularidade na negociação (veja o posicionamento completo no final do texto).

O documento, obtido por O Fator, foi apresentado pelos compradores aos investigadores e indica a empresa Madeiras Gonçalves, sediada em Tanque Novo, na Chapada Diamantina, como responsável pela venda da estrutura. O imposto da negociação também foi recolhido na Bahia.

A firma não possui cadastro no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para a comercialização de obras de arte e antiguidades, exigência prevista na legislação federal para esse tipo de transação.

O Fator entrou em contato com o proprietário da empresa na Bahia, que chegou a responder ao primeiro contato mas, em seguida, ao ser questionado sobre a ponte, bloqueou o contato da reportagem.

A ponte desapareceu na sexta-feira (5) em Prados, a cerca de 190 quilômetros de Belo Horizonte. Cinco dias depois, na quarta-feira (10), a estrutura foi localizada na Vila do Mogol, povoado situado a aproximadamente 180 quilômetros do local de origem, nas proximidades de Lima Duarte.

Segundo a Polícia Civil, a estrutura metálica tem cerca de 20 metros de extensão e 5 metros de largura. As investigações indicam o uso de equipamentos de corte e de veículos de grande porte para a retirada e o transporte da ponte.

De acordo com os investigadores, a estrutura foi adquirida pelo Ibiti Projeto, empreendimento turístico localizado na Serra do Ibitipoca. Em nota, o empresário Renato Machado, responsável pelo Ibiti Projeto, informou que a compra foi feita de um vendedor de antiguidades e que não tinha conhecimento sobre possível origem ilícita do material.

Construída na Inglaterra no século XIX, a ponte foi importada durante o período imperial e incorporada à antiga Rede Ferroviária Federal. Atualmente, era utilizada por ciclistas na região de Prados.

A Polícia Civil investiga a autoria do furto e as circunstâncias da retirada e da comercialização da estrutura.

Outro lado

Procurado pela reportagem, o advogado Thiago Rodrigues, responsável pela defesa do empresário Renato Machado, afirmou que todas as informações relativas à regularidade e à lisura dos procedimentos adotados pelo empresário e seus colaboradores estão sendo devidamente esclarecidas às autoridades competentes. Acrescentou que, neste momento, a defesa se reserva a prestar esclarecimentos adicionais exclusivamente nos autos, em respeito às instituições e às autoridades responsáveis pela apuração dos fatos.

A defesa apontou, ainda, que é necessário aguardar a conclusão da investigação e que, em breve, irá se manifestar publicamente sobre o caso.

“Em breve a verdade virá à tona, não houve, sob qualquer ótica, nenhum tipo de furto da ponte. Os fatos serão esclarecidos assim que as autoridades estiverem em posse de toda a documentação”, afirmou o advogado.

A defesa pontuou, ainda, que é importante reafirmar a honrosa história de Renato Machado e toda a contribuição que o empresário já deu ao desenvolvimento da região, e que sua história de vida ao longo de 46 anos é de um empresário ético, sério, probo e filantropo.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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