O Índice Brasil de Inovação e Desenvolvimento, IBID 2025, elaborado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial, coloca Minas Gerais na quarta posição nacional em ensino superior, pesquisa e criação de conhecimento. Quando passamos da produção de conhecimento para as condições necessárias à sua transformação em riqueza, o desempenho piora: o estado aparece em 11º lugar em investimento, 9º em ambiente de negócios e apenas 23º em ambiente regulatório.
Esse é o paradoxo mineiro. Minas Gerais produz conhecimento, forma pesquisadores, possui universidades de excelência, uma base empresarial diversificada e alguns dos mais importantes centros de pesquisa do país. Ainda assim, encontra dificuldades para transformar todo esse patrimônio em inovação e tecnologia, novos negócios, empregos qualificados, sustentabilidade, produtividade e prosperidade.
Temos, portanto, um problema que não pode ser atribuído à falta de conhecimento ou de vocação. Produzimos ciência, formamos pessoas e possuímos competências de padrão internacional, mas ainda somos pouco eficientes em transformar esses ativos em desenvolvimento.
Foi a partir desse diagnóstico que nasceu o documento “Propostas para uma Política de Estado de Tecnologia, Inovação e seus Negócios em Minas Gerais: Contribuições para os programas de governo 2027 a 2030”. Mais do que apresentar uma lista de reivindicações setoriais, procuramos responder a uma pergunta que deveria ocupar lugar relevante no debate eleitoral: como transformar ciência, tecnologia e inovação em melhores produtos e empregos, empresas mais produtivas, serviços públicos mais eficientes e qualidade de vida para os mineiros e as mineiras?
A construção do documento procurou ser coerente com essa preocupação. Uma versão preliminar foi submetida a especialistas, professores, cientistas e empresários. Depois, passou pela discussão de instituições que atuam diretamente no ecossistema mineiro de inovação e tecnologia. O documento final foi subscrito por FUMSOFT, Instituto Odsseia, Federação Assespro-MG, Sucesu Minas, Orbi Conecta, Fundação Biominas, Sociedade Mineira de Engenharia, Raja Valley e Baanko.
O processo importa porque uma política de inovação e tecnologia não pode ser de um governo, de uma secretaria ou de um determinado grupo. Precisa sobreviver à alternância democrática do poder. Por isso, embora apresente medidas concretas para o período de 2027 a 2030, a proposta trabalha com horizonte até 2050. Ciência, tecnologia, formação de pessoas e transformação produtiva sustentável exigem continuidade, previsibilidade e tempo.
Partimos das vantagens que Minas já possui para identificar cinco grandes prioridades.
A primeira é energia e transição energética. Minas reúne recursos naturais, conhecimento, empresas e infraestrutura que permitem transformar a energia limpa em instrumento de uma nova política de desenvolvimento. Energia solar, biocombustíveis, armazenamento, redes inteligentes e minerais críticos não deveriam ser tratados como agendas independentes. Fazem parte de uma mesma transformação econômica que está reorganizando investimentos, cadeias produtivas e relações geopolíticas no mundo.
A segunda prioridade é saúde, biotecnologia e ciências da vida. Minas possui universidades, hospitais, centros de pesquisa, empresas e polos produtivos que permitem ampliar nossa participação no Complexo Econômico Industrial da Saúde. Medicamentos, biofármacos, pesquisa clínica, equipamentos e novas tecnologias podem gerar conhecimento, empregos de elevada qualificação e reduzir vulnerabilidades estratégicas do país.
A terceira é mineração, minerais críticos e novos materiais. Talvez nenhum exemplo revele tão claramente o paradoxo mineiro. Somos uma das grandes províncias minerais do mundo, mas continuamos exportando parcela relevante dessa riqueza com baixo grau de transformação. A transição energética e a disputa internacional por minerais críticos abrem uma janela de oportunidades para avançarmos em processamento, metalurgia, novos materiais, reciclagem e economia circular. Agregar inteligência, tecnologia e valor àquilo que já produzimos, sem deixar de minerar, é o caminho para atravessar essa janela.
A quarta prioridade é a agroindústria avançada, a bioeconomia e os bionegócios. A força do agronegócio mineiro pode ser combinada com biotecnologia, inteligência artificial, digitalização, rastreabilidade e identidade territorial. Isso vale para grandes produtores, mas também para a agricultura familiar, cooperativas e economias locais. Minas possui diferentes biomas, enorme diversidade produtiva e marcas territoriais reconhecidas. Transformar essa diversidade em produtos de maior valor agregado é também política de inovação e tecnologia.
A quinta prioridade é mobilidade sustentável, logística e gestão de ativos. Minas construiu uma base empresarial relevante em locação e gestão de frotas, serviços, software e dados. Há espaço para transformar essa experiência em um polo latino-americano de tecnologia aplicada à mobilidade.
Essas prioridades não funcionam isoladamente. Inteligência artificial, transformação digital, engenharias, cibersegurança, sustentabilidade e internacionalização devem atravessar todas elas. Da mesma maneira, infraestrutura computacional, dados públicos abertos e laboratórios de manufatura avançada podem ser organizados como ativos compartilhados por universidades, empresas e centros de pesquisa.
O documento defende que os incentivos públicos devem estar associados à geração de valor no território, à formação de pessoas, ao desenvolvimento de fornecedores e à criação de novas capacidades. Minas pode e deve buscar uma posição de referência na sua utilização responsável da inteligência artificial pelo poder público, aumentando produtividade, melhorando serviços e reduzindo custos.
Nada disso, entretanto, acontecerá sem enfrentar dois problemas menos atraentes para discursos eleitorais, mas decisivos para qualquer política séria: governança e financiamento.
Minas precisa separar a definição estratégica da execução. Uma instância de alto nível, liderada pelo governador, deve estabelecer prioridades, metas e cobrar resultados. A execução precisa estar concentrada em uma estrutura com orçamento, autoridade, equipe técnica e capacidade de coordenar diferentes áreas do governo. Conselho sem poder, reunião sem decisão e estratégia sem responsável produzem documentos, não transformação.
Experiências internacionais oferecem referências úteis. O País Basco separa a estrutura responsável pela execução daquela dedicada à articulação do ecossistema. O Chile combina sua agência de fomento com estruturas setoriais público-privadas. Os desenhos institucionais variam, mas existe uma característica comum: prioridades políticas claras convivem com capacidade técnica e continuidade na execução.
Por isso, propomos contrato de gestão com metas públicas, mandatos técnicos não coincidentes com o calendário eleitoral e relatório anual de execução apresentado à Assembleia Legislativa e à sociedade. Política de Estado precisa ter responsáveis, indicadores e prestação de contas.
O financiamento apresenta desafio semelhante. A Fapemig operou em 2025 com orçamento da ordem de R$ 568 milhões. A Fapesp movimentou aproximadamente R$ 2 bilhões em 2024. Evidentemente, as bases econômicas e tributárias dos dois estados são diferentes, mas a comparação revela a escala do desafio. Mais importante do que anunciar recursos é garantir previsibilidade.
Pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e inovação empresarial não obedecem ao calendário fiscal de doze meses. Precisamos assegurar o repasse efetivo dos recursos constitucionalmente destinados à Fapemig e avançar de editais anuais fragmentados para instrumentos plurianuais, com desembolsos associados a etapas e resultados. Também é necessário rever mecanismos de acompanhamento, hoje frequentemente mais preocupados com processos burocráticos do que com resultados efetivamente alcançados.
Há ainda um instrumento poderoso praticamente subutilizado: o próprio poder de compra do Estado. Governos compram todos os anos bilhões de reais em equipamentos, sistemas e serviços. Parte dessa demanda pode ser utilizada para estimular inovação e tecnologia, e resolver problemas públicos. A Coreia do Sul construiu mecanismos que conectam produtos inovadores às demandas governamentais e incorporam compras de inovação e tecnologia à avaliação de empresas estatais. Comprar melhor também pode ser política de desenvolvimento.
Outra lacuna está no financiamento de projetos que já superaram a pesquisa inicial, mas ainda apresentam risco elevado demais para o investimento privado tradicional. É justamente nesse intervalo que muitas boas ideias morrem. Programas internacionais, como o Small Business Innovation Research dos Estados Unidos, mostram que o poder público pode compartilhar riscos sem substituir o mercado.
Minas também precisa melhorar sua capacidade de buscar dinheiro fora do orçamento estadual. Fundos federais, bancos de desenvolvimento, organismos multilaterais e novos mecanismos de financiamento climático movimentam volumes expressivos de recursos. O Eco Invest Brasil, por exemplo, já mobilizou mais de R$ 140 bilhões, e Minas simplesmente não aproveitou como poderia a janela de oportunidades aberta pela União.
Não basta reclamar da distribuição dos recursos. É preciso ter projetos. Por isso, uma das propostas é criar um escritório estadual de estruturação e captação, com metas explícitas de recursos federais e multilaterais. Em boa medida, a distância entre oportunidades financeiras e investimentos concretos está na capacidade de estruturar projetos, organizar garantias e executá-los.
Algumas decisões poderiam ser tomadas nos primeiros cem dias do próximo governo. Instituir a estrutura estratégica e executiva, designar claramente seus responsáveis, instalar o escritório de projetos e captação e estabelecer metas públicas seriam sinais concretos de que tecnologia e inovação deixaram de ocupar posição periférica.
Uma das metas propostas é levar Minas da sexta para a terceira posição nacional no IBID até 2030, com avanços específicos em investimento, crédito, tecnologias da informação, ambiente de negócios e ambiente regulatório. Mas rankings são instrumentos, não objetivos. A verdadeira medida de sucesso será outra: mais empresas inovadoras, maior produtividade, melhores empregos, mais investimentos, serviços públicos melhores e aumento da renda da população.
Por isso, defendemos um painel público de indicadores, com linha de base, metas e acompanhamento permanente. O cidadão precisa saber onde estamos, onde pretendemos chegar e se estamos avançando.
Minas não parte do zero. Talvez esse seja justamente o ponto mais importante. Temos universidades, centros de pesquisa, empresas, empreendedores, recursos naturais, infraestrutura e uma longa tradição de engenharia e conhecimento. O problema está menos na ausência de ativos e mais na dificuldade de coordená-los e transformá-los em capacidade produtiva.
O paradoxo mineiro pode, portanto, ser também nossa grande oportunidade.
Ciência e tecnologia não são temas restritos às universidades, aos laboratórios ou às empresas de tecnologia. Elas ajudam a definir que tipo de economia teremos, quais empregos serão criados, quanto nossas empresas produzirão, quais serviços públicos conseguiremos oferecer e qual posição Minas ocupará nas novas cadeias econômicas globais.
É por isso que tecnologia, inovação e seus negócios precisam entrar definitivamente no debate eleitoral.
O documento apresentado pelas entidades é apenas um primeiro passo. Não pretende encerrar a discussão nem oferecer respostas definitivas. Pretende fazer algo mais simples e talvez mais importante: colocar sobre a mesa temas, prioridades, instrumentos, metas e responsabilidades que possam ser debatidos pelos candidatos e cobrados pela sociedade.
As próximas eleições decidirão muito mais do que quem governará Minas durante quatro anos. As escolhas feitas agora ajudarão a determinar que economia, que empregos e que qualidade de vida Minas Gerais será capaz de oferecer nas próximas décadas.
Temos conhecimento. Temos recursos. Temos empresas. Temos pessoas.
O desafio é transformar capacidade potencial em prosperidade e desenvolvimento sustentável para mineiros e mineiras.
Artigo escrito em parceria com Leonardo Fares Menhem, membro do Conselho Deliberativo da FUMSOFT, Sociedade Mineira de Software, e fundador da Concert Technologies.