Para Patrus, passar de ano na escola é só um detalhe

O Brasil não precisa apenas de mais alunos aprovados. Precisa de alunos que aprendam e que transformem conhecimento em renda
O deputado federal Patrus Ananias. Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

Lula gosta de citar a educação como uma das conquistas dos governos petistas, especialmente o aumento do número de brasileiros no ensino superior. O acesso à universidade cresceu e o ProUni abriu portas para estudantes pobres. Também houve expansão da rede federal e o diploma faz diferença na renda. Segundo a OCDE, um brasileiro com curso superior ganha, em média, 148% mais do que aquele que parou no ensino médio, ainda que a própria renda média nacional seja baixíssima e a produtividade, então, nem se fala, o que mostra que um diploma, por si só, sem a devida qualidade, não significa uma vida digna e um país desenvolvido.

O chefão petista costuma dizer que recebeu o Brasil com cerca de 3,5 milhões de universitários e deixou o país com mais de 8 milhões. Mentira. Segundo o Inep, eram aproximadamente 6,4 milhões em 2010. Os 8 milhões só seriam alcançados em 2015, já no governo Dilma. Bolsonaro, por sua vez, deixou 9,44 milhões de matrículas em 2022. Em 2024, último Censo da Educação Superior disponível, eram 10,23 milhões. Atenção: a gestão petista é positiva, sim, estatisticamente, na educação. Mas quantidade não é sinônimo de qualidade. A prova disso temos cotidianamente por todo o Brasil. E também em todos os relatórios internacionais sobre o assunto.

A educação básica brasileira continua produzindo resultados horrorosos. No Pisa 2022, 73% dos estudantes brasileiros de 15 anos ficaram abaixo do nível mínimo de proficiência em matemática. Em leitura, 50%; em ciências, 55%. Segundo o próprio Inep, desde 2009 os resultados permanecem estagnados. O lulopetismo celebra a chegada de milhões à universidade enquanto uma parcela enorme dos adolescentes termina o ensino fundamental e avança pelo médio sem dominar matemática, leitura e ciências. Quando parte deles chega ao ensino superior, um em cada quatro abandona o curso no primeiro ano e apenas 49% o concluem até três anos depois.

O Fies ajuda a completar o quadro desolador. O programa permitiu que milhões de jovens frequentassem faculdades privadas, mas produziu também uma gigantesca carteira de inadimplentes. Em 2026, o governo lançou mais uma renegociação. Até julho, 113 mil contratos, representando quase R$ 6 bilhões em dívidas, haviam sido renegociados. Hoje, metade da população adulta brasileira está com alguma conta em atraso, e certamente a inadimplência escolar se faz presente. O PT é mestre em incentivar a gastança e o endividamento, para depois encontrar alguma solução mágica, via de regra, às vésperas das eleições. O futuro? Que se dane.

Olho vivo, MG

Patrus Ananias, candidato do PT ao governo mineiro, foi o prefeito que implantou em Belo Horizonte, em 1995, a tal Escola Plural. O programa reorganizou o ensino em ciclos, com a justificativa de combater a repetência e a evasão escolar, substituindo o método tradicional de reprovação por uma “progressão” dentro dos ciclos. Defensores argumentavam que a repetência expulsava da escola crianças pobres. Críticos diziam que o modelo permitia ao aluno avançar sem aprender o necessário. Quase 30 anos depois, Patrus volta a falar no assunto. Em encontro com representantes da educação, lamentou que o projeto não tivesse continuidade e falou em retomar o diálogo sobre o modelo.

Após inúmeras críticas de adversários, especialmente do candidato e ex-presidente da CMBH, Gabriel Azevedo, sua campanha negou, em nota, que Patrus pretenda implantar a Escola Plural na rede estadual e que isso não consta de seu plano de governo. A dúvida que fica é: por que então ressuscitou o tema? E mais. Como o candidato petista, assim como o próprio Lula, foge dos debates como o Drácula foge da cruz – já faltou a seis ou sete, e contando -, a questão permanece sem a resposta do próprio formulador. Afinal, Patrus, aluno tem de passar de ano na base da carteirada ou da canetada, se é que o senhor me entende a brincadeira?

A Escola Plural, vá lá, nasceu com objetivos compreensíveis: reduzir a repetência, a evasão e a exclusão. Beleza. Só que manter um aluno dentro da escola e fazê-lo avançar de ano – na marra! – sem que tenha aprendido o fundamental não resolve nada; apenas empurra o drama adiante. É como o estudante de ensino superior que recebe um diploma sem o devido preparo para o mercado de trabalho. No fim do dia, tem-se um jovem profissional endividado, empregado em uma função de baixa qualificação, ganhando pouco e contribuindo ainda menos para a produtividade do país. Se eu estiver errado, ficarei feliz em ser refutado com dados opostos.

O país – e não Lula e o PT – já demonstrou que consegue aumentar o número de matrículas. Mas o desafio que atravessou todos os governos pós-redemocratização continua: fazer com que a matrícula represente aprendizado e o diploma, qualificação. Patrus precisa explicar o que pretende. Não há mágica ou mentira petista que possa transformar a simples permanência de um aluno na escola em substituta do aprendizado. O Brasil não precisa apenas de mais alunos aprovados. Precisa de alunos que aprendam e que transformem conhecimento em renda. Do contrário, será mais uma das propagandas enganosas do lulopetismo. 

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

Leia também:

Para Patrus, passar de ano na escola é só um detalhe

Justiça agenda julgamento de embargos de Adauto e Muniz contra indeferimento de candidaturas

O tucano que se equilibra entre as campanhas de Kalil e Gabriel

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse