Bem, dessa vez, ninguém poderá dizer que foi por falta de opção se o eleito para o governo de Minas for – não necessariamente nessa ordem – um despreparado, um caloteiro, um lunático ou uma aberração política. Sim, porque temos – também não necessariamente nessa ordem – Mateus Simões (PSD), Gabriel Azevedo (MDB) e Flávio Roscoe (PL).
Mateus, como não é sabido por mais da metade da população do estado – o que indica grande potencial de crescimento durante a campanha – é o atual governador e conhece, como nenhum dos demais candidatos, a máquina estadual “por dentro”.
Foi secretário de Governo de Zema no primeiro mandato e vice-governador no segundo. Muitos o têm, inclusive, como uma espécie de Anastasia. Ou seja, quem verdadeiramente tocou a máquina, como muitos acreditam que foi o caso do atual ministro do TCU durante o governo Aécio Neves.
Os números do belo trabalho de recuperação do estado, após a hecatombe Fernando Pimentel (PT), a despeito de tantos problemas ainda existentes, falam por si. Acusar Mateus Simões, portanto, de despreparo ou incompetência, seria pura ignorância ou desonestidade intelectual.
Quadro e partido
Gabriel Azevedo (MDB) foi vereador por dois mandatos e presidente da CMBH, onde imprimiu um ritmo inédito de eficiência e economia à Casa. Disputou a Prefeitura de Belo Horizonte em 2024 e surpreendeu pela qualidade do debate e pelo número de votos obtidos.
Além de professor, publicitário, advogado e empresário, o que por si só o qualifica para administrar Minas, possui invejável currículo acadêmico, inclusive com diplomas internacionais renomados. É, sem dúvida, o mais academicamente preparado de todos.
Bolsonarismo em campo
Flávio Roscoe é outro que, por sua carreira de sucesso na iniciativa privada, se qualifica para o cargo. À frente da Fiemg, recuperou a força da entidade, reforçou o caixa e implementou um trabalho nas escolas do SESI de fazer inveja a qualquer entidade no Brasil e mesmo a governos de países desenvolvidos.
Sua linha ideológica, fortemente atrelada ao bolsonarismo, o atrapalha na conquista de alianças maiores. Por outro lado, quem não gostaria de, em um país altamente polarizado, ter como correligionários Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira? Porém, na própria entidade que presidiu, foi muito criticado por misturar sindicato com política. Mas, como os outros acima, dizer que não tem preparo para ser governador seria uma grande besteira.
Sempre no mundo da lua
Já sobre Cleitinho Azevedo, dizer o quê, se o próprio se assume como um “simples verdureiro” e é completamente despreparado até mesmo como senador da República, quiçá como governador de um estado com mais de 850 municípios, mais de 20 milhões de habitantes e quase R$ 200 bilhões em dívidas apenas com a União?
O nosso “pequeno Cleiton” não domina os temas mais simples, e mistura impostos e responsabilidades federais com estaduais, e promete acabar com o IPVA ao mesmo tempo em que fala em fortalecer os municípios – lembrando que metade da arrecadação estadual com o IPVA vai justamente para as cidades, sendo, em muitos casos, a mais importante fonte de receita.
O TikToker ataca setores importantíssimos para o estado, como a mineração, sem ter a menor ideia dos números relativos à geração de empregos e ao pagamento de tributos ao longo de toda a escala produtiva do setor. O consolo é, uma vez eleito, ele ter como vice Luís Eduardo Falcão, ex-prefeito de Patos e ex-presidente da AMM, um dos jovens valores da política mineira – a despeito de igualmente ter ao lado nomes como Eduardo Cunha, Euclydes Pettersen e Wellington Magalhães.
Baixando de vez o sarrafo
Na sequência, Alexandre Kalil. Considerado por parte da torcida atleticana um ótimo presidente, mesmo tendo afundado o clube em dívidas, protestos de cartório e ações judiciais, além de ter sido o responsável pelo maior vexame da história alvinegra, o 1 x 6 contra o rival Cruzeiro – sim, aquilo foi muito pior que cair para a Série B -, e de ter sido acusado de usar o Galo para o pagamento de despesas pessoais e favorecimento de parentes, elegeu-se, como um “outsider”, à Prefeitura de BH em 2016, reelegendo-se em 2020 em plena pandemia de Covid-19.
Como é seu hábito, sua passagem foi marcada por polêmicas, brigas, traições e acusações de uso da máquina pública, respondendo, inclusive, a uma CPI. Abandonou o cargo para se candidatar a governador em 2022 e levou uma senhora coça de Romeu Zema, que o derrotou ainda no primeiro turno. Ao final da campanha, brigou com o PT e foi defenestrado da campanha de Lula durante o segundo turno.
Em seguida, já no ostracismo político, após romper traumaticamente com o antigo partido, o PSD, embarcou na campanha de Mauro Tramonte (Republicanos), em 2024, à PBH. O deputado e apresentador de TV liderava com folga as pesquisas, mas, assim que Kalil chegou, brigas internas e falta de rumo levaram Tramonte a nem sequer passar para o segundo turno.
Foi o que sobrou
Acusado de traição pelos antigos aliados de partido e de não ter tido a gentileza de nem sequer comparecer ao enterro do amigo e vice-prefeito Fuad Noman, Kalil encontrou no PDT de Carlos Lupi – sim, o do INSS – uma legenda para disputar o Palácio Tiradentes.
Isolado politicamente, sem coligações, com pouco dinheiro, pouco tempo de rádio e TV e, claro, sem conteúdo e sem boa educação no trato com adversários, restou “passar pano” e fazer “juras de amor” a Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, a quem, antigamente, se referia pejorativamente como “príncipe” e falava em “gaiola” (prisão).
Candidato fujão
O primeiro debate da temporada, digo, campanha, foi realizado no domingo (17), nos estúdios da Band em BH. Presentes os principais candidatos, exceto Patrus Ananias, o escolhido na base do “resta um” pelo chefão petista e presidente da República, Lula da Silva.
Patrus é um homem bom e foi um importante prefeito de Belo Horizonte. Pesa em seu desfavor, na corrida para o governo, o fato de estar aparentemente cansado e sem energia, o que, em caso de eleição, abriria a porta do governo para petistas desempregados Brasil afora, como ocorreu durante a gestão de Fernando Pimentel à frente da PBH. Mas, como não compareceu, emulando o que promete o próprio Lula – fugir dos debates -, não dá, obviamente, para analisar seu comportamento.
Já sobre os demais, tudo conforme o esperado e em linha com o histórico e o currículo pessoal de cada um. Mateus desfilou com grande propriedade os números, os fatos e os índices positivos de sua gestão, tendo pleno domínio de seu plano de governo, para uma possível nova administração.
Um a um
Gabriel, sempre exímio comunicador, também analisou e propôs com racionalidade os temas. Seu programa de governo – é sempre bom lembrar – foi coordenado por ninguém menos que Marcos Lisboa, uma das maiores autoridades em gestão pública do Brasil.
Cleitinho… Bem. Cleitinho foi Cleitinho. Para não variar, não disse nada que preste, gritou muito – como sempre -, fez acenos a Lula e a Flávio Bolsonaro, falou que ama todo mundo e vida que segue. Ao menos não citou o Divino Espírito Santo como fonte de inspiração para suas propostas alopradas.
Flávio Roscoe – até mesmo por ser seu primeiro debate – se atrapalhou com a gestão do tempo e com as perguntas e respostas, mas foi claro o bastante ao defender suas ideias e sua visão de Estado.
Que assim não seja
A surpresa pra lá de negativa ficou mesmo com Alexandre Kalil. Patrus (o fujão) e Cleitinho (o Cleitinho) não podem ser considerados surpresa. Mas o ex-prefeito se dava bem em debates pela facilidade de prometer o que não iria entregar, dizer-se realizador do que nunca fez e tratar todo mundo a socos e pontapés de forma relativamente “engraçada”.
Dessa vez, porém, Kalil lembrou Dilma Rousseff – nossa eterna estoquista de vento e saudadora de mandicoca – em seus melhores piores momentos.
Perguntado sobre feminicídio, respondeu sobre tudo, menos sobre o tema. Falando do Triângulo Mineiro, não se lembrou do nome das cidades e ainda errou o nome da esposa de um prefeito local. Confrontado por Gabriel sobre temas simples, perdeu-se e xingou e ameaçou o colega. Acusado por Mateus de usar uma aeronave paga pela Prefeitura para “ir jogar” – imagino que em um cassino no exterior -, atrapalhou-se na resposta. E a cereja do bolo foi admitir, sem qualquer constrangimento, que não leu o próprio programa de governo que assinou.
Escolhas e consequências
Eu, pessoalmente, ficaria bem satisfeito com a eleição de qualquer um entre Mateus Simões, Gabriel Azevedo e Flávio Roscoe. Na minha escala de valores, Mateus se destaca por ser o incumbente e ter mais experiência na gestão pública que os demais.
Patrus significa, a meu ver, além do retorno do PT ao “local do crime” – parafraseando Geraldo Alckmin sobre Lula -, um sério retrocesso e um risco real de aparelhamento do governo de Minas pela máquina petista.
Já a eleição de Cleitinho – toc, toc, toc – ou de Kalil – toc, toc, toc ao quadrado – lançaria Minas nas mais sombrias trevas político-administrativas. Um, pelo absoluto despreparo para a complexidade do cargo; o outro, por um histórico que, a meu ver, recomenda distância segura do Palácio Tiradentes.
Opções, portanto, não faltam. Nem informações, currículos, histórias e exemplos do que cada um fez ou deixou de fazer. No fim do dia, como sempre, caberá ao eleitor escolher. E, claro, arcar com as consequências da própria escolha. Portanto…