A dez dias do primeiro turno, a ex-deputada federal Áurea Carolina (Psol) se empenha para reforçar que Marília Campos (PT) é sua parceira na disputa pelas duas vagas de Minas no Senado. Marília afirma pedir votos para Áurea, mas interlocutores do Psol ouvidos por O Fator relatam que a petista mantém distância em parte de suas agendas e, em outras ocasiões, “desaconselha” sua presença.
A assessoria de Marília nega qualquer tentativa de prejudicar Áurea, afirma que todas as agendas são compartilhadas com a equipe da psolista por meio de um grupo específico e que ela é sempre convidada a participar. Sobre os avisos de última hora, diz que “nem Marília sabe qual agenda terá amanhã”, porque os compromissos de campanha são definidos e alterados constantemente.
Em alas do Psol, a reclamação é que Marília aparece ao lado de Áurea somente em compromissos com movimentos sociais e segmentos já identificados com a esquerda. Nos encontros com prefeitos e vereadores do interior e da Região Metropolitana de Belo Horizonte, que fariam Áurea “deixar a bolha”, a presença da ex-deputada seria desaconselhada ou dificultada pelo aviso tardio sobre a programação.
Como exemplo, citam uma agenda no Triângulo Mineiro em que, segundo eles, Marília pediu a Áurea que não comparecesse porque os prefeitos presentes eram de direita.
No núcleo da campanha de Marília, a cobrança por mais espaço para Áurea é recebida com resistência. Sob condição de anonimato, um assessor do núcleo duro da equipe petista atribui a distância entre as duas às dificuldades da ex-deputada para ampliar suas articulações políticas.
“Áurea tem dificuldade de dialogar para fora da bolha da esquerda. Ela não pode querer que Marília carregue a campanha dela para além da sua capacidade de articulação política”, afirmou a fonte.
Dobradas à direita
Os pessolistas ainda descrevem como funcionariam as aproximações de Marília com candidatos ao Senado de fora da coligação. Segundo eles, cada lado reúne prefeitos e vereadores com quem mantém relação política e apresenta o outro candidato como opção de voto. Aécio foi citado como participante dessa dinâmica: levaria o nome de Marília a suas bases, enquanto apoiadores da petista fariam o movimento inverso.
A associação informal de Marília a Aécio Neves (PSDB), por sua vez, tornou-se a mais ruidosa entre as dobradinhas com candidatos de outros partidos.
Os mesmos interlocutores afirmam, porém, que Marília negou a Áurea, em uma reunião entre as duas, ter firmado acordos com candidatos da direita ou se encontrado com eles para tratar de dobradinhas.
Em resposta anterior a O Fator, a campanha da petista reconheceu a existência de combinações regionais, mas as atribuiu a apoiadores locais e afirmou que elas não partem da candidata nem de sua coordenação.
Questionada pela reportagem sobre essa dinâmica, Áurea evitou tratar diretamente das dificuldades relatadas por seus interlocutores. Preferiu reafirmar que trabalha pelo voto casado com Marília.
“Para mim não tem hipótese de dobrar com esses caras. Não quero esses votos. Não tem a menor possibilidade. Levo o nome da Marília em todas as minhas entrevistas, nas minhas agendas. As lideranças que me procuram para oferecer agendas ou mobilizações com outros nomes que não o da Marília recebem de mim minha mais veemente negativa”, disse.
Resistência antiga
A distância entre as campanhas antecede o “Marécio”. Em novembro de 2025, quando as duas ainda eram pré-candidatas, Áurea já defendia que o campo progressista buscasse as duas vagas mineiras ao Senado. Marília, por sua vez, condicionava sua entrada na disputa a ser tratada como prioridade pelo PT e por Lula.
Em março deste ano, O Fator mostrou que a petista buscava uma candidatura capaz de dialogar com o centro político, enquanto Áurea fazia gestos públicos em favor da dobradinha. Uma publicação conjunta em junho provocou incômodo entre aliados de Marília, que rejeitavam antecipar uma composição.
No dia seguinte, Áurea esclareceu que a publicação não anunciava um acordo eleitoral entre elas.
A resistência à composição também apareceu nas negociações partidárias. Em 21 de julho, o PT convidou Psol e Rede a apoiar Patrus Ananias ao governo de Minas, mas não garantiu a Áurea um lugar na chapa ao Senado. À época, lideranças petistas defendiam que Marília tivesse ao lado um nome mais identificado com o centro político.
Posteriormente, Áurea foi confirmada como o segundo nome ao Senado na chapa, na composição do PT com a federação PSOL-Rede.
O receio dos aliados de Marília
As dobradinhas informais que ampliaram as opções de Marília para o segundo voto passaram a preocupar parte de sua própria base.
Conforme noticiado por O Fator, integrantes do grupo político da petista em Contagem avaliam que o avanço do “Marécio” pode prejudicá-la.
Na leitura deles, Aécio passou a disputar eleitores de centro que a campanha de Marília também buscava alcançar.