Para que serve a Cemig?

A fachada da Cemig
Defendo que a empresa permaneça sob o controle de Minas Gerais. Não por nostalgia, nem por uma defesa abstrata do Estado empresário. Energia é uma infraestrutura estratégica e Minas precisa preservar instrumentos capazes de coordenar políticas e investimentos de longo prazo. Foto: Guilherme Dardanhan/ALMG

Para que serve a Cemig? A pergunta deveria vir antes de qualquer discussão sobre privatização, controle ou gestão da empresa. A resposta certamente começa pelo fornecimento de energia de qualidade, confiável e a preços competitivos. Mas não termina aí.

A Cemig nasceu, em 1952, porque Minas Gerais enfrentava um problema estrutural e concreto: faltava energia para sustentar a industrialização e o crescimento econômico. Juscelino Kubitschek compreendeu que aquele gargalo exigia capacidade estatal, planejamento e gestão. O resulto foi a criação das bases da industrialização do Estado.

Setenta e quatro anos depois, os desafios são outros, mas a discussão voltou a ser extraordinariamente atual.

Em 9 de janeiro de 2019, o professor e membro da Academia Brasileira de Ciência, Virgílio Almeida e eu publicamos no Valor Econômico o artigo “Cliente e inovação serão foco principal das elétricas” (Valor Econômico, 9 jan. 2019). Já apontávamos ali que o setor elétrico seria transformado pela descentralização da geração, pelas tecnologias de armazenamento, pela digitalização, pela inteligência artificial, pela expansão das fontes renováveis e pela descarbonização. Resumíamos aquela transformação em três grandes movimentos: digitalização, descarbonização e descentralização.

O que era tendência acelerou.

Redes inteligentes, geração distribuída, armazenamento, inteligência artificial, mobilidade elétrica, eletrificação industrial e data centers mudaram a própria natureza da indústria de energia. A rede elétrica passa a ser também uma infraestrutura digital. Dados, software, capacidade de processamento e inteligência tornam-se tão importantes quanto fios, subestações e usinas.

Ao mesmo tempo, a energia voltou ao centro da geopolítica e da política industrial (se é que algum dia saiu, como acreditaram alguns incautos). Minerais críticos, baterias, semicondutores, inteligência artificial, infraestrutura digital e energia limpa passaram a determinar a capacidade dos países e regiões de atrair investimentos e participar das novas cadeias globais de valor.

Ganhamos, assim, uma oportunidade única para o estado. Minas possui ativos extraordinários. Temos uma base mineral singular, tradição industrial, universidades e centros de pesquisa relevantes, posição geográfica privilegiada, potencial energético e empresas capazes de operar em grande escala.

O problema de Minas não é a falta de ativos. É nossa dificuldade histórica de organizá-los em torno de uma estratégia e transformar conhecimento, recursos naturais e capacidade empresarial em produtividade, inovação e atividades de maior valor agregado.

É sob essa perspectiva que a discussão sobre a Cemig deveria ser realizada. Defendo que a empresa permaneça sob o controle de Minas Gerais.

Não por nostalgia, nem por uma defesa abstrata do Estado empresário. Energia é uma infraestrutura estratégica e Minas precisa preservar instrumentos capazes de coordenar políticas e investimentos de longo prazo.

Mas controle público exige salvaguardas claras: gestão profissional, eficiência, transparência, responsabilidade financeira e proteção da empresa contra interesses espúrios.

A própria trajetória recente da Cemig demonstra a importância da disciplina financeira. Ainda no governo Pimentel, e com a salutar continuidade nos governos Zema, renegociações de dívidas, ganhos de eficiência, reorganização empresarial e venda de ativos não estratégicos (esta última com ressalvas que não cabem a este texto discutir), contribuíram para recuperar a capacidade de investimento da companhia. A relação entre dívida líquida e Ebitda, indicador central de saúde financeira de uma empresa, caiu de 4,98 vezes em 2016 para 1,30 vez em 2024 (a alta para 2,30 vezes em 2025 é um sinal de atenção, e reforça que essa disciplina precisa ser permanente, não episódica).

Agora, com as finanças reorganizadas e a capacidade de investimento recuperada, a Cemig deveria voltar as suas origens: ser protagonista do desenvolvimento estratégico de Minas Gerais.

Não se trata de retomar o modelo dos anos 1950, mas de compreender quais são os novos gargalos e oportunidades de Minas e como uma empresa com a escala, a capacidade técnica, o poder de investimento e a presença territorial da Cemig pode ajudar a enfrentá-los.
Isso não significa defender que a Cemig volte a construir e operar diretamente tudo aquilo de que necessita. O mundo mudou – e Minas também. Quando a companhia foi criada, o Estado não possuía uma rede empresarial, industrial e tecnológica suficientemente diversificada para responder aos desafios de expansão da infraestrutura. Hoje possui.

É justamente por isso que o papel da Cemig pode ser ainda mais sofisticado. Em vez de simplesmente verticalizar atividades, a empresa pode utilizar sua escala e seu poder de compra para estimular investimentos, tecnologia, serviços e desenvolvimento de fornecedores em Minas Gerais.
Energia, engenharia, manutenção, software, automação, inteligência artificial, armazenamento, equipamentos e soluções para redes elétricas representam mercados de grande escala. A Cemig pode estruturar desafios, programas de fornecedores e projetos de inovação capazes de aproximar essas demandas de empresas mineiras, universidades, centros tecnológicos e startups.

Essa política pode ter também uma dimensão regional. O Triângulo, o Norte de Minas, a Zona da Mata, Alto Paranaíba, Sul do Estado e outras regiões possuem competências empresariais, instituições de ensino e vocações econômicas próprias. A companhia pode contribuir para transformar essas capacidades em novos polos de fornecedores e tecnologia.

Não se trata de privilegiar empresas apenas pela localização geográfica, nem de abrir mão de preço ou competição. Trata-se de utilizar critérios bem desenhados de inovação, desenvolvimento de fornecedores, conteúdo tecnológico e impacto econômico para que parte relevante do poder de compra da empresa produza também externalidades positivas para Minas.

O mesmo princípio vale para os grandes processos de contratação de bens e serviços. Quanto maior a capacidade de compra de uma empresa controlada pelo Estado, maior deve ser a exigência de competição, transparência, critérios objetivos, auditabilidade e controle.

Essa capacidade, obviamente, precisa estar protegida por boa governança. As denúncias recentes envolvendo a Cemig (e aqui não entro no mérito e nem faço qualquer juízo de valor) servem, mais uma vez, de alerta: o preço da boa governança é a eterna vigilância. Empresas públicas e sociedades de economia mista estão permanentemente sujeitas à tentativa de captura por interesses ilegítimos ou espúrios.

Preservar a Cemig como instrumento estratégico de Minas exige instituições fortes, regras claras, transparência e uma sociedade permanentemente atenta à sua gestão. Defender a empresa sob o controle do Estado significa também defendê-la de qualquer tentativa de utilização que se afaste dos interesses da companhia, de Minas Gerais e dos mineiros.

E qualquer discussão sobre esse novo protagonismo começa pela qualidade e disponibilidade do serviço de energia. Quem espera horas pela recomposição do fornecimento, enfrenta dificuldades de conexão ou acesso para sua empresa ou não consegue resolver um problema de atendimento, pouco se interessa por grandes conceitos de desenvolvimento. O cliente precisa estar no centro da companhia.
Mas uma Cemig eficiente, financeiramente saudável, bem governada e orientada ao cliente pode e deve fazer muito mais.

Minas apresenta um conhecido paradoxo: produz ciência e conhecimento em quantidade relevante, mas ainda encontra dificuldades para transformá-los em tecnologia, empresas, produtividade e escala econômica. A Cemig pode ajudar a construir essa ponte.

Essa visão amplia o significado da Cemig como empresa-âncora da política tecnológica mineira. Ela pode apresentar desafios tecnológicos reais, encomendar soluções, realizar projetos piloto, disponibilizar ambientes de teste e utilizar seu poder de compra para criar mercado para tecnologias desenvolvidas no nosso Estado.

Mais do que financiar pesquisa, pode transformar problemas do sistema elétrico em desafios tecnológicos; desafios em soluções; soluções em produtos e empresas; e empresas em empregos, renda e desenvolvimento para Minas. A Cemig pode ajudar a organizar uma carteira mineira de projetos em armazenamento, redes inteligentes, eficiência energética, biogás, integração de fontes renováveis e inteligência artificial. Um centro de competência em armazenamento e integração de renováveis, por exemplo, poderia reunir a empresa, universidades, Fapemig, centros tecnológicos, startups e fornecedores.

Há ainda uma dimensão que precisa atravessar toda essa estratégia: a sustentabilidade. A transição energética não pode ser compreendida apenas como substituição de fontes. Ela envolve eficiência no uso dos recursos, redução de emissões, resiliência climática, gestão responsável da água, proteção ambiental e capacidade de gerar desenvolvimento econômico com menor impacto.

Minas possui condições para transformar essa agenda em vantagem competitiva, especialmente se conseguir conectar energia limpa, minerais críticos, indústria, tecnologia e inovação. Ocupar posição central nesse processo significa apoiar a descarbonização da indústria, ampliar a eficiência energética, estimular soluções de armazenamento e geração distribuída, incorporar ainda mais critérios ambientais aos investimentos e contribuir para que a transição energética produza também ganhos sociais e territoriais.

Essa mesma lógica se estende ao campo. Energia confiável é indispensável para irrigação, ordenha e resfriamento do leite, armazenagem, beneficiamento, automação, conectividade e pequenas agroindústrias. Melhorar redes rurais, estimular eficiência energética, geração distribuída e armazenamento significa aumentar produtividade e renda, inclusive para agricultores familiares e cooperativas.

Há ainda dimensões social e territorial. Uma empresa presente em praticamente todo o Estado possui dados, infraestrutura e capacidade de articulação que podem contribuir para enfrentar desigualdades regionais, melhorar ainda mais a eficiência energética de hospitais, escolas e equipamentos públicos e apoiar novas atividades produtivas. A Cemig já faz isto e pode fazer muito mais.

Cultura, educação e formação de pessoas também fazem parte desse processo. Desenvolvimento não é apenas crescimento econômico. Territórios competitivos combinam infraestrutura, conhecimento, identidade, qualidade de vida e capacidade de produzir e atrair talentos. Minas tem um enorme potencial e a Cemig pode ser um aliado estratégico.

Nada disso significa defender uma Cemig paquiderme ou uma empresa encarregada de resolver todos os problemas de Minas. Significa, sim, defender uma Cemig cada vez melhor e mais inteligente. O Estado não precisa substituir a iniciativa privada. Precisa saber coordenar, induzir, remover gargalos e criar condições para que empresas, universidades, investidores e empreendedores realizem aquilo que isoladamente dificilmente conseguiriam fazer.

O Estado do século XXI precisa saber utilizar seus ativos, suas empresas e seu poder de compra para mobilizar capacidades que já existem na sociedade. Nesse sentido, uma das maiores potencialidades da Cemig pode estar justamente aí: transformar recursos que já circulam todos os anos em energia, investimentos, equipamentos e serviços em uma alavanca adicional para o desenvolvimento econômico e tecnológico de Minas Gerais.

Temos ativos, instituições, conhecimento e capacidade empresarial. O desafio é transformar esse patrimônio em capacidade de execução.

Por isso, a pergunta decisiva não é simplesmente se a Cemig deve ser pública ou privada. A pergunta é outra: para que queremos a Cemig?
Se a resposta for apenas vender energia, provavelmente teremos uma companhia de energia como tantas outras. Se enxergarmos nela também um instrumento de competitividade, inovação, sustentabilidade e desenvolvimento, estaremos discutindo um ativo muito mais estratégico, como ela foi em sua origem.

O legado de JK não foi criar uma estatal. Foi dar a Minas capacidade de construir seu próprio caminho, seu próprio destino.

Precisamos reconstruir a capacidade de a Cemig ser instrumento de desenvolvimento para o Estado, de maneira responsável e estratégica, com foco na qualidade de vida dos mineiros e mineiras. A Cemig precisa ser, efetivamente, de Minas e dos mineiros e mineiras.

Thiago Camargo foi diretor da Cemig (2017/19). Advogado, especialista em gestão pública e mestre em Ciência Política pela UFMG.

Advogado. Especialista em Políticas Públicas. Mestre em Ciência Política.

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