“Já estudei muito, mas me considero hoteleira. Sou filha de José e Marieta.”
Ouvi Érica Drumond dizer essas coisas quase no mesmo movimento e fiquei pensando que havia ali uma espécie de biografia reduzida ao essencial. Há maneiras muito antigas de um ser humano dizer quem é. Uma delas é lembrar de quem veio; outra, nomear o ofício pelo qual entrou no mundo. Antes dos currículos, dos títulos e das formas sofisticadas de apresentação, uma pessoa era reconhecida pela família, pelo território e pelo trabalho. Érica poderia recorrer a uma longa lista de realizações, mas volta à filiação e ao ofício. É filha de José e Marieta. É hoteleira.
Na mesma conversa, falou de algo que hoje lhe dá prazer: servir. Servir em casa, à família, aos filhos, no hotel, às pessoas. Conhecendo-a, a palavra adquire imediatamente outro sentido, porque nela não há vocação para a submissão. É uma mulher de personalidade forte, clara, objetiva, pouco dada a rodeios. Fala o que pensa. Pode acolher alguém e discordar dessa pessoa na mesma conversa, cuidar e cobrar, ajudar e dizer com nitidez aquilo que considera errado. Servir, para ela, não significa desaparecer diante do outro. Significa estar presente e ser útil.
A hospitalidade é um dos pactos mais antigos entre os homens. Antes dos hotéis, das companhias aéreas, das plataformas de reservas e da indústria turística, houve uma porta que se abriu para quem vinha de fora, uma mesa preparada, um lugar oferecido ao descanso. Durante algum tempo, aquele que chegava ficava entregue à responsabilidade de quem o recebia. A hotelaria profissionalizou essa relação, mas não eliminou sua natureza humana. Talvez por isso Érica possa dizer, depois de tantos anos, que é hoteleira e que gosta de servir sem que uma coisa pareça menor do que a outra.
Foi José Décio Drumond quem lhe abriu a porta dessa profissão. O pai já tinha negócios no setor de serviços quando decidiu construir, nos anos 1990, um hotel cinco estrelas na Avenida Cristiano Machado, em Belo Horizonte, fora da geografia que a cidade então associava naturalmente à hospedagem de alto padrão. A ideia lhe pareceu quase uma loucura. O estranhamento virou curiosidade. Começou a viajar, observar hotéis, pesquisar modelos e aprender uma atividade da qual sabia pouco. Anos depois, resumiria a entrada nesse mundo com uma frase que diz muito da relação entre pai e filha: “Eu não escolhi, fui escolhida”.
O Ouro Minas abriu em 1996 e se tornou sua grande escola. Um hotel ensina de uma forma que poucas atividades ensinam, porque ali o resultado está permanentemente diante de quem o recebe, enquanto o esforço necessário para produzi-lo deve permanecer quase invisível. O hóspede vê a cama pronta, a mesa, a recepção, o silêncio do quarto, o café da manhã; quem conhece a operação enxerga governança, lavanderia, cozinha, manutenção, reservas, compras, fornecedores, tecnologia, custos, turnos e gente trabalhando enquanto outros dormem. Érica aprendeu cedo que uma experiência aparentemente simples pode exigir uma enorme arquitetura de trabalho.
O balé, outra parte importante de sua formação, conversa naturalmente com a hotelaria. Foi bailarina e ainda hoje se define, com humor, como “bailarina aposentada”. A dança lhe deu consciência do corpo, ritmo, disciplina, repetição, domínio do espaço. A leveza no palco não nasce da ausência de esforço, mas de tanto esforço que, um dia, ele deixa de aparecer. Há algo semelhante na boa hospitalidade: trabalha-se com rigor para que o outro experimente conforto. Quando fala de arte nos hotéis, Érica volta ao balé e à ideia de que arquitetura, música, poesia, ambiente e sensibilidade fazem parte da maneira como se recebe alguém.
Sua formação acadêmica acompanhou essa curiosidade. Estudou Relações Públicas, fez pós-graduação em Marketing na Fundação Getulio Vargas, estudou gestão e negócios nos Estados Unidos e continuou buscando formação executiva quando já acumulava décadas de experiência. Em 2020, dizia simplesmente: “Gosto muito da escola como aluna”. A frase dá outra dimensão ao “já estudei muito”. Não há rejeição ao conhecimento. Estudou porque sempre quis compreender melhor o que fazia, mas os diplomas jamais substituíram o nome do ofício.
Antes da vida pública veio o associativismo, talvez sua primeira escola propriamente política. Presidiu o Belo Horizonte Convention & Visitors Bureau, esteve à frente da hotelaria mineira, participou de organizações nacionais e aprendeu a conviver com empresários que eram, ao mesmo tempo, parceiros e concorrentes. É nesse ambiente que se compreende melhor uma frase sua, dita depois da passagem pelo governo: “O que me motiva é o meu espírito associativo.” Um hotel disputa hóspedes com outro hotel, mas ambos dependem da mesma cidade, das estradas, do aeroporto, da gastronomia, da cultura, dos eventos, da segurança, do comércio e da imagem que o destino produz de si mesmo.
Essa convicção atravessou sua trajetória. Décadas depois, já de volta ao Ouro Minas, continuaria dizendo que o hotel vive do movimento da cidade e cobrando de Belo Horizonte mais dinamismo, continuidade de políticas e capacidade de atrair gente. Sua maneira de colocar essas questões permanece direta. Em 2024, resumiu seu diagnóstico dizendo que Belo Horizonte “precisa acordar”. A formulação é típica de Érica: assume uma posição antes de procurar torná-la confortável.
A franqueza ajuda a entender a influência que construiu. Não pela ambiguidade, nem pela política eleitoral. Seu espaço público nasceu do conhecimento do setor, das entidades, da capacidade de articulação e das relações estabelecidas com empresários, municípios e governos. O associativismo lhe ensinou que interesses distintos precisam, em algum momento, encontrar uma mesa comum.
Em 2007, a empresária atravessou a fronteira entre o setor privado e o Estado e assumiu a Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais. A mudança não foi apenas de cargo, mas de escala. Passava a pensar o turismo em 853 municípios, numa geografia de cidades históricas, serras, águas, natureza, grandes centros urbanos, religiosidade, gastronomia, negócios, pequenas festas e manifestações locais que não cabem numa política uniforme. Sua agenda reunia regionalização, qualificação, promoção, inventário da oferta e desenvolvimento de destinos.
A política mineira de turismo não começou com sua gestão. Os Circuitos Turísticos e a regionalização vinham de antes, construídos por técnicos, municípios, entidades e governos sucessivos. Érica encontrou esse processo e conduziu uma etapa importante de consolidação. Ao fim daquele ciclo, em 2010, havia 46 associações de Circuitos Turísticos integradas à política estadual, 22 destinos indutores acompanhados por estudos de competitividade, o Conselho Estadual de Turismo reorganizado e o turismo incorporado aos critérios de distribuição do ICMS municipal.
Mais do que os números, importa a institucionalidade que se procurava construir. Conselho, fundo, participação regional e planejamento podem parecer burocracia para quem observa a política turística de fora, mas dão permanência a uma área frequentemente submetida à descontinuidade municipal. A festa termina, o prefeito muda, o secretário vai embora. Uma política amadurece quando consegue sobreviver, ao menos em parte, à biografia de quem temporariamente a conduz.
O Estado também lhe ensinou sobre limite. Uma personalidade objetiva, habituada ao ritmo da empresa e à necessidade de decidir, encontrou leis, competências, orçamento, controles, negociações e os tempos próprios da administração pública. Mais tarde, diria que aquela experiência a amadureceu. Saber o que precisa ser feito não significa que o poder público possa fazê-lo na mesma velocidade com que uma empresa toma uma decisão.
Ao final de 2010, poderia ter seguido na vida pública. Preferiu voltar à iniciativa privada. Não saiu do governo convertida à antipolítica, nem tratou aqueles anos como um desvio. A experiência pública permaneceu incorporada à empresária, embora não tenha se transformado em profissão definitiva.
Muitos anos depois, percorrendo Minas como secretário de Estado de Cultura e Turismo, encontro ainda a memória de Érica. Seu nome aparece em conversas com pessoas que atravessaram diferentes governos, nos Circuitos, nos municípios e nas entidades. Falam de trabalho, energia, presença, circulação. A memória oral não substitui a avaliação de uma gestão, mas seria um erro desprezá-la. O tempo também arquiva. Há pessoas que deixam decretos e relatórios; outras deixam, além deles, uma lembrança muito concreta da maneira como ocuparam um lugar.
A imprensa registrou essa intensidade durante anos. Em 2016, uma reportagem a chamou de “anfitriã inquieta” e contou que, em determinado momento, chegara a fazer dezoito viagens em quinze dias. Em outra ocasião, diria que já fizera nove voos numa única semana. A imagem é coerente com a mulher que conheço. Érica tem pressa, trabalha muito, cobra, movimenta-se. Esse modo de viver também cobra seu preço. Em sua própria narrativa aparecem noites mal dormidas e a dificuldade de diminuir o ritmo. A intensidade é uma força, mas também desgasta.
Minha relação com Érica ganhou outro significado em 2020. Quando assumi a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo, o mundo havia parado e o turismo estava ferido exatamente no seu fundamento. Viajar, reunir, hospedar, encontrar pessoas, realizar eventos: tudo aquilo que fazia o setor existir estava submetido a restrições. Hotéis ficaram vazios, restaurantes fecharam, aviões deixaram de voar e empresas construídas durante décadas começaram a fazer contas para saber quantos meses sobreviveriam.
Foi naquele tempo que Érica me ensinou hotelaria.
Conversei muito com ela porque precisava entender o hotel por dentro. Falava do quarto vazio que continuava custando, da folha, da energia, da lavanderia, da manutenção, da equipe que demora anos para ser formada e pode se desfazer em poucas semanas. Para o gestor público, uma queda de ocupação corre o risco de virar percentual num relatório; para quem conhece a operação, aquele número tem rosto. É a camareira, o recepcionista, o cozinheiro, o fornecedor, o motorista, o empresário tentando manter o caixa e as famílias que dependem daquela atividade.
Eu precisava saber aquilo para governar melhor. Não estava me preparando para administrar um hotel; tinha a obrigação de compreender o que significava tentar preservar uma atividade. Parte importante do que aprendi sobre hotelaria naquele período veio de Érica. Fui, em alguma medida, aluno dessa hoteleira.
Foi talvez nessa convivência que compreendi melhor a palavra servir. Ela já não estava no governo, não tinha obrigação institucional de me orientar. Fez porque sabia e porque aquilo que sabia podia ser útil. Há formas de serviço público que não exigem cargo. O conhecimento colocado à disposição de quem precisa decidir também participa da vida coletiva.
Depois do governo veio a fase em que sua autonomia empresarial se tornou mais evidente. Em 2011, diante da decisão da família de não ampliar a hotelaria no ritmo que desejava, resolveu crescer por conta própria e deu forma à Vert Hotéis. A empresa se expandiu, operou em diferentes mercados, trabalhou com marcas internacionais e levou seu nome para além do empreendimento criado por José Décio. A Vert mudou a leitura possível de sua trajetória: a filha do fundador construía uma obra própria.
José morreu justamente em 2011, no início dessa nova fase. Há algo profundamente humano no modo como Érica fala dessa ausência. A independência que os filhos procuram em relação aos pais convive, muitas vezes, com o desejo de que eles estejam presentes para testemunhar o momento em que conseguimos caminhar por conta própria. Ela construiria uma empresa nacional e, anos depois, lembraria a falta que sentia do pai nas inaugurações.
A Vert cresceu no ritmo de sua fundadora, e uma empresa que cresce depressa também convive com risco, tensão e conflito. Érica nunca escondeu divergências empresariais. Quando considerou não possuir autonomia suficiente para conduzir determinada operação, preferiu sair. Reaparece aí a diferença entre servir e ser servil. Sua hospitalidade não prescinde de responsabilidade nem de decisão.
Em 2020, a Atlantica adquiriu a Vert, encerrando um ciclo de intensa expansão empresarial. No ano seguinte, Érica voltou ao Ouro Minas depois de catorze anos afastada da administração cotidiana da empresa familiar. O retorno ganha força justamente porque houve uma partida. Se tivesse permanecido toda a vida no hotel do pai, sua história poderia ser lida simplesmente como sucessão. Não foi assim. Saiu, passou pelo Estado, construiu a Vert, atravessou expansão, conflitos, venda e pandemia, e só então regressou ao lugar onde aprendera a profissão.
Voltou diferente, e o hotel também precisaria mudar. Vieram modernização, tecnologia, novas experiências, maior atenção ao lazer e às famílias e, depois, uma nova associação internacional. O passado não desapareceu. José permaneceu como referência, mas a melhor maneira encontrada pela filha para preservar a herança do pai não foi conservar intacto aquilo que ele construíra. Foi continuar transformando.
Há uma ideia de patrimônio nessa atitude. Herdar nunca significou apenas receber. Toda herança traz consigo uma pergunta: o que faremos com aquilo que chegou até nós? Podemos repeti-lo, abandoná-lo ou transformá-lo sem romper inteiramente sua continuidade. Érica saiu do Ouro Minas para construir uma história própria e voltou quando já podia olhar para o empreendimento do pai sem desaparecer dentro dele.
Marieta aparece menos na documentação pública, mas permanece na maneira como Érica diz quem é: “Sou filha de José e Marieta.” Não cabe inventar aquilo que ainda não conhecemos da relação com a mãe. A história empresarial tornou José mais visível; uma vida, porém, nunca é feita apenas daquilo que os arquivos conseguem registrar.
A família retorna quando fala do presente. É mãe de três filhos e, depois de décadas de hotéis, governo, aeroportos, reuniões e expansão, diz encontrar prazer em servir em casa e aos filhos. A personalidade não se tornou menos firme. Continua opinando sobre hotelaria, trabalho, cidade e vida pública com a mesma clareza. Em 2025, falando sobre diferentes gerações e sobre a transformação da hospitalidade, disse uma frase que parece alcançar muito além do setor: “O interesse por pessoas torna a vida grandiosa.”
A frase retira a hotelaria do edifício e a devolve ao humano. Hotel não é cama, recepção, restaurante e tecnologia sem pessoas. Cidade turística tampouco existe apenas por suas paisagens. Governo, empresa, associativismo, família: em todos esses lugares Érica encontrou gente, conflitos, necessidades, expectativas. Talvez seja isso que una experiências tão diferentes numa mesma biografia.
Quando penso nela, penso também na clareza. Não construiu sua trajetória tentando agradar a todos. A franqueza produziu discordâncias, mas também confiança. Quem fala com Érica normalmente sabe qual é sua posição, qualidade que tem peso numa vida pública e empresarial em que tantas relações acabam corroídas pela distância entre aquilo que alguém diz e aquilo que realmente pretende.
Por isso volto à frase inicial. “Já estudei muito, mas me considero hoteleira.” Ao lado dela vem outra: “Sou filha de José e Marieta.” As duas dizem mais do que um currículo. A primeira a localiza no mundo pelo trabalho; a segunda a devolve ao lugar de onde veio. Entre ambas estão o balé, o pai, a mãe, os filhos, a Secretaria de Estado, as entidades, a Vert, o Ouro Minas, a pandemia, as viagens, os conflitos, o conhecimento acumulado e transmitido.
Hoje, quando Érica diz que gosta de servir, ouço isso vindo de uma mulher que passou boa parte da vida comandando e compreendo perfeitamente o sentido. Servir, para ela, é fazer-se útil sem deixar de ser quem é, receber e cuidar sem perder a própria voz, colocar experiência e trabalho à disposição de alguém que precisa.
Depois de tantos cargos, empresas e caminhos, Érica Drumond ainda prefere uma palavra simples para contar a própria história. Hoteleira.