Feridas em carne viva que jamais cicatrizarão

Eu e todas as futuras gerações de judeus estaremos irremediavelmente unidos às gerações anteriores por mais uma dor insanável
Há um ano ataques bárbaros do Hamas
Memorial do 7 de outubro (Foto: Biblioteca Nacional de Israel)

Que me perdoem outras torcidas e outros povos. Mas só os atleticanos e os judeus entendem o que é ser atleticano e judeu. E me perdoem também a precariedade da analogia, mas ambas as condições – por mais tolas que possam parecer à primeira à vista – são mais que especiais para mim. Mais que fundamentais na minha vida. São indissociáveis da minha própria existência.

Ontem, quarta-feira, 7 de outubro, no Centro Comunitário Associação Israelita Brasileira (CCAIB), em Belo Horizonte, a comunidade judaica mineira se reuniu em homenagem às vítimas do 7 de outubro de 2023, quando um ataque bárbaro dos terroristas do Hamas ceifou mais de 1.200 vidas, feriu e mutilou centenas de pessoas, sequestrou mais de 250 jovens, assassinou a maioria dos reféns, estuprou mulheres em frente aos filhos, espancou idosos, decapitou bebês e queimou famílias inteiras dentro de suas casas.

O relato acima é duro, cruel e pesado para quem lê? Sim. É. Muito. Imagine, então, para as famílias e os amigos de todos que sofreram tamanha violência.

Prezado leitor, prezada leitora. Isso aconteceu de verdade. Não é uma narrativa de filme de ficção. E foi testemunhado por quem “teve a sorte” – reparem nas aspas, por favor, porque não sei se a palavra sorte, aqui, é a mais adequada – de hoje estar vivo para lembrar.

Alguns meses após o acidente da TAM, em julho de 2007, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, que vitimou 199 pessoas, assisti a uma entrevista de um senhor, um empresário muito importante da capital paulista que perdeu os três filhos na ocasião. Já aposentado, teve que voltar à direção do grupo, já que eram eles que cuidavam dos negócios.

Perguntado pela repórter sobre como se sentia após tantos dias, ele respondeu: “É uma espécie de ferida em carne viva. Não cicatriza nunca. Dói todos os dias, a toda hora”.

Paternidade

À época, eu acabara de me tornar pai. Minha filha nasceu em 2006 e, claro, apesar do amor indescritível pela cria recém-nascida, eu ainda não tinha a noção do que o vínculo, com o passar dos anos, traria à minha relação com ela.

Hoje, quase vinte anos depois, assim como atleticano e judeu, eu não saberia me definir como ser humano sem ser pai da Sophia. Minha existência é atrelada à dela. E por ela! Por isso, compreendo perfeitamente o que o empresário paulistano disse. Se eu a perdesse, como milhares de israelenses – judeus e não judeus – perderam seus entes queridos no 7 de outubro, passaria o resto dos meus dias sobrevivendo como uma espécie de zumbi, sofrendo impiedosamente a cada milésimo de segundo.

Para sempre

Há mais de 80 anos, a máquina genocida nazista dizimou mais de 6 milhões de judeus, incluindo meus antepassados. Para mim, que não apenas nasci no Brasil como tive pais que também nasceram aqui, cada lembrança do Holocausto me dói como se fosse hoje e como se eu, diretamente, perdesse alguém. E esse meu martírio é compartilhado por qualquer judeu em qualquer canto do mundo.

Há apenas três anos, fomos lembrados não por livros, por filmes, por imagens, por memórias, mas sim por uma carnificina – que igualmente, daqui a 80 ou 800 anos, não só não será esquecida como continuará doendo -, de que não há dor d’alma que cicatrize. 

Eu e todas as futuras gerações de judeus estaremos irremediavelmente unidos às gerações anteriores por mais uma dor insanável.

Am Israel Chai.

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

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