Desde as semanas que antecederam o 1º = turno, o governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), vem repetindo insistentemente o mote “de direita, mas com coração para todos”. Um dos objetivos por trás do lema é mostrar que, independentemente do vencedor da disputa presidencial, protagonizada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), a quem apoia, manterá diálogo com a União.
Agora, passou a usar o ex-governador Romeu Zema (Novo) como exemplo do que não fazer. Em entrevista exclusiva a O Fator, Cleitinho avaliou negativamente a postura de Zema ante o governo Lula. A estratégia, diz, prejudicou as negociações referentes à dívida do estado com o governo federal.
“Aconteceu um erro nesse processo, com todo respeito ao ex-governador Romeu Zema: ele focou muito em ser presidente da República e começou a colocar ataques sobre o governo federal. Faltou diálogo”, aponta.
O passivo junto à União, de cerca de R$ 188 bilhões, aliado ao déficit de R$ 10,5 bilhões para 2027, tem tirado o sono da equipe de Cleitinho, que nos bastidores fala sobre a necessidade de construir saídas junto à Assembleia Legislativa (ALMG) e ao Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Apesar do problema fiscal, o governador eleito não abre mão do plano de reduzir as alíquotas do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA). Para compensar o corte, aposta em volume.
“Conversei com Ratinho (Júnior, governador), do Paraná. Lá, era 4% ou 4,5% e, em Santa Catarina, 2%. Ele reduziu e, dois anos depois, passou a arrecadar mais, porque equilibrou”, justifica.
Ainda senador em exercício, Cleitinho defende a “criatividade” como forma de buscar novas fontes de receita. Uma das ideias é a criação de um refis para permitir que empresas com débitos junto ao poder público acertem pagamentos com desconto. O objetivo é aportar os recursos em obras de infraestrutura.
Leia abaixo os principais pontos da entrevista. A íntegra está disponível no YouTube de O Fator.
Nesta semana, o governador Mateus Simões enviou à Assembleia um projeto sobre a revisão salarial das forças de segurança. Na semana passada, um texto que diminui alíquotas do IPVA. As propostas foram previamente alinhadas entre vocês?
Não. Vocês poderiam chamar o Mateus aqui, fazer uma entrevista com ele e perguntar por que não fez antes e está fazendo agora. Ele poderia ter feito antes. Mas o povo pode ficar tranquilo, porque o que falei durante a campanha a gente vai fazer durante o mandato.
O senhor pretende conversar com os deputados para que aprovem essas propostas ainda nesta legislatura?
Não conversei com eles ainda, mas, a partir da semana que vem, vamos começar a conversar com as bancadas e com os partidos. Por exemplo: tenho uma reunião com o PL. Vamos começar a conversar com todos os deputados.
Mas o senhor acha possível que os textos sejam aprovados neste ano?
Não sei. Acho que ele deveria ter feito isso antes. A partir de janeiro, a gente faz. A gente tem de ser maduro e parar de hipocrisia e demagogia. Ele está fazendo isso simplesmente para poder… vocês sabem. Não vou ficar falando de passado. Não quero falar do Mateus, um cara que respeito e admiro. Quero continuar tendo admiração por ele.
O senhor já pensou sobre a composição de sua base aliada na Assembleia?
Queria ter 100%, mas a gente sabe que em política não tem isso, nunca temos unanimidade. Tem o bloco independente, a base e a oposição. Quero dialogar com todos, inclusive com a oposição. Quem for de oposição, quero marcar sempre, pelo menos uma vez ao mês, para ouvir cada deputado e saber onde o governo pode melhorar e onde podemos alinhar, sem problemas de chegar à tribuna e me cobrar. A função do Legislativo é essa: fiscalizar. Então, (o governo) tem de ser fiscalizado.
O senhor pretende conversar inclusive com o PT, que está na oposição atualmente?
Converso com todos. (Em) tudo o que for a favor do povo, de interesse público, estou à disposição para alinhar e conversar, com o maior prazer.
O senhor disse que se reunirá com o PL. O encontro tratará da possibilidade de o partido estar na base aliada?
É natural o PL ser base. A gente já tinha até um alinhamento para ter o apoio do PL à minha candidatura, mas, pela questão de meu partido não ter me oficializado (até o início de agosto), o PL lançou um candidato (Flávio Roscoe). Vamos conversar. Quero fazer isso com todos os deputados.
O PL lançou Bruno Engler para a presidência da Assembleia. Também há a candidatura de Doorgal Andrada (PP), por exemplo. O senhor vai tomar partido na disputa?
É um voto individual de cada deputado. A Assembleia é independente do Executivo para isso mesmo. Fui deputado e sei que os deputados gostam de escolher. Não é o governador que tem que ficar intermediando. É uma independência deles. Quem for o presidente, vou estar, com o maior prazer, para alinhar e governar junto.
O senhor e seus aliados fazem questão de dizer que não há nenhum secretário definido, com exceção de Gabriel Azevedo, ainda sem pasta. Outros governadores eleitos, como Douglas Ruas, no RJ, e Sergio Moro, no PR, já começaram a escalar os times. Por que a diferença?
Porque a gente está escutando um por um. Vamos começar a governar em janeiro. Vai fazer três semanas (desde a eleição). Há tempo para escolher a dedo — e certo. Não vou me afobar.
Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, indicará nomes para o secretariado?
O que falei para ele foi que, se tiver sugestão de nomes competentes com interesse em vir para cá assumir alguma pasta, estou aqui para ouvir. Só que eu e Tarcísio não tivemos essa conversa. Mas não tem nada de ele impor (nomes para o secretariado). Tarcísio é governador de São Paulo. Como vai ficar governando comigo? Agora, me dar sugestões e orientações, com toda a humildade, quero não só dele, mas de todos. Se for pelo bem comum, quero escutar todo mundo.
Na campanha, o senhor falou sobre o desejo de ter uma servidora de carreira no comando da Educação. A ideia está mantida?
Quero conversar com os profissionais. A realidade da sala de aula, quem conhece são os profissionais da educação. São os servidores. Então, eu quero que eles me deem nomes. Mas, às vezes, eles podem dizer ‘eu quero um homem, Cleitinho’. Estou dando a opção de ser mulher, mas vou escutar sempre o servidor.
O senhor vê a necessidade de criação de uma secretaria específica para determinado tema?
Não acho que preciso criar (mais secretarias). Com a situação fiscal do estado, a gente tem de pensar muito nas secretarias de Planejamento e Fazenda. Isso é prioridade para mim. Estou conversando para escolhermos o secretário certo. Todas as secretarias são prioridade.
Então, o senhor escolherá os chefes da Fazenda e do Planejamento antes dos responsáveis pelas demais pastas?
Acredito que sim.
O déficit previsto para 2027 é de mais de R$ 10,5 bilhões. A dívida total do estado ultrapassa R$ 200 bilhões. Como atacar o problema?
Hoje, temos (na disputa presidencial) Flávio Bolsonaro e Lula. Estou apoiando Flávio; do Lula, não sou aliado. Mas, se Lula ganhar a eleição, o primeiro passo que tenho de fazer é procurá-lo. Já combinei com Flávio, que falou hoje (ontem) novamente sobre querer rever a dívida. Sugeri a ele reverter as parcelas (do Propag) que pagamos mensalmente em obras dentro de Minas, em infraestrutura, saúde e segurança. Ele fez esse compromisso comigo.
O que a gente tem de fazer é uma reforma administrativa, cortar gastos supérfluos e monitorar contrato por contrato. Colocar uma lupa mesmo. A gente (também precisa) trazer investimentos. Minas Gerais tem capacidade de atrair investimentos. Tenho de ser esse governador que não fica na Cidade Administrativa. Se eu precisar rodar o mundo inteiro para trazer investimentos, tenho de fazer, para aumentar a arrecadação.
Mas, para uma mudança na lógica dos gastos das parcelas do Propag, seria preciso aprovação do Congresso e extensão a todos os estados que participam do programa. Flávio está disposto a isso?
Está disposto. Já conversei com ele sobre isso, para, se ele ganhar, dialogarmos com o Senado. (Luciano, governador eleito do Rio Grande do Sul) Zucco falou sobre isso. Vamos conversar com os governadores do Propag para fazermos em conjunto. Isso estava no Propag, e Lula vetou.
O senhor vai levar essa proposta a Lula caso ele vença?
Espero que ele aceite.
Lula conversou com o senhor após o 1º turno?
Ele me ligou duas vezes. Primeiro, quando perdi meu irmão (em agosto). E, agora, para me dar parabéns pela vitória. Deve ter sido uma ligação de 30 segundos, só para dar parabéns e desejar boa sorte. Acho que fez isso com todos os governadores eleitos.
Não soa como contradição propor redução da alíquota do IPVA e, ao mesmo tempo, manifestar preocupação com a situação fiscal do estado?
A arrecadação do IPVA já diminuiu, porque perdeu competitividade. Pessoas de Minas, principalmente perto do Espírito Santo, preferem emplacar lá, onde a alíquota é menor, do que aqui. Então, a arrecadação já diminuiu. Conversei com Ratinho, do Paraná. Lá, era 4% ou 4,5% e, em Santa Catarina, 2%. Ele reduziu e, dois anos depois, passou a arrecadar mais, porque equilibrou. Às vezes, aumentando imposto demais, é que você perde arrecadação, porque faz o custo de vida aumentar.
O senhor tem pautas em comum com o PT, como o fim da escala 6×1. Na campanha, chegou a abraçar eleitores petistas. Há, de fato, uma identificação?
Virei governador de Minas Gerais. Fui eleito com mais de 6 milhões de votos. Tenho a obrigação de trabalhar para todos. Isso é democracia, representatividade. O PT tem deputados, e tenho de ouvi-los e conversar com eles. Vai haver críticas durante o processo de governo, porque a gente não é perfeito. Eles têm de fiscalizar meu mandato. Mas, o que for para o bem comum, vou dialogar.
Que função Gabriel Azevedo, anunciado para o secretariado, terá no governo?
Gabriel já está na transição. É um parceiro, um amigo. Sempre conversamos, antes mesmo da campanha a governador. Começamos juntos como vereadores. Sou mais ansioso; ele, mais ponderado, e me disse ‘Cleitinho, vamos fazer a transição e, depois, escolhemos a secretaria’. Mas tenho certeza de que será um dos melhores secretários que vou ter. Vou pensar com ele (a pasta a ser assumida). Já falamos de várias. Acho que ele tem competência para quase todas.
Quando o governo assinou a adesão ao Propag, enviou proposta para abater R$ 35,8 bi da dívida com ativos, como imóveis e participação em estatais. A União ainda não respondeu. O que o senhor pretende fazer a respeito?
Você não acha que Mateus deveria ir à União e dialogar com o presidente da República ? O que vou fazer, ganhando Flávio ou Lula, é mostrar os ativos que tenho para abater na dívida. Política é diálogo. Tem de ser olho no olho. Eu que estou devendo, eu tenho de correr atrás. Você acha que ele (o presidente) está querendo olhar os ativos? Acha que ele quer que a dívida seja diminuída, com menos juros? Não quer, não. A verdade é essa. Ainda mais se não for aliado, o que é pior.
Aconteceu um erro nesse processo, com todo respeito ao ex-governador Romeu Zema: ele focou muito em ser presidente da República e começou a colocar ataques sobre o governo federal. Faltou diálogo.
O senhor acha que Lula não conversou com Zema por causa desses ataques? Fará diferente caso o presidente seja reeleito?
Acredito que sim. Não tenho de colocar minha ideologia em primeiro lugar. Tenho de colocar meu povo em primeiro lugar. Seja quem for, vou dialogar.
Falando em ideologia, o senhor foi muito criticado pelo vídeo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sobre a votação da escala 6×1.
Sou de direita, mas meu coração é para todos. Sobre a crítica, vale lembrar que não votei em Davi. Ele teve quase 70 votos, inclusive de senadores que se dizem de direita. Falam que a maioria do Senado, do Congresso, é de direita. Como Davi Alcolumbre foi eleito com mais de 70 votos? Eu votei em (Eduardo) Girão. Qualquer pauta do Senado, passa pelo Davi. Se todos os senadores tivessem votado comigo em Girão, estaria fazendo um vídeo com ele, não com Davi. É simples: uma questão institucional.
O senhor sempre fala em melhorar a infraestrutura das estradas. Quais os caminhos?
Primeiro, não roubar, que sobra dinheiro. Não estou dizendo que as outras gestões roubaram, mas que, se você trouxer eficiência com o dinheiro público, consegue fazer. Precisamos monitorar todos os contratos para sobrar dinheiro. Se há uma dívida para pagar, vamos atrás da iniciativa privada. Tem empresas que devem ao estado e precisam pagar multas, até mesmo bilionárias, ambientais. Vou trazer essas empresas e dar desconto. Um refis, uma parceria. ‘Pega essas duas estradas e dou desconto na dívida, mas me ajuda’.
Essa proposta do refis estava em um caderno de propostas entregue pela Fiemg na semana passada. Lá também há a sugestão de um plano voltado aos minerais críticos. O que o estado pode fazer?
Primeiro, investir em tecnologia. Temos de fazer a produção ficar aqui. Valor agregado. Há uma bobeira de ‘não vou negociar com a China’ ou ‘não vou negociar com os Estados Unidos’. Quero negociar com quem for, desde que seja legítimo e honesto, da ideologia que for. Se for para trazer investimentos para Minas, não quero saber se o presidente é fulano ou beltrano.