Integrantes do PCdoB tentam articular a retirada de Wadson Ribeiro da presidência do partido em Minas Gerais. O pedido por uma mudança de comando consta em uma carta que passou a circular entre filiados. O texto critica o fato de a legenda ter ficado, pela segunda eleição seguida, sem representantes na bancada mineira da Câmara dos Deputados e não ter conseguido preservar a representação na Assembleia Legislativa (ALMG).
Intitulada “Os rumos do PCdoB de Minas Gerais”, a missiva atribui parte do enfraquecimento da legenda à insistência na candidatura de Wadson à Câmara dos Deputados e defende espaço para novas lideranças. Embora a carta seja apócrifa e assinada de forma genérica por um interlocutor que se apresenta como “um comunista mineiro”, O Fator apurou que componentes da sigla passaram a endossar internamente o conteúdo do documento quando souberam de sua existência.
“Cabe ao coletivo partidário mineiro compreender que recuar estrategicamente em um projeto personalista é a única forma de recuperar a musculatura política”, afirma o texto.
O documento também acusa a direção de restringir o debate interno e tratar críticas à estratégia como quebra da unidade partidária. Segundo o material, esse ambiente motivou o anonimato.
Embora a carta reconheça fatores externos para o enfraquecimento da legenda , como a predominância do PT no campo da esquerda, os autores sustentam que eles não explicam, sozinhos, o resultado.
Procurado pela reportagem, Wadson Ribeiro afirmou que o diretório estadual do PCdoB ainda não se reuniu para avaliar os resultados do 1º turno. Segundo o dirigente, a prioridade até este domingo (25) é contribuir para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Sobre as críticas internas, o comunista minimizou o movimento e pontuou que seu mandato na presidência estadual será encerrado no segundo semestre de 2027. Só então, conforme ele, a legenda discutirá mudanças na direção da sigla em Minas.
Financiamento
A distribuição dos recursos de campanha passou a ocupar lugar central nas conversas internas. Wadson recebeu R$ 2,195 milhões em repasses partidários e obteve 22.223 votos. A relação equivale a R$ 98,77 recebidos por voto, em cálculo que não representa necessariamente a despesa efetiva da campanha.
Em 2022, o dirigente registrou 34.256 votos. A queda entre as duas eleições foi de aproximadamente 35%.
Os valores destinados às candidaturas estaduais também aparecem na discussão. O deputado estadual Celinho do Sinttrocel — cuja reeleição era uma das prioridades da sigla — recebeu R$ 315 mil, sendo R$ 265 mil da direção nacional e R$ 50 mil da estadual. O repasse a Wadson foi aproximadamente sete vezes maior.
Lívia Macedo, vereadora de Pouso Alegre (Sul) que disputou uma cadeira na Assembleia e é tida com uma liderança em ascensão da legenda, recebeu R$ 190 mil.
Repasse a outro partido
Outro repasse que passou a ser questionado por integrantes da legenda foi o de R$ 40 mil da direção nacional do PCdoB à campanha de Adriana Souza, eleita deputada estadual pelo PT. Os dois partidos integram uma federação ao lado do PV.
Adriana já pertenceu ao PCdoB, pelo qual disputou, sem sucesso, uma cadeira na Câmara de Contagem (Grande BH) em 2016. Em 2024, conquistou o mandato municipal pelo PT. Sua posse na Assembleia abrirá espaço para Renata Lima (PCdoB), primeira suplente da federação, assumir a cadeira.
Por fim, até a presença de aliados de Wadson na Prefeitura de Contagem virou alvo de questionamentos entre integrantes do PCdoB Minas.
O grupo de Ribeiro ocupa a Secretaria-Geral, as secretarias adjuntas de Tecnologia e Informação e de Defesa Social, além da Regional Eldorado, administrada por Renata Lima, dezenas de outros cargos de segundo e terceiro escalão.
As críticas dizem respeito ao desempenho eleitoral de Wadson na cidade. O dirigente recebeu 1.732 votos neste ano, ante 2.304 em 2022 — queda de 572 votos, ou aproximadamente 24,8%.