Por que o presidente da AMM saiu da eleição sob fogo cruzado

No PL, vice-governador eleito é acusado de influenciar tom de Cleitinho e posição do sucessor na AMM para se aproximar do PT
Vice-governador eleito Luís Eduardo Falcão e o presidente da AMM, Lucas Vieira Lopes
Luís Eduardo Falcão (Republicanos), vice-governador eleito e ex-presidente da AMM, e Lucas Vieira Lopes (PSB), que o sucedeu no comando da entidade. Foto: AMM/Divulgação

O presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Lucas Vieira (PSB), saiu da eleição presidencial sob críticas de prefeitos dos dois lados da disputa. Em poucos dias, a gestão do prefeito de Iguatama (Centro-Oeste) irritou o campo da esquerda e, em seguida, a direita.

Mas, nos bastidores, a leitura de aliados do municipalista é de que as críticas têm como pano de fundo um fogo “amigo e inimigo” contra o vice-governador eleito Luís Eduardo Falcão (Republicanos). Falcão antecedeu Lucas na entidade, quando era prefeito de Patos de Minas, no Alto Paranaíba.

O ápice do desgaste com os que apoiavam a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi na terça-feira (20). A AMM realizou a festa de 74 anos em Belo Horizonte na mesma data do encontro de prefeitos convocado por aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para mobilizar apoio à candidatura presidencial dele no 2º turno.

Prefeitos ouvidos pela reportagem viram na coincidência de datas uma forma de “engordar” o evento bolsonarista. O incômodo cresceu após a carta em que Lula pediu a prefeitos que comparassem os repasses do governo dele com os de Jair Bolsonaro (PL). Em grupos de WhatsApp, alguns passaram a falar em deixar a associação.

Já a reação da direita veio depois de Lucas declarar voto em Lula em vídeo nas redes sociais, na quinta-feira (22). Mesmo após familiares do governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos) defenderem sua saída da equipe de transição, o prefeito de Iguatama gravou um segundo vídeo para reafirmar o apoio, que chamou de pessoal.

Falcão no centro

Para aliados de Lucas ouvidos pela reportagem, o alvo real das críticas é o antecessor dele. Falcão comandou a AMM até abril, quando renunciou à prefeitura e à presidência da entidade para disputar a eleição como vice de Cleitinho. O prefeito de Iguatama, então primeiro vice-presidente, assumiu a associação. Já na direita, o fogo vem de aliados.

A leitura é de que Falcão influenciou o tom mais moderado de Cleitinho na reta final e o posicionamento do prefeito, para abrir diálogo com a União. Como mostrou O Fator, integrantes do PL dizem, sob reserva, que a chapa eleita recuou no 2º turno e não entrou de cabeça na campanha de Flávio. Prefeitos do partido também passaram a falar em se desfiliar da entidade.

Procurado pela reportagem, Lucas afirmou que os vídeos em favor de Lula foram gravados “na condição de prefeito de Iguatama” e refletem uma avaliação pessoal, assim como o apoio a Cleitinho. Ainda segundo ele, a estrutura da AMM “em nenhuma hipótese” foi usada para apoiar campanhas, uma vez que a entidade tem papel suprapartidário.

De acordo com o prefeito, a festa de 74 anos estava planejada havia meses, “muito antes de o cenário político em Minas Gerais estar definido”. “A data foi estabelecida dentro de um planejamento institucional prévio, sem qualquer relação com atos políticos ou com a intenção de favorecer ou provocar qualquer grupo”, afirmou.

“Acredito que as divergências políticas e ideológicas não podem se sobrepor aos interesses dos municípios. Precisamos manter o diálogo com as diferentes lideranças e esferas de governo, independentemente de partidos ou posicionamentos, porque é nas cidades que as políticas públicas se concretizam e onde a população sente, diretamente, os efeitos das decisões tomadas”.

A reportagem procurou o vice-governador eleito, Luís Eduardo Falcão. O espaço continua aberto.

Veja abaixo a íntegra da nota do presidente da AMM e prefeito de Iguatama, Lucas Vieira:

“É fundamental separar minhas posições pessoais, enquanto prefeito de Iguatama, da atuação institucional da Associação Mineira de Municípios (AMM). A entidade tem um papel suprapartidário e representa prefeitos de diferentes correntes ideológicas, partidos e visões políticas. Sua missão é defender os interesses dos municípios mineiros, independentemente de quem esteja à frente das administrações municipais ou de suas convicções políticas.

Em nenhuma hipótese a estrutura da AMM foi utilizada para favorecer, promover ou apoiar qualquer campanha política ou eleitoral. A Associação não está a serviço de projetos partidários ou de interesses individuais. Sua estrutura, seus canais de comunicação, suas equipes e suas ações institucionais existem para atender aos municípios e fortalecer o municipalismo mineiro.

Da mesma forma, as atividades da AMM seguiram normalmente, com a continuidade dos serviços, das orientações, do suporte técnico e das demais ações destinadas aos municípios. O atendimento permaneceu à disposição de todos os prefeitos e gestores municipais, sem qualquer distinção de partido, ideologia ou posicionamento político. Esse é um princípio que considero inegociável e que deve nortear permanentemente a atuação da entidade.

Em relação à comemoração dos 74 anos da AMM, é importante esclarecer que o evento já vinha sendo planejado e organizado há meses, muito antes de o cenário político em Minas Gerais estar definido. A data foi estabelecida dentro de um planejamento institucional prévio, sem qualquer relação com atos políticos ou com a intenção de favorecer ou provocar qualquer grupo. A celebração teve como objetivo marcar a trajetória da Associação e reafirmar seu compromisso com os municípios mineiros.

Sobre as manifestações que fiz recentemente, elas ocorreram na condição de prefeito de Iguatama e refletem minha avaliação pessoal sobre o cenário político e institucional. Tanto em relação ao presidente Lula quanto ao senador Cleitinho, meu posicionamento teve como princípio a defesa dos municípios mineiros e a busca por caminhos que contribuam para melhorar a vida da nossa população.

Acredito que as divergências políticas e ideológicas não podem se sobrepor aos interesses dos municípios. Precisamos manter o diálogo com as diferentes lideranças e esferas de governo, independentemente de partidos ou posicionamentos, porque é nas cidades que as políticas públicas se concretizam e onde a população sente, diretamente, os efeitos das decisões tomadas.

O papel de quem representa os municípios é apresentar demandas, construir pontes e buscar resultados concretos para as cidades, com responsabilidade e autonomia.

Meu compromisso, como prefeito de Iguatama, é trabalhar pela população do meu município. E o compromisso da AMM, sob minha presidência, é com os 853 municípios mineiros, sem distinção. É dessa forma que entendo o municipalismo: com independência, respeito às diferenças, diálogo e defesa permanente dos interesses das cidades e dos cidadãos mineiros.”

Fransciny Ferreira é jornalista, com especialização no setor público e em gestão de imagem. Atua na cobertura política, com experiência em redações, assessoria de imprensa e marketing digital. Foi editora-chefe de O Tempo em Brasília, assessora da Presidência do Senado e liderou estratégias de PR no setor farmacêutico. Sugestões de pautas para: [email protected]

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