Uma carta assinada por promotoras de Justiça do movimento Elas pelo MPMG levou o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) a reavaliar a homenagem que seria entregue ao empresário Tallis Gomes.
Três dias após o envio do documento, o Conselho Superior do Ministério Público decidiu, na sexta-feira (5), não conceder ao empresário a Comenda Procurador de Justiça Joaquim Cabral Netto. A cerimônia está prevista para sexta-feira (11).
O ofício foi encaminhado na terça-feira (2) ao procurador-geral de Justiça de Minas Gerais, Paulo de Tarso Morais Filho, e à Comissão de Outorga da Medalha do Mérito do Ministério Público. Assinado por sete promotoras de Justiça, o documento pedia informações sobre a indicação e solicita que o nome de Tallis Gomes seja submetido a uma nova análise.
Assinaram a carta as promotoras Hosana Regina Andrade de Freitas, Ana Angélica Moreira da Cunha, Marianna Michieletto da Silva, Maria Constância Martins da Costa Alvim, Daniela Campos de Abreu Serra, Renata Marra Toledo e Carolina Frare Lameirinha.
As autoras questionavam quais serviços prestados pelo empresário ao Ministério Público ou à cultura jurídica teriam justificado a escolha. Elas também pediam acesso à justificativa formal da indicação, à síntese das realizações que teriam motivado a homenagem e, se possível, à ata ou a outro documento que tenha registrado a decisão da comissão.
Para as integrantes do movimento, a medalha não representa apenas um reconhecimento pessoal ou empresarial. Na avaliação delas, a concessão de uma honraria pelo Ministério Público expressa uma posição institucional e precisa ser compatível com os valores que o órgão afirma defender.
O principal ponto da carta são declarações públicas feitas por Tallis Gomes sobre mulheres em cargos de liderança. Em setembro de 2024, o empresário respondeu “Deus me livre de mulher CEO” a uma pergunta sobre se continuaria em um relacionamento caso sua companheira se tornasse presidente de uma grande empresa.
Depois, Gomes afirmou que, salvo exceções, mulheres nessa posição passariam por um processo de “masculinização”, colocando o lar em quarto plano, o marido em terceiro e os filhos em segundo. Também disse que esse não seria, em média, o melhor uso da chamada “energia feminina”.
Segundo as promotoras, as falas não poderiam ser tratadas como uma opinião privada, porque foram feitas publicamente por uma pessoa com influência no ambiente empresarial. O grupo argumenta que associar mulheres em posições de comando à perda de feminilidade e ao prejuízo da vida familiar entra em conflito com os princípios de igualdade entre homens e mulheres e de combate à discriminação.
O documento cita ainda ações e projetos do próprio MPMG voltados à equidade de gênero e ao enfrentamento do machismo e do sexismo. Para as autoras, homenagear Gomes poderia produzir uma contradição com essas iniciativas institucionais.
Em nota, o Ministério Público informou que o Conselho Superior decidiu não conceder a comenda a Tallis Gomes após uma “reavaliação da oportunidade e da conveniência da homenagem”, considerando “manifestações e fatos recentes relacionados ao homenageado”.
A instituição afirmou que mantém o compromisso com os valores que orientam sua atuação e com o respeito à dignidade de todas as pessoas.