Instituto que disputa vaga no Copam tem vice que advoga para mineradores

Organização também manteve como conselheiro, até junho, um indiciado na Operação Rejeito; eleição foi adiada na semana passada
Mina subterrânea da AngloGold Ashanti Foto: Divulgação

Candidato a uma vaga na Câmara de Atividades Minerárias (CMI) do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), o Instituto AME tem como vice-presidente um advogado de mineradoras com operações em Minas Gerais. Na Justiça mineira, Ricardo Carneiro defende ao menos duas empresas: Vale e AngloGold Ashanti.

A relação chama atenção, porque a CMI é o braço do Copam responsável por conceder o licenciamento ambiental de projetos minerários. Por isso, se eleito membro do órgão, caberá ao Instituto AME analisar documentos entregues pelas mineradoras e pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) e, em seguida, votar pela aprovação ou reprovação das licenças.

Nesta linha, como membro da CMI, o Instituto AME poderá tratar de temas de interesse direto de empresas às quais seu vice-presidente é contratado para advogar em causas minerárias.

Por estarem entre as maiores mineradoras em operação no estado, Vale e AngloGold Ashanti dependem frequentemente de deliberações da CMI para instalar e operar seus empreendimentos. Só neste ano, por exemplo, a primeira teve oito projetos analisados pela Câmara. Já a segunda terá seu primeiro na reunião desta sexta-feira (31).  

Questionado por O Fator sobre o possível conflito de interesse, Ricardo Carneiro afirmou que já comunicou à diretoria do Instituto AME que, se a organização for eleita, ele não será conselheiro do Copam. A escolha, segundo ele, é devido à advocacia ambiental que exerce há 34 anos, “inclusive para clientes do setor mineral e de geração de energia”. 

“Uma coisa não necessariamente conduz a outra, e a participação na entidade não implica atuar junto ao Copam, até porque o decreto que regulamenta as regras de composição do Conselho já impede a participação de consultores ambientais como conselheiros”, acrescentou em nota.

Já a Vale e a AngloGold Ashanti não se manifestaram. 

O Instituto AngloGold Ashanti chegou a protocolar o pedido para ser candidato a uma das vagas do CMI, mas foi considerado inabilitado pelo governo estadual. As razões não foram reveladas publicamente.

Indiciado na Operação Rejeito era conselheiro do instituto

O Instituto AME tinha, até o final de junho, como conselheiro o consultor em gestão ambiental Enio Fonseca. O desligamento ocorreu menos de uma semana depois de ele ser indicado pela Polícia Federal em meio à Operação Rejeito. 

Fonseca, segundo os investigadores, favoreceu a extração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral enquanto era superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em Minas Gerais, entre 2019 e 2022.

Questionado por O Fator, Enio afirmou não ter mais vínculos com o Instituto AME. “Fui apenas conselheiro, sem ter ocupado posição de gestão administrativa no AME”, disse à reportagem. Nas redes sociais do instituto, ele aparecia até maio como representante da organização em uma série de eventos. 

Eleição para o Copam 

A eleição para o plenário e as câmaras temáticas do Copam são divididas em três votações: uma para entidades de ensino, que têm direito a uma vaga na CMI; outra para profissionais liberais, com também uma vaga; e uma última para ONGs, que têm direito a duas vagas. 

Na maior parte dos casos, os participantes podem ser eleitores e elegíveis ao mesmo tempo. A habilitação dos candidatos, divulgada inicialmente em maio, foi feita pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad).

A votação das duas primeiras ocorreu, respectivamente, na sexta-feira (24) e na segunda-feira (27). Já a eleição das ONGs, inicialmente prevista para esta terça-feira (28), foi adiada na sexta, sem nova data marcada. 

Questionada, a Semad afirmou que “a medida busca garantir a adequada verificação do atendimento aos requisitos previstos no edital, preservando a transparência, a isonomia, a segurança jurídica e a regularidade do processo eletivo.”

Segundo a pasta, a etapa de análise das entidades habilitadas continua em andamento, e a eleição só ocorrerá após o fim do processo.

Formado em jornalismo pela PUC Minas, Pedro Lovisi trabalhou nas redações do jornal Estado de Minas e da Rádio Itatiaia. Nos últimos cinco anos, foi repórter da Folha de S.Paulo, onde se destacou pela cobertura econômica de setores ligados à transição energética, principalmente energia e mineração. Também é mestre em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais pela PUC SP, onde estudou instrumentos orçamentários para cidades mineradoras de Minas Gerais.

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