Justiça suspende direitos políticos de Alexandre Kalil, ex-prefeito de BH

Juiz considerou que o então chefe do Executivo de BH descumpriu ordem judicial e beneficiou condomínio de luxo
Kalil foi prefeito de BH entre 2017 e 2022. Foto: Divulgação

O ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (sem partido), foi condenado à suspensão dos direitos políticos por cinco anos por, segundo a Justiça, ter se omitido a cumprir uma decisão judicial para beneficiar um condomínio de luxo da cidade.

A decisão, proferida nessa quinta-feira (7) pelo juiz Danilo Couto Lobato Bicalho, da 3ª Vara Fazenda Pública Municipal, também proíbe Kalil de contratar com o poder público ou receber benefícios fiscais e creditícios no mesmo período.

A sentença também condenou a Associação Comunitária do Bairro Mangabeiras III. A entidade e Kalil terão de fazer pagamento solidário de R$ 100 mil em danos morais coletivos, valor a ser revertido ao Fundo Especial do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).

A sentença afirma que Kalil, à frente da prefeitura entre 2017 e 2022, deixou de adotar providências para assegurar o cumprimento de ordem judicial transitada em julgado, que determinava a reabertura de ruas e praça no bairro Mangabeiras III, região conhecida como Clube dos Caçadores. Mesmo após decisão definitiva da Justiça e a anulação de permissões administrativas, barreiras físicas e controle privado permaneceram no local por parte da associação de moradores, restringindo o acesso público.

Segundo o juiz, a conduta de Kalil enquadra-se como improbidade administrativa prevista no artigo 10, inciso II, da Lei 8.429/92: permitir que um ente privado utilize bens públicos sem observar as formalidades legais. A omissão do ex-prefeito e a recalcitrância da associação foram classificadas como dolosas, por dificultarem efetivamente a devolução dos bens à coletividade.

O histórico do processo remonta a 2005, quando uma ação popular levou à declaração judicial de nulidade do decreto municipal que permitira o fechamento das vias públicas e da praça. Após anos de recursos, o trânsito em julgado ocorreu em agosto de 2020, obrigando o retorno irrestrito do uso dos bens à população. No entanto, diligências do Ministério Público após essa data constataram que a situação irregular persistia, inclusive depois de recomendação enviada diretamente a Kalil.

No processo, Kalil alegou não ter praticado atos comissivos e destacou que a nova permissão da associação havia sido assinada por secretários, e não por ele. O juiz, entretanto, ressaltou que o então prefeito tinha o dever constitucional de agir para exterminar barreiras e restabelecer o direito coletivo ao uso dos bens, especialmente após ter ciência formal e expressa da decisão judicial e da orientação do Ministério Público.

Além da aplicação das penas principais, a sentença determinou divisão das custas processuais, rejeitou imputações relativas à falta de arrecadação tributária e ao enriquecimento ilícito da associação — entendendo que não houve acréscimo patrimonial, mas sim dano ao erário pela privação do uso coletivo do patrimônio público. A ação foi julgada improcedente em relação à presidente da associação, Andréa Machado de Araújo, por ilegitimidade passiva.

A decisão reafirma o entendimento de que “direitos coletivos e uso pleno de bens públicos urbanos não podem ser restringidos por entes privados, e que o gestor público responde por omissão diante de ordens judiciais definitivas”.

A sentença é de primeira instância e cabe recurso ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

Leia também:

O motivo da ‘tranquilidade’ de Lula com o palanque em Minas Gerais

TJMG derruba liminar que determinou suspensão da implantação do novo sistema de regulação do SUS

Governo de MG admite ‘dificuldades pontuais’ em novo sistema do SUS, mas diz que falhas foram solucionadas

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse