Era março de 2017, e Lucas Kallas, Luis Fernando Franceschini e Bruno Luciano, então controladores da Empabra, discutiam uma estratégia para afastar de vez da empresa os sócios originários João Henrique Pereira e Juarez de Oliveira Rabello, que ainda detinham ações da mineradora.
À época, os dois grupos enfrentavam uma disputa judicial em torno da companhia, autorizada a comercializar minério de ferro existente em rejeitos e pilhas situados na Serra do Curral.
De acordo com o relatório da Polícia Federal sobre a Operação Parcours enviado à Justiça na semana passada, foi a gestão Kallas, Franceschini e Luciano a responsável por criar um esquema bilionário de extração ilegal de minério de ferro da mina Grana Corumi, que perdurou de 2014 até o ano passado.
Em 2016 e 2017, João e Juarez alegaram na Justiça que tiveram seus acessos à mina negados pelo trio após contestarem a quantidade de minério que vinha sendo lavrado. E é justamente neste período que Lucas Kallas enviou a seus sócios um email que a Polícia Federal classificou como uma das provas dos crimes cometidos pelo trio.
Na mensagem eletrônica, enviada em 2 de março de 2017, Kallas mostra preocupação com o fato de a Green Metals – empresa usada pelo grupo para controlar a Empabra – ter filial em uma parte do complexo minerário operado pela mesma, o que, segundo ele, poderia ser “um ponto desfavorável” no processo de arbitragem entre os dois grupos.
“Outro ponto: hoje esteve o oficial de Justiça e falamos que não existe GM [Green Metals] e, sim, Empabra”, afirma Kallas no email. “E temos além de uma filial um alvará de 2017 ativo! Importante foco total neste assunto, pois estamos deixando batom na cueca e do outro lado temos advogados focados e experientes!”, complementa.
Em outro email, enviado aos sócios no mesmo dia, Kallas também demonstra preocupação com o endereço da filial da Green Metals e opina que o trio deveria “pedir a baixa imediata na Prefeitura de Raposos devido à ação JJ [referência a João e Juarez]”.
Procurada, a assessoria de imprensa de Lucas Kallas disse que a defesa do empresário tem “plena confiança na demonstração de inocência de Lucas Kallas, pois o indiciamento requenta fatos antigos, já investigados e arquivados pela Justiça”. “Lucas não tem relação com a empresa investigada desde 2017 e, antes disso, havia sido apenas investidor”, acrescenta.
A operação
Segundo a Polícia Federal, Kallas, Franceschini e Luciano criaram um esquema de extração de minério de ferro da mina Granja Corumi a partir de um acordo com a Prefeitura de Belo Horizonte, que previa apenas a comercialização de minério existente em rejeitos e pilhas.
O relatório da PF diz que, em determinado momento do esquema, a Empabra chegou a extrair 100 mil toneladas por mês de minério de ferro ilegal.