A Polícia Federal (PF) indiciou 10 pessoas, incluindo dois delegados da própria corporação, um vice-prefeito mineiro e um ex-deputado estadual, ao relatar, nesta terça-feira (24), o inquérito da Operação Intrafortis, que apurou o pagamento de propina a servidores públicos para acelerar licenças ambientais e autorizações minerárias em Minas Gerais.
Segundo o relatório final, ao qual O Fator teve acesso, o grupo usava empresas registradas em nome de terceiros para negociar direitos minerários avaliados em mais de R$ 200 milhões e tinha como suposto líder oculto o delegado federal Rodrigo de Melo Teixeira, que foi superintendente da PF em Minas à época do rompimento da barragem de Brumadinho.
O caso, um dos desdobramentos ligados à Operação Rejeito, tramita sob supervisão do Tribunal Regional Federal (TRF-6) e será agora submetido ao Ministério Público Federal (MPF), que decidirá sobre a apresentação de denúncia.
Além de Teixeira, foram indiciados a delegada da PF aposentada Kelly Cristina de Castro Batista; os empresários Ursula Paula Deroma, Phillipe Westin Deroma Furtado, Marcos Arthur Mendonça e Gilberto Henrique Horta de Carvalho; o vice-prefeito de Itaúna e ex-secretário jurídico da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semad) Hidelbrando Canabrava Rodrigues Neto; Luiz Fernando Vilela Leite; Daniela dos Santos Wandeck, mulher de Teixeira; e o ex-deputado João Alberto Paixão Lages.
Os crimes atribuídos variam conforme o investigado e incluem organização criminosa, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, tentativa de embaraço a investigação e violação de sigilo funcional.
Em junho, a PF já havia indiciado 34 pessoas investigadas na Operação Rejeito sob suspeita de integrar uma organização criminosa. Segundo a corporação, o esquema combinava crimes ambientais, corrupção ativa e passiva, tráfico de influência, lavagem de dinheiro, fraudes administrativas e falsidade documental para viabilizar projetos de mineração em áreas protegidas de Minas Gerais.
Propina por licenças na Semad e na ANM
A investigação no âmbito da Operação Intrafortis aponta que o grupo atuava em duas frentes: na Semad, para obter licenças e autorizações ambientais, como as de manejo de fauna; e na Agência Nacional de Mineração (ANM), para conseguir alvarás de pesquisa e autorizações de cessão de títulos. O objetivo era valorizar direitos minerários em Caeté, Santa Bárbara, Congonhas e Bela Vista de Minas, e revendê-los a investidores.
Mensagens interceptadas pela PF registram os pagamentos de forma literal. Em março de 2022, a empresária Ursula Deroma escreveu ao filho, Phillipe: “filho se puder transfere a propina de 7500, por favor”.
O valor, segundo a PF, destinava-se à obtenção de guias de manejo de fauna e foi transferido no dia seguinte à conta de Gilberto Horta, apontado como o operador do grupo junto aos órgãos públicos.
Em julho de 2023, Ursula relatou ao filho ter pago R$ 16 mil pela liberação de dois alvarás na agência reguladora: “eu consegui um contato lá na ANM, e fechei dois alvarás, 8 mil por cada um”.
As autorizações de manejo de fauna do Projeto Apolo foram assinadas pelo então superintendente da Semad Fernando Baliani da Silva, que já era investigado na Operação Rejeito. Ouvido pela PF, ele negou ter recebido qualquer valor. A corporação afirma que ainda não identificou, com a certeza exigida para a responsabilização criminal, os servidores que receberam os repasses, o que levará à abertura de novos inquéritos.
Sócio oculto
A PF aponta, ainda, que Rodrigo Teixeira teria sido o gestor de fato da GMAIS Ambiental, empresa aberta em março de 2021 em nome de sua mulher e de Luiz Fernando Vilela Leite, apontados como sócios de fachada. Por meio dela, o delegado teria se tornado sócio oculto da Brava Mineração e recebeu, sem pagar nada, 13,33% das cotas de dois direitos minerários cedidos por empresa de Ursula Deroma. A contrapartida, segundo a PF, era o prestígio e a segurança que o cargo de delegado federal conferia às negociações.
Os títulos já renderam mais de R$ 4 milhões à Brava. Pelo contrato de venda a um grupo empresarial, a empresa receberia R$ 203 milhões, dos quais R$ 27,1 milhões iriam para a GMAIS, conforme cálculo da perícia da PF.
O documento registra ainda que Teixeira, quando ocupava a Diretoria de Polícia Administrativa da PF, em Brasília, teria negociado com o grupo de João Lages o arrendamento de uma mina em Ouro Preto que abriga a barragem Água Fria, listada pelo MPF entre as sete com maior risco de rompimento do país. Áudios apreendidos mostram que o grupo conhecia o problema e discutia como tratar, em contrato, a responsabilidade pelos “danos da barragem”.
Em nota, a defesa de Rodrigo Teixeira se manifestou. “Chamou atenção da Defesa a deliberada sonegação no relatório do inteiro teor do depoimento do Delegado Roger e da Delegada Tatiana, especialmente no ponto em que afastaram peremptoriamente a hipótese inventada de que Rodrigo Teixeira teria agido para remover o Delegado Frederico da Delegacia do meio ambiente. No próprio inquérito – ainda sem Contraditório e Ampla Defesa – a leviandade desse factoide foi escancarada, mas não se dignaram a consignar isso nesse relatório que, de resto, é carente de substrato probatório e só faz repetir a mendaz retórica que inaugurou essa famigerada operação”, diz o advogado Bruno César.
Fiscalização sob encomenda
A PF também concluiu que a estrutura da corporação teria sido usada para interesses particulares. Em março de 2022, uma fiscalização na empresa Green Metals, instalada na mesma região onde a GMAIS negociava ativos com o empresário Maurício Índio do Brasil, foi realizada a pedido de Teixeira e comandada pela delegada Kelly Cristina, sem procedimento investigativo prévio.
Kelly foi indiciada por violação de sigilo funcional e corrupção passiva: segundo o relatório, compartilhou com Teixeira, então cedido à Prefeitura de Belo Horizonte, na gestão de Alexandre Kalil (PDT), e sem acesso autorizado, dados de sistemas internos da PF sobre a empresa e seus sócios.
A operação Intrafortis foi deflagrada em 17 de setembro de 2025, com apoio da Controladoria-Geral da União e do Gaeco do MPF, com prisões preventivas, buscas, sequestro de bens e suspensão de funções públicas.