A Justiça Eleitoral brasileira tem uma confiança comovente no calendário. À meia-noite de 16 de agosto, começa a temporada oficial da propaganda. Antes disso, o sujeito que percorreu o estado, montou equipe, gravou vídeos e reuniu lideranças estava, naturalmente, aquecendo. O eleitor talvez já tivesse escolhido. Faltava combinar com a folhinha. Em certas disputas, dá a impressão de que a fiscalização mais minuciosa entra em cena com o roteiro já lido e boa parte do elenco nos lugares.
A cada dois anos, o país monta uma operação de guerra burocrática para acompanhar as semanas de campanha oficial. Na caricatura que o sistema oferece de si mesmo, juízes empunham lupas sobre jingles, notas fiscais de santinhos merecem investigação e centímetros de uma peça de propaganda ganham a gravidade de uma crise constitucional. Há regras minuciosas, deveres financeiros e juízes auxiliares para apreciar reclamações e representações. O aparato tem razões sérias para existir. O que pede explicação é a desproporção entre a nitidez dessa fotografia e a dificuldade de enxergar o filme que veio antes.
O calendário carimba a largada; parte da torcida já está no bar encomendando a faixa de campeão. A imagem é um exagero, como convém a uma eleição que também exagera na fé em datas. Há times que chegam à estreia depois de meses contratando jogadores, treinando e conquistando público. Outros ainda procuram dinheiro para comprar a bola. O juiz confere as chuteiras, mede a altura da rede e anuncia igualdade de condições. A régua está certa. A história dos times continua diferente.
Os nomes ajudam a tirar a discussão do abstrato. Comparando pesquisas feitas antes de 16 de agosto, quando foi liberado o pedido de voto, já lideravam antes da campanha oficial e venceram no primeiro turno JHC, em Alagoas; Dr. Furlan, no Amapá; Daniel Vilela, no Goiás; Eduardo Braide, no Maranhão; Otaviano Pivetta, no Mato Grosso; Eduardo Riedel, em Mato Grosso do Sul; Cleitinho Azevedo, em Minas Gerais; Lucas Ribeiro, na Paraíba; Sergio Moro, no Paraná; Raquel Lyra, em Pernambuco; Rafael Fonteles, no Piauí; Marcos Rogério, em Rondônia; Jorginho Mello, em Santa Catarina; Tarcísio de Freitas, em São Paulo; e Fábio Mitidieri, em Sergipe. No Mato Grosso e em Sergipe, a liderança era numérica, dentro do empate técnico. O calendário autorizou a propaganda depois que esses candidatos já ocupavam a primeira posição nas pesquisas anteriores.
Também chegaram ao segundo turno três duplas que já ocupavam as duas primeiras posições: Mailza Assis e Alan Rick, no Acre; Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini, no Espírito Santo; Dorinha Seabra e Vicentinho Júnior, no Tocantins. Aqui há um detalhe que a tese precisa respeitar: no Espírito Santo, Pazolini passou Ferraço.
Essa comparação, felizmente, não diz que a minha profissão acabou ou que a campanha regular não serve para nada. O marqueteiro passa a ser útil por mais tempo do que só os 45 dias e a campanha propriamente dita continua importante, inclusive quando o candidato continua em primeiro. Pode convencer, mobilizar, impedir que eleitores o abandonem ou responder ao esforço do adversário. Quem termina a partida com o mesmo placar do intervalo pode ter passado quarenta e cinco minutos defendendo o gol. O placar sozinho não conta o jogo.
A conclusão mais interessante é menos espalhafatosa e mais incômoda. Há candidaturas que chegam a agosto com uma vantagem política construída. O sistema de transparência precisa permitir que o eleitor compreenda também como essa vantagem foi financiada. Saber quem pagou os últimos anúncios ajuda. Saber quem tornou o candidato conhecido antes deles também ajuda.
No artigo “Fumo, mas não trago. Gasto, mas não arrecado”, publicado aqui ainda na pré campanha, em abril, tratei do desconforto financeiro daquela fase: o sujeito ainda não é candidato, mas precisa tornar-se viável para poder sê-lo. Uma espécie de entrevista de emprego na qual o concorrente deve levar, além do currículo, a empresa funcionando.
A situação de permitir atividade política que custa dinheiro sem oferecer caminhos de financiamento e informação que não acompanham claramente essa atividade produz uma pergunta bastante simples: de onde veio o dinheiro que tornou possível chegar competitivo à disputa? Para o eleitor, a resposta deveria ser compreensível sem pós-graduação em contabilidade partidária.
Quem recebeu uma herança polpuda ou tem liquidez de sobra no CPF pode financiar a própria apresentação ao eleitor. Quem possui as chaves de um cofre partidário encontra outra porta de entrada. Quem construiu reconhecimento ao longo de um mandato parte de uma terceira posição. Nada disso, isoladamente, prova irregularidade. O problema é exigir competitividade de quem ainda não teve acesso aos meios de construí-la. A espontaneidade política fica muito mais fotogênica quando alguém já pagou a iluminação.
A diferença entre os calendários tem ainda um efeito sobre a conversa pública. Discutimos com enorme energia se determinada frase antecipou um pedido de voto. A discussão importa. Mas o microscópio sobre a vírgula não explica quem pagou a estrutura que a fez circular. Enquanto se examina a frase, uma vantagem pode ter atravessado a porteira inteira. Equipe, pesquisa, deslocamento, produção e distribuição de conteúdo custam dinheiro. O termo “pré” não costuma aparecer como desconto na nota fiscal.
O risco é, depois da pré-campanha ser esse Carnaval, organizar a fiscalização como uma Quarta-feira de Cinzas. Caso contrário, acompanhamos o confete com uma precisão admirável e continuamos sem uma resposta simples sobre quem contratou o bloco. Nas redes, também é preciso distinguir apoio espontâneo de distribuição paga. O algoritmo não apresenta prestação de contas por iniciativa própria. A indústria de collabs e perfis alternativos virou uma espécie de caixa-dois instagrâmico que mereceria um artigo específico, mas esse portal não me paga o suficiente. Talvez em outro dia que eu tenha paciência.
Durante o segundo turno, haverá novos debates, alianças e campanhas capazes de alterar resultados. Seria absurdo dizer que já está tudo resolvido. O que já podemos discutir é por que as exigências da eleição formal são tão diferentes do que o de um período de bagunça que, empiricamente, define a eleição.
Para os futuros candidatos de 2028, aliás, o relógio já está correndo. A minirreforma eleitoral que prometeu reduzir o tempo de campanha de 90 para 45 dias acabou fazendo a campanha na prática durar dois anos. A não ser que o legislador tenha outra nova ideia brilhante, o que não custa nada, o expediente oficial também abrirá em meados de agosto, mas as reuniões que contam começam muito antes e costumam render mais a quem chega a elas com a equipe montada.
A fiscalização do período oficial continua necessária. O passo seguinte é dar continuidade à informação sobre a competição que veio antes dele. O eleitor escolhe pessoas com histórias, alianças, estruturas e financiadores. O calendário oferece uma data para autorizar propaganda; oferece muito menos ajuda para explicar quando começou a construção de uma vantagem. Fiscalizamos com microscópio as vírgulas da campanha, enquanto a boiada inteira já passou rindo pela porteira.