A letra da essência: gosto, diferença e a letra por trás do som

Como esta crônica nasceu da amizade, encerro com afeto. A amizade é música tocada a duas mãos, que aceita e celebra afinações
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Tudo começou com um “bom dia” afetuoso que recebi de uma amiga querida. Ao retribuir os votos, sugeri como trilha para o dia um sucesso do saudoso Bob Marley. A resposta dela, como quem bate de leve a porta com os nós dos dedos, trouxe um contraponto delicado: “Acho Redemption Song bem feinha, sem nem examinar a letra”. E, para que não restasse dúvida do carinho, veio um sopro de afeto: “Saudades do Jorge!”. Com a mesma delicadeza, acrescentou: “Os animais não são todos iguais” e foi assim que esta crônica tomou este rumo.

Fiquei pensando: quando dizemos “não gosto”, defendemos nosso gosto ou fugimos de um universo que nos é estranho? O que rejeitamos primeiro: o que o outro é, ou o jeito como o outro soa?

Vamos à canção “feinha”. Entendo, amiga querida. Quem nasceu em chão de música clássica, de harmonia complexa, por vezes estranha um violão magro e um canto sem o lustre da academia. Mas quantas vezes, na vida, recusamos o som de alguém, seja o jeito de falar, a roupa ou a risada, e ainda por cima não nos damos à chance de ler a “letra” que essa pessoa carrega? A melodia pode ser moldura; a letra, a pintura. Há molduras esplêndidas abraçando quadros vazios; e há quadros que salvam a tarde, mesmo emoldurados de forma torta.

Ouvir para crer

Respondi naquela manhã com delicadeza: “Todos os animais são iguais…” (George Orwell, “A Revolução dos Bichos”). E pedi que reparasse nas pequenas desigualdades, não para hierarquizar afetos, mas para educar o ouvido e a leitura: às vezes o violão é magro, mas a letra é vasta. Propus, então, que “Redemption Song” fosse a trilha do dia: que a gente escutasse o que ela diz, antes de julgar como ela soa.

Não gosto do som”. Perfeitamente. Gosto não se catequiza, educa-se. E educar o gosto não é converter: é ampliar o repertório da alma. Em nosso mundo interior, devem caber Bach e o batuque, o coral e o sussurro, a sinfonia e a canção de três acordes. Será mesmo preciso escolher entre gostar e entender? Posso não querer dançar junto, mas posso ler a partitura. Posso não repetir o refrão, mas posso reconhecer o seu valor.

Talvez a vida nos peça este pequeno ato de coragem: dar uma chance à letra antes de emitir um veredito sobre o som. No fim do dia, convivemos mais com letras do que com melodias. As pessoas que amamos têm seus próprios timbres, e, por vezes, desafinam perto de nós. O que nos guia ou fere, no entanto, é a letra do que dizem, a letra do que fazem. Quando foi a última vez que você ouviu, até o fim, alguém de cujo tom não gostava? Não se trata de absolver: é compreender a partitura inteira. Às vezes o áspero é só instrumento frio; às vezes o doce esconde uma letra que pede cautela.

Na natureza, tudo se transforma

Daí me vem a natureza por lembrança e o que você disse naquela manhã: “Os animais não são todos iguais”. E ainda bem. Quem já viu um cão dormir reconhece a respiração paciente de quem guarda a casa até em sonho.

Quem encara um gato aprende que a elegância, às vezes, vem com cláusulas de silêncio. Pássaros não cantam de modo idêntico; tartarugas não compartilham a mesma pressa; cavalos carregam um susto que só eles decifram. Diferem no modo, no andamento, no timbre. A pergunta de fundo, porém, é outra: o que, sob a diversidade de penas e pelagens, conecta a sede do beija-flor à do boi, e a nossa sede à de todos?

A canção pode ser “feia”. Pode. Mas talvez ela “fale bonito”. O exercício é ver a diferença sem esquecer o parentesco; discordar do som sem recusar a mensagem.

Friends will be friends

Guardo a imagem que você trouxe: “Vou tentar captar esse lado”. A antena não impõe; capta. E captar é um gesto de respeito: sintonizar antes de julgar, escutar antes de classificar. Que tal fazermos isso também com as pessoas? Ler a legenda antes de virar a página. Perguntar o motivo antes de cravar o veredito. Dar ao outro o tempo que gostaríamos de receber em nossas próprias desafinações.

Se me permite, deixo uma proposta de acordo, simples e publicável: reconhecer diferenças sem perder o UNO de vista; não bater o martelo pelo timbre; abrir a letra, sublinhar um verso e perguntar “O que você quis dizer com isso?”; e, por fim, não confundir nosso repertório com o horizonte do mundo. Posso seguir amando a música clássica e, ainda assim, permitir que um violão magro me explique o que é liberdade numa tarde qualquer.

Como esta crônica nasceu da amizade, encerro com afeto. A amizade é música tocada a duas mãos, que aceita e celebra afinações distintas. Nem sempre gostaremos do mesmo som, mas poderemos nos prometer a gentileza de ler, juntos, a letra um do outro. No pior dos cenários, saímos com mais mundo. No melhor, saímos redimidos daquela pressa que nos faz perder o essencial: a letra da essência.

Obrigado, amiga querida, por discordar com delicadeza. O resto a gente escuta. E lê.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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