Quando desobedecemos a manada

Jovens de mãos dadas
Quem se arrisca a se libertar percebe que a autenticidade tem um preço, já que ela rompe contratos silenciosos. Foto: Pixabay

Existe uma fila invisível atravessando a vida. Ela começa cedo. Primeiro, somos ensinados a levantar a mão antes de falar. Depois, a trabalhar naquela profissão que dê futuro. Mais tarde, a comprar a casa própria, a casar e ter filhos, a postar a felicidade nas redes sociais e a envelhecer da maneira mais discreta possível.

Sem perceber, entramos na fila do inconsciente coletivo, definido por Carl Jung como esse imenso oceano de símbolos, crenças e comportamentos que atravessa gerações. Esse oceano nos conecta, mas também pode nos aprisionar quando deixamos de distinguir aquilo que é herdado da humanidade daquilo que deveria nascer da nossa própria consciência. Assim, permanecemos na fila não porque ela nos leva aonde queremos ir, mas porque já estava formada quando chegamos.

O inconsciente coletivo nos oferece algo de que todo ser humano precisa desesperadamente: pertencimento. E pertencer é uma necessidade legítima. Quem nunca quis ser aceito? Quem nunca moldou uma parte de si para caber no olhar de alguém? Desde crianças aprendemos que ser parecido aproxima e que ser diferente pode afastar. Por isso, repetimos. Porém, repetimos opiniões sem investigá-las. Repetimos sentimentos sem questioná-los. Não porque escolhemos. Mas porque não fomos ensinados que era possível escolher.

Vivemos convencidos de que pensamos por conta própria, quando, muitas vezes, somos apenas o eco de vozes antigas. Somos a voz que reverbera dos nossos pais, dos nossos avós, da cultura, da religião, da sociedade e das expectativas.

Mas o coração mesmo nunca aprendeu a falar essa linguagem. Ele é analfabeto em convenções. Na verdade, o coração entende de verdade. Volta e meia ele pede silêncio quando o mundo exige barulho. Busca simplicidade enquanto a grande maioria acumula. Deseja um novo começo justamente quando todos dizem que já é tarde demais. Isso não é crise, é apenas a alma pedindo espaço.

Há um desejo aprisionado dentro de nós. Não de enfrentar o mundo, mas de enfrentar o personagem que construímos para sermos aceitos por ele. Porque toda transformação verdadeira começa quando alguém tem a coragem de interromper uma repetição.

Certamente, o inconsciente coletivo continuará sussurrando que o seguro é permanecer onde todos permanecem. Mas a consciência sempre fará uma pergunta muito mais poderosa: “E se a vida que chamam de normal nunca tiver sido, de fato, a sua?”.

Ao mesmo tempo em que fazemos o questionamento, surge o julgamento. Não apenas o dos outros, mas, principalmente, o nosso. Carregamos tantas vozes emprestadas dentro de nós que começamos a desconfiar da única voz que realmente conhece o caminho: a nossa.

Quantas vezes você deixou de fazer algo porque pensou “o que vão pensar?” Essa talvez seja a prisão mais sofisticada já construída. Ela não tem grades, mas tem opiniões. Com o tempo, percebemos que a real liberdade não é fazer exatamente o que se quer, mas não precisar mais da autorização do mundo para ser quem se é.

E quem se arrisca a se libertar percebe que a autenticidade tem um preço, já que ela rompe contratos silenciosos. Quando alguém deixa de sentir a culpa esperada, o medo imposto ou a vergonha ensinada, inevitavelmente causa estranheza. Não porque esteja errado, mas porque deixou de percorrer o conhecido trajeto, no piloto automático da multidão.

No final da contas, a manada sempre encontrará motivos para julgar quem escolheu outro caminho. Mas somente quem escuta o próprio coração descobrirá que há estradas internas que não aparecem nos mapas, apenas na alma de quem decidiu caminhar por elas, já que o inconsciente coletivo pode até nos ensinar a pertencer, mas é a consciência desperta que nos ensina, finalmente, a viver.

Escritora. Observadora comportamental. Bacharel em Direito.

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