A personalidade autoritária

Rei derruba peças no xadrez
Seria um erro imaginar que a personalidade autoritária pertence exclusivamente a determinado partido, classe social ou campo ideológico. Ela pode atravessar diferentes grupos e assumir vocabulários distintos. Foto: Pixabay

Acostumamo-nos a falar de autoritarismo como forma de governo. O problema é que, ao procurarmos o autoritarismo apenas nos parlamentos, corremos o risco de ignorar aquilo que sustenta sua personalidade. Antes de se transformar em regime, ele se instala como disposição psicológica.

Foi essa dimensão que Theodor W. Adorno, em colaboração com outros pesquisadores, procurou investigar ao estudar a personalidade autoritária. A questão não era apenas descobrir por que determinadas pessoas aderiam a movimentos antidemocráticos, mas compreender que mecanismos psicológicos as tornavam receptivas à submissão, ao preconceito e à violência legitimada pela autoridade.

Isso nos obriga a olhar para o totalitarismo para além de sua condição de fenômeno histórico. Regimes totalitários não surgem do nada, nem dependem exclusivamente da ambição de seus líderes. Eles encontram terreno fértil em disposições subjetivas que podem ser cultivadas cotidianamente. Não se trata de afirmar que o autoritarismo seja um destino biológico ou um produto inevitável da sociedade, mas de reconhecer que determinadas formas de educação, relações de poder, inseguranças e visões de mundo podem favorecer sua formação.

Entre suas características mais importantes, três merecem atenção especial: a adesão rígida aos valores tradicionais, a submissão à autoridade e a agressividade dirigida contra aqueles que desafiam as normas estabelecidas.

A primeira é o tradicionalismo dogmático, devoção quase religiosa a valores herdados. Para o autoritário, uma prática precisa ter tradição. É assim que a defesa da família, da pátria ou de Deus pode se converter em policiamento da intimidade alheia. Geralmente, se manifesta em gente que condena as mudanças nos costumes, mas aceita sem grande dificuldade as novidades tecnológicas que ampliam sua influência.

A segunda característica é a submissão autoritária, sustentada pela crença de que a hierarquia, por si só, confere legitimidade a quem ocupa uma posição superior. O autoritário não se limita a reconhecer que existem diferenças de função, experiência ou responsabilidade. Ele tende a transformar essas diferenças em desigualdades morais.

O curioso é que o indivíduo submisso diante dos poderosos frequentemente se torna um pequeno soberano diante dos vulneráveis. Curva-se perante quem pode puni-lo, mas exige reverência de quem depende dele.

Essa dinâmica ajuda a compreender o componente sadomasoquista identificado por Adorno e outros pensadores da tradição crítica. O sujeito encontra alívio ao se dissolver na força de alguém que admira e compensação ao exercer sobre os outros a violência que aceita sofrer.

A terceira característica é a agressividade autoritária, a inclinação a vigiar, denunciar, ridicularizar e punir pessoas percebidas como transgressoras dos valores dominantes. O autoritário não quer apenas organizar a própria vida segundo suas convicções. A diferença, para ele, é uma provocação pessoal. A lógica inconsciente se explicita da seguinte forma: quanto mais feroz a condenação, mais visível e ostensiva parece a virtude de quem condena.

O autoritarismo, portanto, não se revela apenas no gosto pela força. Revela-se na dificuldade de aceitar limites para a própria força. Não está somente em quem deseja mandar, mas também em quem precisa que alguém mande para não ter de enfrentar a incerteza de pensar, escolher e responder pelas próprias decisões.

Há, ainda, um elemento que conecta essas três características: a necessidade de simplificar o mundo por meio de classificações rígidas. O autoritário tende a dividir a realidade entre fortes e fracos, puros e impuros, obedientes e rebeldes, cidadãos de bem e indivíduos suspeitos. A complexidade incomoda. Por isso, as contradições são frequentemente resolvidas não pela reflexão, mas pela eliminação simbólica de quem as expõe.

Seria um erro, contudo, imaginar que a personalidade autoritária pertence exclusivamente a determinado partido, classe social ou campo ideológico. Ela pode atravessar diferentes grupos e assumir vocabulários distintos.

Isso não significa que todas as posições políticas sejam equivalentes, nem que toda convicção firme seja sinal de autoritarismo. A diferença está na maneira como alguém lida com o desacordo, com os limites do poder e com a dignidade daqueles que não compartilham suas crenças.
A questão central, a partir daqui, não é apenas o que uma pessoa defende, mas o que ela se permite fazer em nome daquilo que defende.

Talvez a manifestação mais perigosa do autoritarismo seja justamente sua capacidade de apresentar-se como o oposto daquilo que é. O autoritário raramente se imagina como tal. Prefere considerar-se o último defensor de uma ordem ameaçada, o guardião de uma verdade que todos os demais teriam abandonado.

É por isso que combater o autoritarismo exige examinar as pequenas práticas cotidianas. É nesse sentido que a democracia se apresenta não apenas como um conjunto de instituições, mas uma prática contínua de amadurecimento da formação humana. Tarefa difícil, pois o autoritarismo é o seu contrário: uma regressão, a arte de transformar a imaturidade política em projeto de sociedade.

Doutor em Educação. Colunista do Estado de Minas. Filósofo (de boteco) e atleticano.

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