O “six-seven” (ou simplesmente “67”) nasce de um verso repetido quase hipnótico na música “Doot Doot (6 7)”, do rapper Skrilla, e ganha tração em vídeos de basquete nas redes sociais, especialmente associados à altura do jogador LaMelo Ball (6 pés e 7 polegadas). Até o Google entrou na vibe.
A partir daí, descola-se de qualquer sentido original e vira uma espécie de senha geracional: uma expressão sem significado fixo, deliberadamente absurda, que se espalha justamente por não precisar fazer sentido, típico do mundo BANI e VUCA.
É o chamado “brain rot”: conteúdo vazio, repetitivo, que funciona mais como linguagem de pertencimento do que como comunicação. Jovens repetem “six-seven” não para dizer algo, mas para marcar que estão dentro de um código que adultos não entendem. O vazio, nesse caso, é o próprio conteúdo simbólico geracional.
E talvez seja aí que o fenômeno deixa de ser apenas curioso para se tornar útil como metáfora.
Em Minas Gerais, longe do TikTok, há um outro tipo de “six-seven” em curso, menos engraçado e com consequências bem drásticas e concretas. Reportagens recentes e manifestações de entidades de classe apontam para um clima organizacional deteriorado na Secretaria de Estado de Fazenda.
Levantamentos do Sindifisco-MG no passado recente indicam um cenário quase unânime de insatisfação: mais de 97% dos servidores relatam ausência de diálogo institucional, enquanto cerca de 98% afirmam nunca ter visto situação tão grave na pasta. O ambiente é descrito como de completa insatisfação, especialmente diante de impasses legais que afetam a segurança jurídica de remuneração e carreira. Com isso é crescente a evasão de talentos, vide observatório de evasões (https://observatoriosefmg.github.io/evasao/dist/).
A crise não é apenas subjetiva, ela faz cair rendimento, provoca evasão de quadros e queda da arrecadação. Este quadro tem inevitável impacto direto na arrecadação.
Quando quem fiscaliza está totalmente desmotivado, a conta não fecha.
É nesse ponto que o meme encontra a realidade, e o trocadilho se impõe como que invertido: vive-se, na prática, um cenário de “seven-six”.
Porque, se fosse medido hoje o clima organizacional na Secretaria de Fazenda com a mesma lógica nonsense do TikTok, o resultado seria algo como: 7 em cada 6 Auditores Fiscais insatisfeitos com a gestão do então Secretário de Fazenda.
Um número impossível e, ainda assim, estranhamente preciso e real.
A insatisfação generalizada, de TODA a alta administração e TODO o corpo técnico de Auditoras e Auditores Fiscais, a perda de talentos muito acima de Turn over razoável, o desgaste institucional e o impacto na arrecadação do Estado formam um ambiente onde o absurdo deixa de ser piada e vira impacto real na vida de servidores, nas finanças públicas e seus reflexos para a sociedade. E, ao contrário do “six-seven” digital, aqui o vazio tem custo real: menor eficiência institucional, queda de arrecadação e, inevitavelmente, frustração das metas previstas no orçamento e das entregas em termos de políticas públicas.
Não se trata apenas de gestão de pessoas, o que já seria muito impactante, e também irônico, já que a Secretaria de Fazenda de Minas Gerais recebeu recentemente uma certificação de Top Employer, trata-se de gestão de Estado e de seus reflexos no interesse público.
No fim, o contraste é quase irônico. Enquanto jovens gritam “six-seven” para celebrar o sem sentido, uma das estruturas mais estratégicas da administração pública mineira parece mergulhar em sua própria versão de nonsense, onde decisões não fazem sentido (vide recente exoneração de toda a equipe da Corregedoria da SEF/MG, sem explicação, tornada sem efeito no dia seguinte, também sem qualquer explicação), políticas públicas não se consolidam, servidores não se sentem ouvidos e muito menos reconhecidos.
A diferença é que, fora da vibe das redes sociais do “six-seven”, o absurdo real não pode ser tratado como piada, pois ele cobra a conta, que todos pagam. Espera-se que as decisões e atos da nova titular da Secretaria de Fazenda de Minas Gerais, Luciana Mundim, restabeleçam com brevidade a boa governança na SEF/MG e a motivação de seus servidores.