Quando a gente volta de uma viagem internacional, a primeira pergunta que costumam fazer é: “o que você trouxe na mala?”. No meu caso, voltando de Berlim nas últimas semanas, a bagagem mais valiosa que desembarcou comigo não foi um souvenir, mas uma provocação política urgente sobre Belo Horizonte.
Ao debater experiências de fora, é comum esbarrarmos na velha síndrome de vira-lata, aquela crença preguiçosa de que tudo na Europa é perfeito e o Brasil está fadado ao fracasso. Mas quem conhece BH sabe da nossa força. Somos uma metrópole gigante, complexa, com uma economia pujante e um povo teimoso, que acorda cedo e sustenta a cidade de pé. Não precisamos de lições de moral de fora. No entanto, governar uma metrópole exige a maturidade de reconhecer o que funciona em outros lugares para entendermos com clareza por que ainda patinamos tanto aqui. E a verdade é que, quando o assunto é mobilidade, nós estamos confiscando o bem mais precioso do trabalhador: o tempo.
Os números expõem a ferida. Dados recentes de relatórios globais sobre transporte público mostram que Belo Horizonte figura entre as cidades com o maior tempo de deslocamento diário do país, e somos hoje uma das capitais no mundo onde o passageiro mais espera no ponto, amargando médias absurdas apenas para conseguir embarcar. Na prática, isso significa que quem depende de ônibus em BH gasta horas do seu dia, e da sua vida, apenas no trânsito. Em contrapartida, Berlim frequentemente lidera os rankings mundiais de mobilidade urbana, com índices de aprovação de seu transporte público que beiram a unanimidade entre os moradores locais.
A diferença entre esses dois cenários não é uma obra do acaso, nem se resume apenas ao tamanho do orçamento de um país europeu. É, antes de tudo, uma escolha de modelo.
A capital alemã entendeu, há muitas décadas, que nenhuma cidade sobrevive jogando o peso do deslocamento de milhões de pessoas nas costas de um único modal. Lá, o investimento é contínuo e diversificado: metrô subterrâneo, trem de superfície, VLT, ônibus articulados e uma integração real que permite que a cidade respire. Ao diluir a pressão urbana em várias formas de transporte, o sistema ganha resiliência para não colapsar nos horários de pico. Em Belo Horizonte, fazemos o oposto. Sufocamos a nossa rotina ao depender quase que exclusivamente de um sistema de ônibus que precisa dar conta de tudo sozinho e que, quando uma avenida trava, paralisa a capital inteira.
Mas o detalhe que mais me chamou a atenção em Berlim não foram as grandes obras da engenharia moderna, mas sim as adaptações de baixo custo. Em grande parte da cidade, notei como ciclofaixas e travessias ficam na própria calçada, na parte externa, divididas apenas por marcação e organização visual, separando ciclistas e pedestres. O poder público de lá não precisou quebrar o asfalto inteiro, paralisar o trânsito com intervenções milionárias ou afundar o orçamento para criar uma via segura. Eles simplesmente adaptaram o espaço urbano já existente de forma criativa.
Isso parece pequeno, mas revela um problema estrutural imenso por aqui: nós transformamos a falta de dinheiro na desculpa perfeita para a inércia. Nós nos acostumamos a usar a promessa de licitações bilionárias e projetos de expansão que duram décadas como uma cortina de fumaça para não resolver o que pode ser otimizado hoje, no nível da rua e da calçada. A justificativa da grande obra acabou imobilizando a capacidade de gestão do poder público.
Como vereador, aprendi rápido que o orçamento é curto e que fazer política pública é a arte de equilibrar prioridades. Mas a verdadeira inversão de prioridades que precisamos consolidar na gestão de Belo Horizonte não é o debate sobre qual será a grande obra de vitrine da próxima eleição. É sobre como fazer a cidade funcionar na manhã de segunda-feira. Precisamos de um choque de pragmatismo. De soluções que integrem o que já existe, que utilizem o espaço urbano com inteligência e que parem de tratar o tempo perdido pelo cidadão no trânsito como uma externalidade natural e aceitável.
Nós não podemos, sob hipótese alguma, desistir do transporte público de Belo Horizonte. Não dá para aceitarmos o caos e a superlotação como se fossem o único destino possível para uma cidade do nosso tamanho. A nossa missão não é tentar transformar BH numa cópia europeia, mas ter a audácia de encarar o nosso próprio tamanho com seriedade. O direito de ir e vir com eficiência não é um luxo, é o básico para que a cidade caminhe, finalmente, no mesmo ritmo da grandeza de sua própria gente.