Não é debate, seu ignorante. É polêmica!

Cidadão utiliza o telefone celular
Os dois lados acreditam que estão combatendo o adversário, enquanto alimentam a mesma máquina. E a plataforma apenas contabiliza o espetáculo no globo da morte. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Os profissionais da política já descobriram que o debate morreu faz tempo. Já sabem que a rede funciona por reações, e não por reflexões.
O que existe agora é a polêmica.

O debate, para os dias de hoje, exige algo muito obsceno. É preciso tempo para refletir, alguém disponível ao diferente para dialogar e gente disposta a se colocar diante de ideias. Essa última possibilidade, aliás, passa a ser considerada uma prática de risco.

A polêmica nasce pronta. Essa é a estratégia. Ela dispensa qualquer tipo de delicadeza ou elegância existencial. É por isso que, no fundo, não existe um interesse genuíno em convencer alguém, mas apenas em produzir uma reação. É assim nos supostos “debates” e nas discussões acaloradas sobre política. Afinal, inimigo hoje em dia é mercadoria abundante.

Já escrevemos, neste mesmo espaço, que os meios de comunicação perceberam isso há algum tempo. O assunto político já não precisa ser suficientemente importante para virar notícia. Precisa ser inflamável. A manchete fornece somente o assunto, que orienta a indignação e os memes, enquanto o algoritmo faz o resto.

A esquerda acadêmica, que conhece o povo apenas como entidade abstrata, conceito lido em alguma bibliografia de doutorado financiada com dinheiro público e que ninguém vai dar a mínima, revestida de “interseccionalidades”, “decolonialidades” e “desconstruções”, transforma a polêmica em análise sociológica. O trabalhador agradece a solidariedade, mas o artigo sobre a representação discursiva sobre a luta de classes no capitalismo tardio não serve para pagar o aluguel.

A direita violenta, com seu autoritarismo típico de gente que canalizou todo o seu tesão no prazer de pautar a sexualidade alheia, com a pretensão moralista dos sujos que projetam a imundície sentida em suas próprias consciências no mundo, capitaliza a polêmica em forma de entretenimento e venda de armas. Os direitosos brasileiros são uma espécie de Grande Irmão com chinelo havaiana e camisa da seleção.

O interessante disso é que os dois lados acreditam que estão combatendo o adversário, enquanto alimentam a mesma máquina. E a plataforma apenas contabiliza o espetáculo no globo da morte.

E o cidadão comum, herói dos dias úteis, fica obrigado a consumir essa salada transgênica com gosto artificial de cidadania, pagando caro para viver uma existência que em nada se parece com a vida real. A crise não é apenas de representatividade; é de realidade!

O sujeito acorda cedo, pega trânsito, trabalha, paga conta, volta para casa e abre o celular para descobrir que a grande questão nacional daquele dia é se algum idiota disse alguma coisa idiota sobre outro idiota, se transformando em especialista em geopolítica enquanto sente o sacolejo do ônibus.

Se alguém não comparece ao debate, há polêmica.

Se comparece e não responde, há polêmica.

Se responde demais, há polêmica.

Se não responde, também.

A controvérsia respeita a fluidez, a desimportância e a rotatividade do nosso tempo, gerando, de semana em semana, o famoso “fato novo”. E aí todo mundo se torna especialista em polêmica. Na verdade, é a morte do debate e a vitória da fofoca, que ganha ares de participação e importância política. Há tempos não discutimos saneamento básico, emprego, economia, segurança pública e soberania. Apenas polemizamos esses assuntos.

Não nos lembramos das polêmicas do ano passado, assim como não nos interessam aquelas da eleição passada. Elas agora se encontram no lixão imagético que se junta aos filmes água com açúcar que assistimos para dormir e dos quais depois não nos lembramos nem do nome, em uma conversa de boteco.

Byung-Chul Han chamou atenção para aquilo que classifica como “sociedade do escândalo”. Ele não é apenas um acontecimento excepcional. É uma forma de circulação. Precisa ser visto, comentado, compartilhado, aumentado. Não basta que alguma coisa aconteça. É preciso que aconteça diante de nós, repetidamente, em fragmentos, até que o acontecimento se torne mais importante do que aquilo que efetivamente aconteceu.

A polêmica é democrática nesse sentido perverso: oferece a todos a oportunidade de participar da mesma confusão. O sujeito que não consegue escolher uma senha com segurança se transforma em especialista em democracia liberal.

Não precisamos sequer concordar sobre os fatos. Podemos disputar indefinidamente a interpretação do corte retirado do contexto. Os afoitos, com título de pós-doutorado em ejaculação precoce na política, já têm o vídeo certo para exibir em seu perfil.

É o lado lindo da democratização do direito de estar errado com profunda convicção!

A sociedade do escândalo não precisa de acontecimentos extraordinários. Precisa apenas de acontecimentos suficientemente pequenos e ambíguos para comportar vinte interpretações.

A política percebeu isso. O jornalismo percebeu. As redes perceberam. Os profissionais da política perceberam antes de todos.

E nós?

Continuamos chamando isso de debate, palavra nostálgica e bonita, que dá até a impressão de que alguém está ouvindo.

Doutor em Educação. Colunista do Estado de Minas. Filósofo (de boteco) e atleticano.

Não é debate, seu ignorante. É polêmica!

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