Como divinopolitano, nascido e criado, somada a formação em ciência do estado e política, ouvi essa pergunta diversas vezes nas últimas horas… Trabalho, fala simples, direta, e uma cidade que irradia gente ajudam a explicar o peso político que Divinópolis conquistou nas urnas em 2026. Mas a eleição também deixou recados que nenhum campo político pode se dar ao luxo de ignorar.
No dia seguinte às eleições, a mesma pergunta chegou a mim por caminhos diferentes: qual é o segredo de Divinópolis?
Não é para menos. Em um único domingo, a cidade do Centro-Oeste, de 171 mil eleitores mineiro elegeu Cleitinho Azevedo governador em primeiro turno. Viu Domingos Sávio, que começou sua trajetória política no município, conquistar uma vaga no Senado. Mandou à Câmara dos Deputados quatro nomes: Ana Elisa, Lohanna França, Gleide Andrade e Gleidson Azevedo. E reconduziu Eduardo Azevedo à Assembleia Legislativa.
Não estamos diante de um sucesso isolado, mas de um deslocamento do eixo político de Minas em direção a uma cidade do interior. A pergunta popular merece resposta séria, que não se refugie nem no folclore nem no acaso. Antes, uma ressalva honesta: para escrever não consolidei dados de votação por município nem pesquisas sobre a motivação do eleitor. O que ofereço é a leitura de quem cresceu na cidade e acompanhou de perto parte dessas trajetórias.
Uma cidade de ofício
Divinópolis cresceu com os trilhos e abrigou uma das maiores oficinas de manutenção ferroviária da América Latina. Uma cidade de oficina é uma cidade de ofício: ali, o valor de alguém também se mede pelo que sabe fazer, consertar e manter funcionando.
A base econômica mudou, mas a marca ficou. Hoje a cidade vive de serviços, educação e saúde. Tem a UEMG, a UFSJ com seus cursos de saúde, um hospital que atende todo o Centro-Oeste e o antigo Cefet, agora universidade tecnológica, que exporta capital humano para o mundo. Divinópolis forma gente e, por isso mesmo, exporta gente.
O mesmo trilho que fixou a cidade é o que leva e traz pessoas. Não seria a capilaridade eleitoral de seus políticos uma tradução dessa vocação? Nossos deputados não dependem só de Divinópolis nem só do Centro-Oeste. Eles ramificam suas votações pelo estado. Uma cidade que irradia gente tende a produzir lideranças que irradiam votos.
A força da fala simples
Se os trilhos explicam o alcance, o que explica a confiança? Minha resposta é o trabalho. Divinópolis sempre tratou o trabalho como qualidade de caráter e, por extensão, como credencial política. Ali, o trabalho não é tema de campanha. É o critério pelo qual a campanha é julgada.
A isso se soma uma mineiridade de interior: o jeito de quem ouve antes de falar, articula antes de impor (não se engane) e cresce com uma linguagem fácil e direta. Não por acaso, esta é a terra de Adélia Prado, cuja poesia desconhecida pelo último Governador que desapareceu nas urnas, tira da fé e das coisas miúdas do cotidiano uma força que comove justamente pela simplicidade. A lição vale para a política: simplicidade não é pobreza de pensamento, é economia de forma.
Os políticos de Divinópolis não se vestem nem falam como os de outras regiões, e é isso que os aproxima das pessoas. As redes espalham essa linguagem; o jeito simples transforma alcance em identificação.
Mas toda virtude tem sua sombra. Sérgio Buarque de Holanda já advertia que a cordialidade brasileira, quando levada à esfera pública, tende a confundir afeto pessoal com coisa pública. Proximidade que gera confiança é virtude; proximidade que apaga a fronteira entre o público e o privado é vício. Que três irmãos de uma mesma família tenham sido eleitos é legítimo, porque passou pelo crivo do voto. Mas reforça a necessidade de instituições fortes o bastante para equilibrar carisma e controle.
Biografias opostas, campos distintos, mesma gramática
Cresci vendo meus pais comprarem verduras no varejão onde Cleitinho, seu pai e seus irmãos sempre trabalharam muito. O futuro governador também foi o cantor que animou minha calourada no CEFET, com músicas que não lhe deram o sucesso que a política daria. Na primeira campanha, chutava placas de políticos, rejeitando o sistema sem distinção de partido. Disseram que não chegaria à Assembleia; chegou. Disseram que perderia o mandato pelas roupas e pelo jeito de falar; ele não parou de dialogar diretamente com as pessoas. Disseram que o Senado, com uma única cadeira em disputa, era voto difícil demais; foi eleito. Agora, depois de idas e vindas e em meio a tragédias pessoais, como a perda de um irmão, chega ao governo de Minas com mais de 6 milhões de votos. Mal compreendido por muitos, Cleitinho encarna um paradoxo: a antipolítica que se converte em política institucional. Quem chutava placas passa a responder pelo Estado.
Lohanna França é outra face da mesma gramática. Conheci-a quando trabalhava numa campanha presidencial em uma prospecção de agenda eleitoral na minha terra natal, Divinópolis. Curiosa, bem formada, filha da UFSJ, vinda do movimento estudantil, professora com 40 horas semanais de aula, em regime de CLT, fazia campanha de moto, sem recursos e sem medalhões por trás, mas com uma corrente de voluntários que se mantém convictos com ela. Tornou-se a vereadora mais votada da história da cidade, foi deputada estadual de oposição firme e agora chega à Câmara Federal. É o trabalho convertido em resultados e mandato.
Ana Elisa veio das redes. Aos 21 anos, sem nunca ter ocupado cargo, construiu em poucos meses, com seus vídeos eloquentes e suas análises de fatos cotidianos nas redes, uma rede com grandes nomes da comunicação política e virou aposta do PT. Foi a segunda mais votada do Estado, com mais de 500 mil votos, e seu discurso combativo faz contraponto direto a Nikolas Ferreira, outro concentrador de votos.
Gleide Andrade, tesoureira nacional do PT, percorreu o caminho oposto ao da novidade digital. Com longa atuação política, construiu musculatura com prefeitos e vereadores e voltou a se eleger depois de uma derrota. Gleidson Azevedo, gêmeo de Cleitinho, foi prefeito bem avaliado e chega à Câmara com cerca de 120 mil votos. Eduardo Azevedo foi reeleito com uma base conservadora sólida.
Sinais ideológicos opostos, mesma gramática: trabalho visível, fala direta, presença constante, mesmo que nas redes. Divinópolis não elegeu um campo político. Elegeu um modo de fazer política.
O recado das urnas
Se o segredo de Divinópolis explicasse tudo, poderíamos parar aqui. Mas esta foi uma eleição de novidades. Grandes nomes engoliram parlamentares de tradição. Nikolas Ferreira concentrou mais de 3 milhões de votos em Minas, marca impressionante numa disputa proporcional, e muitos moderados ficaram sem cadeira.
A eleição também desmontou a crença de que as emendas parlamentares bastariam para segurar o eleitor. Se a emenda pavimenta a rua, por que não pavimentou o voto? A entrega material é necessária, mas não substitui a voz que o eleitor reconhece como sua.
Bernard Manin chamou de “democracia de público” esse cenário em que o eleitor responde menos a partidos e mais a personalidades mediadas pela comunicação. Os fenômenos da internet saíram desta eleição como os grandes vencedores. Entender como construíram essa força precisa fazer parte da reflexão de todos os campos, não apenas de quem venceu.
Nada disso autoriza deslegitimar o resultado. A vontade popular é soberana, e para quem defende a democracia isso precisa valer também quando o resultado contraria o que se esperava. As pessoas sempre têm um porquê para suas escolhas, gostemos delas ou não. Compreendê-las não é concessão. É obrigação.
Uma geração sem horizonte
Há um pano de fundo que nenhuma estratégia pode ignorar. Temos uma geração nova profundamente desesperançosa, que já não sonha com a casa própria nem com um emprego formal que pague bem. Uma campanha morna, de paz, amor e propostas, será capaz de dialogar com ela? Não por acaso Nikolas e Ana Elisa, de campos opostos, venceram com discursos firmes e combativos.
O desafio, porém, não é escolher entre a mornidão e a radicalização. É oferecer horizonte concreto, com trabalho, moradia e perspectiva, e comunicá-lo com firmeza, sem abrir mão da civilidade democrática. A política é uma luta permanente, com avanços e retrocessos. Não há derrota nem triunfo definitivos.
Difícil mesmo é governar
O que tem na água de Divinópolis, afinal? Não há mistério, há uma combinação: uma cidade de ofício, uma fala simples e uma vocação para irradiar gente, potencializada pelas redes.
Certa vez me disseram que ganhar eleição pode ser difícil, mas difícil mesmo é governar. Weber via a política como um esforço lento e persistente contra resistências duras, que exige conciliar convicção e responsabilidade pelas consequências. Esse é agora o desafio de quem Divinópolis e Minas elegeu: converter capital eleitoral em capacidade de governo. O peso conquistado nas urnas só se justificará se resultar em instituições melhores, num Estado que entregue e em políticas a serviço do interesse público. A eleição terminou. O trabalho, que sempre foi a marca da cidade, começa agora.
