O verbo de barro — do útero ao pó

Mãe segura a mão de filho
O domingo está chegando. Vai ter almoço, vai ter presente, vai ter cartão com letra de forma. E eu? Eu não sei mais o que seja homenagear. Foto: Pixabay

O cheiro do pão vinha antes do sol. Minha mãe acendia o forno ainda no escuro, e o resto da casa dormia. Eu me levantava da cama, os pés gelados no chão frio, e encontrava ela de costas, as mãos enfarinhadas, o avental manchado de massa velha. Ela empurrava a tigela de margarina na minha direção e continuava sovando.

Maio chegava e minha mãe não fazia alarde. Também não recusava. Quando a gente aparecia com o presente embrulhado, ela recebia com as duas mãos, os olhos baixos, um sorriso amoroso. Depois guardava o embrulho na cômoda, sem pressa, e voltava para a cozinha. Nunca soube se ela gostava do Dia das Mães. Acho que simplesmente não precisava dele. O amor que ela dava não dependia de calendário, e o que recebia também não.

Esses dias eu estava no hospital. Santa Casa, Belo Horizonte. Corredor de ala pediátrica, e o silêncio de lá não é silêncio: é um zumbido de ar condicionado e solução salina pingando. Um menino saiu da quimioterapia. Parecia um pássaro molhado. Não pediu água, não pediu cama. Foi direto para o colo da mãe, e se afundou ali. A mãe tinha o rosto parado, mas os dedos se mexiam nas costas do menino, um movimento circular, antigo. O menino escondia o rosto no pescoço da mãe e eu percebi, sem querer, que ele não estava sendo consolado. Estava protegendo a mãe da sua própria agonia.

Atravessei o corredor. Outro quarto. Outra mãe. Desta vez, uma menina deitada, o corpo fino sobre o lençol branco. Não mexia os braços, não virava a cabeça. A mãe a levantava da cama com a naturalidade de quem levanta uma jarra cheia. Ajeitou o lençol. Falou com ela sobre o sol que aparecia lá fora. A menina não respondia. Não respondia há oito anos. A enfermeira me disse o número, e eu fiquei repetindo ele na cabeça: oito anos. Oito anos levando aquele corpo que não se move, falando com aquela boca que não responde.

Uma vez perguntei para uma avó — que criou seis filhos sem nunca ter parido nenhum, que recolheu criança da rua e deu banho e fez dormir — como ela aguentava. Ela me olhou com aquele olho meio fechado que o glaucoma foi comendo e disse: Meu filho, a gente não aguenta. A gente vai. E só.

Não é heroísmo. Não é santidade. As pessoas gostam de colocar coroa de flores na cabeça das mães e depois deixá-las sozinhas na cozinha, com os pés inchados dentro do chinelo. É mais fácil fazer poema do que lavar a louça. É mais fácil discursar no domingo do que ligar na terça-feira.

Eu não sei definir o que é o amor de mãe. Já li tratados. Já ouvi sermões. Nada cola. O que eu vi foi um menino de oito anos querendo poupar a mãe da tristeza. O que eu vi foi uma mulher que repetia gestos havia quase três mil dias para alguém que não podia agradecer. O que eu vi foi minha mãe sovando massa às seis da manhã para que houvesse pão na mesa, e depois brigando comigo porque eu esquecia a mochila na escola, e depois dormindo no sofá com o romance aberto no colo.

Talvez o amor seja isso: repetição. A mesma palavra, o mesmo gesto, a mesma cozinha, o mesmo quarto de hospital. Repetir até que o gesto se torne osso. Repetir até que a presença se torne ar.

Eu saí do hospital e fui para o trabalho. Meus olhos ardiam, chorei muito no trajeto até minha sala. Chorei em casa e estou chorando aqui enquanto escrevo. Fico pensando no chinelo da minha mãe arrastando pelo chão de madrugada. Ela já não está aqui. O chinelo não arrasta mais. Mas o som, o som de borracha gasta no piso frio, esse ficou. Ficou como fica uma cicatriz que não dói, mas lembra.

O domingo está chegando. Vai ter almoço, vai ter presente, vai ter cartão com letra de forma. E eu? Eu não sei mais o que seja homenagear. Talvez seja só olhar para trás e admitir que a conta nunca fechou. Elas deram o que não tinham. E a gente, o que tem para dar?

Fica essa pergunta. Não como tese. Não como sermão. Fica como um nó na garganta. Como o cheiro de massa que sobe da memória. Como o pão que cresce no forno enquanto a casa ainda dorme.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

Leia também:

O verbo de barro — do útero ao pó

A República das Palavras Perdidas

As conversas de Gabriel Azevedo e Jarbas Soares sobre as eleições de 2026

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse