Pão, chão, coração: um ensaio sobre vaidade, desejo e o retorno à própria fonte

No fundo, a vida é simples. A limpeza é que dá trabalho. Mas basta a coragem de tirar a ferrugem
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Minha avó paterna, Adelaide, tantas vezes lembrada pelo meu Pai Nery, ensinava que a nossa evolução pede três bens simples e radicais: o pão, o chão e o coração. O pão, que sustenta. O chão, que orienta. O coração, que dá sentido. Esta tríade oferece uma régua silenciosa para medir nossos desejos e nossas faltas. Quando a vida perde o prumo, quase sempre é porque faltou alimento verdadeiro, faltou pertencimento real, faltou coragem amorosa.

Há uma febre no ar. Você sente. Um zumbido que empurra tudo para depois e nos aprisiona num vestibular interminável. Em prestações quase invisíveis, trocamos o que nos é originário, o sossego, o ritmo próprio da respiração, o chão sob os pés, por promessas de plenitude que se desfazem ao primeiro toque. A cada ciclo, uma nova embalagem do mesmo desejo. A cada giro, um novo verniz sobre a mesma carência.

No silêncio da casa, porém, resiste um fio de voz. É um eco antigo que recorda, como lembra a professora Lúcia Helena Galvão ao citar Sêneca, que não somos obra a construir. Somos essência a desvelar. A verdade de nós é a de uma gota, limpa e inteira, oceano em si mesma. O que pesa são as crostas. O pó das expectativas. A ferrugem das vaidades. O medo colado ao metal íntimo.

Aparências enganam

A nossa estratégia costuma falhar porque procura água fora quando o trabalho mais simples, e também o mais árduo, é lavar por dentro. A sede que nos move não é do corpo. É do ego. É a fome de aplauso que abafa a música da consciência. É a carência que exige garantias do amor e volta de mãos vazias.

Nesse transe, celebramos banquetes com louças alheias sem perguntar quem paga a conta da fantasia. O mundo não se entorta apenas pela ambição dos que mandam. Entorta também pela ambição miúda de cada um, a que normaliza a miséria, a que treina o olhar para se acostumar.

É aí que a fantasia cobra juros. Quando a pressa por brilho terceiriza o risco, o lucro veste roupa de banquete e entrega doença no prato. Como observa o jornalista Rafael Tonon, na coluna “Metanol e comida que adoece: a conta que as casas não querem pagar”, sempre que a cozinha empurra a conta para o invisível, higieniza a consciência e adoece o corpo, o mundo entorta um pouco mais. O pão deixa de ser substância, o chão perde o norte e o coração desaprende a medida.

Peguntas que não calam

A tríade devolve a medida. O pão pergunta se o que me alimenta é substância ou apenas brilho. O chão interroga se minha rota é herdada ou escolhida. O coração, por fim, pergunta a quem serve o meu esforço. Quando essas três perguntas se alinham, começamos a ver a ferrugem pelo que é. Não destino, mas depósito. Não essência, mas excesso.

Transformar começa como rebeldia íntima contra o automatismo. É colocar o desejo no banco dos réus e perguntar com simplicidade: a quem isto serve de fato? Se a resposta aponta apenas para o espelho turvo, há caminho de volta.

Voltar não é regredir. Voltar é remover a ferrugem. É deixar que a água escondida apareça onde sempre esteve. A fonte não se foi. Fomos nós que nos afastamos do poço.

Você tem fome do quê?

Quando a poeira baixa, a pergunta muda. Em lugar de como vencer, surge outra, mais nítida. Do que hoje move a sua busca, o que é genuinamente seu e o que é apenas crosta. O exame é discreto. Pede menos ruído e mais pulso. Pede recolher os fragmentos do dia e reconhecer, sem dramatização, o que precisa ser lavado.

E então os três bens voltam a alinhar a bússola. O pão mantém o corpo de pé. O chão lembra a direção. O coração impede que esqueçamos por que caminhar. Quando a tríade se recompõe, a sede cessa o seu comando. A vaidade perde o volante. A essência volta a falar no idioma da casa.

No fundo, a vida é simples. A limpeza é que dá trabalho. Mas basta a coragem de tirar a ferrugem, de aquietar a sede que não se sacia e de confiar que a água escondida, uma vez liberada, encontra sozinha o seu curso. Então o pão volta a ter gosto, o chão volta a ser morada e o coração volta a reconhecer o próprio ritmo.

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