O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo.[3] Por isso, eu me recuso a aceitar que uma riqueza dessa importância sirva principalmente para alimentar o desenvolvimento dos outros, enquanto nos acostumamos a comprar tecnologia e a aceitar as condições de quem a controla. Temos o direito de querer mais para o nosso país. E precisamos nos organizar para que esse direito se transforme em capacidade de produzir, pesquisar e decidir.
Minas Gerais precisa enfrentar a contradição de ser rica em recursos minerais e continuar tão dependente da exportação de commodities. A chamada “maldição dos recursos naturais” ganha forma quando essa riqueza acomoda governos numa especialização que pouco avança para atividades mais sofisticadas. Ao privilegiar a extração sem estimular sua ligação com a fabricação local de máquinas, componentes e tecnologias, o poder público desperdiça oportunidades de diversificação e pode aprofundar a desindustrialização. A economia perde fornecedores, empregos qualificados e conhecimento que poderiam se multiplicar pelo território. Exportar mais minério, por si só, não garante uma indústria mais forte: é preciso transformar a demanda da mineração em produção e inovação dentro de Minas. É esse compromisso que devemos exigir para as terras raras, antes que uma nova promessa de riqueza reproduza a velha dependência.
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos. Alguns deles permitem fabricar ímãs muito potentes, utilizados em motores, geradores de energia e discos rígidos de computadores. Para chegar a esses produtos, os materiais passam por processos de separação e transformação que exigem tecnologia especializada. O valor cresce ao longo dessa cadeia, e o conhecimento necessário para percorrê-la é uma fonte de poder. [2][4]
A ligação com a inteligência artificial passa por essa infraestrutura. Treinar e utilizar sistemas de IA exige centros de dados, equipamentos de armazenamento e fornecimento de energia. Terras raras integram esse conjunto ao lado de outros materiais, como cobre e silício. Uma jazida não fabrica um processador, mas pode ser o ponto de partida de uma política industrial capaz de ampliar nossa participação na economia tecnológica. [1]
É essa possibilidade que precisamos defender. Queremos que o Brasil desenvolva competência para processar seus minerais e fabricar componentes, conectando essa indústria às universidades e às empresas nacionais. Queremos que a riqueza extraída daqui ajude a sustentar empregos qualificados e pesquisa aqui. Isso exige uma decisão política sobre o país que estamos dispostos a construir.
A dimensão do desafio aparece nos dados. Embora tenhamos enormes reservas, o Brasil respondeu por aproximadamente 0,5% da produção mundial estimada de terras raras em 2025. [3] E aumentar a extração, sozinho, não resolve o problema. Se as etapas de maior conteúdo tecnológico continuarem concentradas no exterior, poderemos exportar mais e permanecer dependentes de quem transforma o que vendemos.
A China mostra onde está essa diferença. Segundo a Agência Internacional de Energia, em 2024 ela concentrava 60% da extração das quatro terras raras mais ligadas à produção de ímãs, 91% do refino e 94% da fabricação de ímãs permanentes sinterizados, uma categoria de alto desempenho. [4] Seu poder aumenta conforme avança a transformação industrial. É uma lição que o Brasil precisa levar a sério.
Os Estados Unidos também agem para reduzir sua dependência. Em julho de 2025, a MP Materials anunciou um acordo com o Departamento de Defesa que previa US$ 400 milhões em participação acionária, além de compromissos de preço mínimo e de compra por dez anos. [5] Dinheiro público, planejamento e proteção de uma capacidade considerada estratégica. Por que deveríamos tratar como exagero, no Brasil, a ambição de construir capacidades próprias? O que vemos é o caminho contrário! A promessa de entrega, para o estado norte-americano, da totalidade da nossa capacidade de produção e desenvolvimento de IA.
Minas Gerais já havia feito uma aposta nessa direção. Em 2016, a Codemig anunciou o projeto de um laboratório-fábrica de ímãs de terras raras, desenvolvido com a Fundação Certi, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas. A proposta era agregar valor aos recursos minerais e desenvolver tecnologia no país. [9] A estatal havia colocado essa tarefa na agenda de desenvolvimento mineira. O projeto passou à Codemge, e as obras foram concluídas em 2021. No governo Zema, porém, a decisão foi vender: em dezembro de 2023, o empreendimento foi transferido à Fiemg por R$ 35 milhões.[10][11] O laboratório continuou sob operação do CIT Senai,[12] mas a estatal abriu mão de ser proprietária dessa infraestrutura estratégica. É esse desmonte da presença empresarial direta do Estado que precisamos denunciar e discutir. Quando a disputa internacional exige investimento paciente e capacidade de decisão, retirar do patrimônio estatal um instrumento de desenvolvimento tecnológico é uma escolha política. Eu defendo que Minas fortaleça seus instrumentos públicos para transformar riqueza mineral em conhecimento, indústria e soberania.
Considero essa retirada um retrocesso. O Estado havia assumido o esforço de criar uma capacidade industrial e científica que o país precisava desenvolver. A venda retirou da estatal a posição de proprietária daquele instrumento. A continuidade do laboratório tem valor, mas não elimina a discussão sobre quem deve controlar uma infraestrutura construída por iniciativa pública. Defender a participação direta do Estado nessa cadeia é uma escolha de projeto nacional, e eu defendo essa escolha.
No plano federal, o governo Bolsonaro atacou outro instrumento de soberania tecnológica: a Ceitec, empresa pública criada para desenvolver e fabricar semicondutores no Brasil. Em dezembro de 2020, autorizou sua dissolução; em fevereiro de 2021, começou a liquidação. Enquanto as grandes potências tratavam os chips como questão estratégica, o Brasil caminhava para a extinção de uma capacidade que havia levado anos para construir. O Tribunal de Contas da União (TCU) suspendeu o processo, apontando insuficiências na justificativa apresentada, e o governo Lula autorizou sua reversão em 2023. A Ceitec não fabricava os processadores mais avançados usados na inteligência artificial, mas isso jamais justificaria descartá-la: nenhum país chega à fronteira tecnológica destruindo suas bases de pesquisa, engenharia e produção. Soberania se constrói acumulando conhecimento, formando pessoas e sustentando investimentos. Liquidar essas capacidades significa aprofundar a dependência de quem domina a tecnologia e aceitar que o nosso futuro seja decidido fora daqui.
Tanto o caso mineiro quanto o caso nacional ajudam a entender por que essa discussão precisa chegar às eleições. A palavra “desenvolvimento” pode caber em qualquer discurso; as decisões revelam o que ela significa para cada governo. Precisamos escolher representantes dispostos a preservar instrumentos públicos de atuação econômica, financiar pesquisa e exigir benefícios para o país nos acordos sobre recursos estratégicos.
No governo Lula, existem iniciativas que merecem ser defendidas e ampliadas. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) prevê cerca de R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028, reunindo crédito, recursos públicos e contrapartidas privadas para infraestrutura, formação e desenvolvimento tecnológico. Em 2025, BNDES e Finep lançaram uma chamada de R$ 5 bilhões para projetos de transformação de minerais estratégicos. [6][7]
São valores previstos, que precisam ser acompanhados até a execução e os resultados. Nossa tarefa é lutar para que essas políticas tenham continuidade, recursos e cobrança pública. Cada laboratório que consegue trabalhar, cada processo industrial dominado e cada pesquisador que encontra condições de desenvolver tecnologia no Brasil pode ampliar nossa capacidade de decidir o próprio caminho.
Essa luta precisa fazer sentido também para quem nunca ouviu falar em neodímio. Ela diz respeito à possibilidade de uma jovem estudar numa universidade pública e encontrar trabalho qualificado no país. À capacidade de uma empresa brasileira desenvolver soluções para o SUS. Ao poder de negociar preços e condições quando serviços essenciais dependem de tecnologias fornecidas por poucas empresas. Soberania ganha sentido quando chega à vida das pessoas.
Também chega à vida de quem mora perto das minas. A extração e o processamento exigem controle de resíduos e proteção da água, com riscos que variam conforme a jazida e a tecnologia. [8] Por isso, defender nossas terras raras exige defender as comunidades afetadas, a fiscalização ambiental e a pesquisa em reciclagem. Não aceito um projeto de desenvolvimento que entregue a essas populações os danos e reserve a outros os benefícios. O povo mineiro já conhece esse processo, e não foi vencedor. É a nossa segunda chance.
A cooperação com outros países deve servir a esse projeto. Investimentos são bem-vindos quando ajudam a construir capacidades duradouras, com processamento no Brasil, formação de profissionais e participação de pesquisadores e empresas nacionais. Precisamos negociar essas contrapartidas e fiscalizar seu cumprimento. A urgência de atrair capital não pode apagar a pergunta sobre o que ficará para a sociedade brasileira.
É por isso que quero ver as terras raras na conversa sobre o voto. Vamos cobrar dos candidatos compromissos com a ciência, com a indústria nacional e com o controle público de recursos e infraestruturas estratégicos. Vamos olhar o que fizeram quando tiveram poder para investir, preservar ou vender. E vamos apoiar quem estiver disposto a transformar nossa riqueza mineral em desenvolvimento compartilhado.
As terras raras precisam entrar na pauta dos sindicatos, dos movimentos sociais e das universidades. Precisam ser discutidas por quem trabalha, por quem estuda e por quem vive nos territórios minerados. Quanto mais gente compreender o que está em disputa, mais força teremos para impedir que decisões sobre o nosso futuro sejam tomadas sem nós. temos um espaço de 3 semanas para finalmente discutir propostas e entender quem realmente está comprometido com um governo de mudança em prol do povo brasileiro.
Fontes
[1] IEA. Energy and AI, 2025, capítulo AI and energy security. Infraestrutura e materiais utilizados em centros de dados. Consultar fonte
[2] Departamento de Energia dos EUA. Páginas explicativas sobre terras raras e materiais críticos; pesquisa do ORNL sobre ímãs em discos rígidos. Consultar fonte · Separação · Uso em discos rígidos
[3] USGS. Mineral Commodity Summaries 2026, Rare Earths, tabela mundial. Produção estimada em 2025: Brasil, 2 mil t; mundo, 390 mil t, em equivalente de óxidos. Percentual calculado. Consultar fonte
[4] IEA. Rare Earth Elements, 2026, resumo executivo. Participações referentes a 2024 e efeitos dos controles de abril de 2025. Consultar fonte
[5] MP Materials. Anúncio da parceria com o Departamento de Defesa, 10 jul. 2025. Acordos também registrados na SEC. Consultar fonte
[6] MCTI. Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024–2028, versão final de 2025. Valores previstos e composição das fontes. Consultar fonte
[7] BNDES e Finep. Chamada pública para transformação de minerais estratégicos, lançada em janeiro de 2025, com R$ 5 bilhões previstos. Consultar fonte
[8] CETEM. Inventário do ciclo de vida da produção de óxidos de terras raras; projeto Regina II. Impactos do processamento e recuperação de materiais. Consultar fonte · Reciclagem
[9] Codemig. Anúncio do laboratório-fábrica e de suas parcerias, 25 fev. 2016. Consultar fonte
[10] Codemge. Conclusão das obras, 12 ago. 2021; Agência Minas. Edital de venda, 21 jun. 2022. Consultar fonte · Edital de venda
[11] Codemge. Venda do LabFabITR à Fiemg por R$ 35 milhões, formalizada em 21 dez. 2023; notícia de 22 dez. 2023. Consultar fonte
[12] LabFabITR, CIT Senai. Histórico do empreendimento e operação após a compra pela Fiemg. Consultar fonte
Fontes consultadas em 5 e 6 de outubro de 2026