Nos alicerces da história de Minas Gerais, quando o ouro cintilava mais como promessa do que como fortuna e as montanhas ainda se formavam também no imaginário de um povo em nascimento, surgem figuras cuja trajetória parece conter o próprio destino da terra. Entre elas, um nome resiste ao tempo: Manuel Nunes Viana — português de Viana do Minho, comerciante, criador de gado, administrador, combatente e, segundo alguns, o primeiro governador eleito das Minas Gerais.
Homem de múltiplas faces, sua biografia é um espelho das tensões e esperanças de um território em gestação. Nunes Viana aportou nos sertões da Bahia e de Minas ainda jovem, movido pelos ventos do comércio. Fixou-se entre Jequitaí e a região de Januária. Cedo, associou-se à poderosa família dos Guedes de Brito, tornando-se procurador de Dona Isabel, herdeira de um dos maiores latifúndios da história colonial: 160 léguas de extensão, abrangendo das nascentes do Rio das Velhas ao Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina.
Mas o nome de Nunes Viana ecoa, sobretudo, na Guerra dos Emboabas (1707–1709) — conflito que foi mais do que uma disputa por ouro: um embate simbólico entre diferentes visões de poder e pertencimento, entre os paulistas desbravadores e os reinóis recém-chegados. Foi nesse cenário que o português se projetou como líder dos emboabas, alcançando prestígio tal que teria sido aclamado governador das Minas, em 1708, na Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, em Cachoeira do Campo, distrito de Vila Rica.
A memória desse ato — controverso para uns, lendário para outros — fez dele uma espécie de símbolo inaugural da autonomia mineira, razão pela qual o chamaram, não sem ironia, de “ditador de Minas”. Quando, em 1709, foi criada a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, e Antônio Albuquerque Coelho de Carvalho nomeado governador, Nunes Viana renunciou, entregando o poder e retornando às suas terras no norte de Minas. Assim, o homem que havia encarnado o mando soube também o momento de devolvê-lo — gesto raro em qualquer tempo.
Minas como centro político do Brasil
A história de Nunes Viana é mais do que a narrativa de um sertanejo poderoso: é o prólogo de uma vocação. Desde o nascimento, Minas Gerais foi o eixo em torno do qual o Brasil girou. O ouro mineiro sustentou a Coroa portuguesa no século XVIII, mas também, das montanhas de Vila Rica, brotaram os primeiros lampejos de liberdade. A Inconfidência Mineira (1789) foi o prelúdio de um sonho republicano que, embora sufocado, jamais se extinguiu.
No Império, políticos mineiros tornaram-se artífices do equilíbrio nacional. Na República Velha, Minas e São Paulo teceram a trama do poder, o célebre “café com leite”, que sustentou a alternância política até 1930.
Mesmo após a Revolução de 30, Minas manteve o centro da cena. Foi das montanhas que se ergueu Juscelino Kubitschek, com seu gesto visionário de mover a capital para o coração do país — Brasília —, abrindo o Brasil ao seu próprio interior. Foi de Tancredo Neves a mão que guiou o país da sombra da ditadura à luz da democracia. E de Itamar Franco a serenidade que assegurou a estabilidade política em tempos de turbulência.
Há, em Minas, uma vocação silenciosa para a conciliação — uma espécie de sabedoria do meio, equilíbrio entre prudência e coragem, entre o impulso e a medida. Talvez seja essa a herança deixada por figuras como Nunes Viana, que entenderam o mando não como fim, mas como trânsito.
Entre o sertão e a nação
Ao entregar o governo em 1709 e recolher-se a suas propriedades, Manuel Nunes Viana encerrou sua jornada pública, mas não seu papel simbólico. Ele representou o início de uma tradição: a de Minas como guardiã do equilíbrio político do Brasil.
Do ouro ao concreto, da carne de sol ao pequi, do barroco de Aleijadinho à modernidade de Niemeyer, Minas é a linha que costura o tempo brasileiro. E talvez por isso Tancredo tenha dito, com aquela voz que misturava doçura e gravidade, “Minas é o equilíbrio do Brasil.”
Ao evocarmos um certo Manuel, não falamos apenas de um personagem do passado, mas da gênese de uma consciência: a mineiridade como medida do poder e da política. Minas não é apenas um espaço geográfico; é uma ideia — e, como toda ideia verdadeira, atravessa os séculos.
Porque há em Minas um modo próprio de compreender o Brasil: entre o sertão e a nação, entre o ouro e a palavra, entre a autoridade e a renúncia. E é desse modo que a voz de Manuel Nunes Viana ainda ecoa, antiga e atual, lembrando-nos que a política, quando nasce da terra, pode ser também uma forma de poesia e bravura.