Antes das Minas: Os Gerais

Foto: Agência Brasil

Viajar pelo rio São Francisco tem seus atrativos e surpresas, Embarcações pequenas têm a vantagem da agilidade e de margear em ritmo sonolento, o que possibilita observar tudo quanto escapa a quem segue, distante algumas centenas de metros, pelo meio das águas. A vegetação, os animais, aquilo que está para lá das árvores próximas dos barrancos, muito pode ser visto e admirado, se uma embarcação pequena e o tempo disponível forem adequadamente utilizados. Viagens curtas ou longas, não importa, o que não deve faltar é o espírito de aventura que os pescadores conservam, justificando manutenção de ranchos a partir dos quais o mundo ganha novo sentido.

Era tardezinha, o sol anunciava vontade de abraçar o horizonte distante para dar lugar à lua, e uma abertura na margem do rio permitiu vislumbre de uma edificação até então desconhecida: branca, robusta, alta como não se produzia naquela região, de paredes grossas, com intenção de veneração, seteiras apontadas para as águas, reinava sobre suave aclive a construção que viria a ser conhecida nos séculos adiante como a mais antiga igreja no solo do futuro estado de Minas Gerais. Mas ali não havia minas de nenhum metal, não havia pedras a explorar, somente gerais, essa imensa faixa de campos férteis na bacia do rio São Francisco.

A lembrança é boa, porque era o ano de 1695, um pouco antes da descoberta de ouro de aluvião às margens do rio do Carmo, acontecimento fundante da cidade primaz: Mariana. Ali era Morrinhos, atual Matias Cardoso, impossível de confundir com o povoado homônimo do município de Arinos. Nossa Senhora da Conceição de Morrinhos, a primeira igreja no território do atual estado de Minas Gerais, desponta ainda hoje no alto daquele suave aclive. Nos anos de 1660, Mathias Cardoso, não o velho, mas o filho, ali estabeleceu a primeira povoação, que foi agraciada em 8 de dezembro de 1695 com a primeira paróquia. Não deu origem à cidade primaz, o que dependia de reconhecimento régio, mas ao primeiro arraial, a primeira igreja, o início da história antecedente da exploração minerária.

Contar a convergência de dois movimentos, a atividade agropastoril, nos gerais, e a exploração de metais e pedras, nas minas, é tema a que se dedicou meu amigo Joba, o professor João Batista de Almeida Costa, mas essa é uma outra história. O que importa agora é registrar que meu Norte, de fazendas e terras sem fim, tem águas, veredas, capoeira, semiárido, buriti, umbu e pequi, tudo que é preciso para ser feliz.

Advogada e Mestre em Ciências Sociais. Associada Efetiva do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

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