Talvez seja hora de abandonar a fôrma invisível com que a gente insiste em moldar a vida. Aquela fôrma silenciosa que mora na gaveta das expectativas, entre promessas vencidas e planos padronizados. Com ela a gente mede valor, performance, comportamento. Uma tirana sutil que esculpe limites disfarçados de bom senso.
Quem nos fez crer que viver é alinhar-se ao que esperam de nós? Que a alma, sem alvo, é brinquedo quebrado? Transformaram o viver em tarefa e a felicidade em meta de desempenho. Acreditamos, porque duvidar dói. Engolimos a mentira e a chamamos de prudência. Mas e se o tal objetivo for um servo tirano? Repare nos sacrifícios: acordar cedo sem poesia, trabalhar muito sem sentido, comprar o que não consola. A meta que nos exige o abandono de nós mesmos, essa não é guia, é gaiola.
Tente uma pequena transgressão. Não pergunte o que ainda precisa conquistar. Pergunte: quem desejo ser enquanto caminho? Parece detalhe, mas muda tudo. A pergunta altera a rota. Almejar um ponto é manter o olhar fixo; querer ser é abrir o campo para o acaso, o corpo e o tempo. Então surgem os detalhes que salvam o dia comum: o cheiro de café que interrompe a pressa, uma conversa que devolve o lugar aos ombros, a leitura que limpa a janela por dentro.
Sensibilidade e sentidos
Sim, há quem ache esse discurso romântico demais. Mas cultivar um jardim interior é exigente. Todo dia ele pede cuidado, paciência, escuta. Exige mãos que respeitam e olhos que aprendem a ver. Não há glamour nem resultado imediato: só um silencioso aperfeiçoamento do olhar. As metas, se existirem, se tornam discretas e obedientes ao que brota.
O mundo oferece trilhas seguras, rotas com placas e filas. Escolha uma, se ela lhe cabe bem. Mas se seu corpo encolhe a cada passo, escute esse incômodo. A escolha que aperta o peito não é escolha; é conformidade. Talvez então seja hora de desenhar sua própria trilha, mesmo que sem mapa. Isso não é rebeldia. É maturidade de quem cansou do teatro da conveniência.
Para não se perder, aprenda a escutar os sentidos. Ouça o que a cidade abafa: o gosto pelo que é gratuito, o prazer do “inútil” que nos devolve humanidade. Tocar um instrumento desafinado, ler um livro sem promessas, fazer um gesto anônimo. O que parece supérfluo às vezes é o que mais sustenta.
Ria de si mesmo
Se quiser um critério, aqui vai: identifique o que lhe dá orgulho mesmo no anonimato, e o que envergonha mesmo aplaudido. O que você evita por medo de parecer ridículo? Essa última pergunta revela as costuras da máscara. Quem encara o próprio ridículo cresce. Quem foge dele vive de aplauso emprestado.
Objetivos são ferramentas. Que fiquem. Mas que não mandem. Use-os como usa-se um martelo: com intenção e cuidado. Lembre-se de que você é a fôrma e o artesão. E que o melhor acabamento respeita os veios da madeira. Quem te esculpe, se você permitir, deve amar o que é teu, não apenas o que rende aplausos.
O mundo seguirá vendendo mapas coloridos. Você pode sorrir, agradecer e voltar para sua roça interior. Ali, o tempo tem outro compasso. A colheita não é show, é sustento. A vida alterna entre o que se deseja e o que acontece. E talvez a sabedoria seja isso: desejar sem tirania, aceitar sem rendição.
Longa estrada da vida
Felicidade não se persegue. Caminha-se com ela. Ela é o cheiro do forno, o cansaço bom, a mesa simples com gente verdadeira. Ela é efeito colateral de uma vida vivida de verdade. Quando vira meta, azeda.
No fim, a fôrma serve para o pão. Para gente, não. Gente é rio. Muda de cor, de rumo, de canto. E se perguntarem o que você faz da vida, talvez caiba responder com poucas palavras: faço um jardim.
Regue o essencial. Pode o que impede a luz. Ofereça sombra. Coma o que brotar. Divida o que sobrar. E, quando falhar, agradeça assim mesmo. Jardins também florescem do que se perdeu.