Nasci e cresci na Zona Leste da cidade de São Paulo, uma região periférica, repleta de histórias e marcada pela presença de imigrantes e operários. Quem cresceu ali, especialmente nas décadas de 1980 e 1990, sabe que o senso de comunidade, a vida compartilhada e certa sensação de segurança eram muito mais resultado da aliança entre os moradores do que da presença do Estado. Pelo contrário, naquele período, a Zona Leste era frequentemente considerada uma região violenta e apartada da cidade.
Ainda assim — e não se trata apenas de saudosismo —, viver naquela região era como viver em uma grande comunidade. Era comum dormir com as janelas abertas, ir a pé para a escola e encontrar os amigos ao acaso, nos mercadinhos, nos botecos de esquina ou nas ruas. As famílias habitavam as ruas, e nelas todos os tipos de esporte eram praticados.
As festas de aniversário reuniam dezenas de pessoas. Festas nas igrejas, nos terreiros de candomblé e nos templos evangélicos faziam parte da nossa peregrinação. Não era incomum frequentar todas elas. Eu, por exemplo, podia amanhecer em um culto da Igreja Presbiteriana e, à noite, participar de uma festa em consagração a Oxóssi.
Na música, tudo parecia permitido: do pagode ao heavy metal, passando pela música clássica. Em minha casa, enquanto meu pai ouvia a orquestra de Ray Conniff, na casa ao lado o vizinho ouvia Agepê. A experiência de morar numa espécie de cortiço ofereceu-me, desde cedo, uma forma de letramento para a tolerância e a mediação.
Aquela vida comunitária, é verdade, não era isenta de conflitos, violências e preconceitos. Eu mesmo perdi amigos para a criminalidade e para as drogas. A proximidade, por si só, não garante estabilidade nem o reconhecimento da diferença, mas pode funcionar como uma espécie de suporte existencial que nos prepara para lidar melhor com aquilo que vem ao nosso encontro. O compartilhamento de histórias e trajetórias cria um arcabouço civilizatório, ainda que precário, sobre o que fazer ou não fazer na vida.
O que havia de especialmente valioso naquele modo de viver era a inevitabilidade do encontro. Éramos constantemente expostos àquilo que não havíamos escolhido: o gosto musical do vizinho, a religião do outro, as crianças que ocupavam as ruas, os conflitos entre famílias e as festas que invadiam as casas.
Sem a comunicação digital, também precisávamos aprender a esperar. Aguardávamos a saída dos pais para o trabalho e o seu retorno, a chegada de alguém, um telefonema ou um encontro que talvez não acontecesse. Estávamos mais próximos do indeterminado e das incertezas que fundamentam a vida nesta Terra. Nada estava inteiramente definido; tudo podia ser alterado a qualquer momento.
O Outro não podia ser facilmente selecionado, silenciado ou bloqueado. Era necessário conviver, negociar, suportar diferenças e, em alguma medida, transformar-se por meio delas. Quando isso não era possível, o pau quebrava, mas, ainda assim, havia alguma ética. Afinal, no dia seguinte, teríamos de conviver novamente com aquele camarada. Não havia para onde fugir.
Em uma visita recente à região, encontrei um cenário diferente. As ruas estavam mais desertas, os vínculos entre vizinhos pareciam enfraquecidos e cada um vivia de maneira mais isolada. As brincadeiras de rua, o acaso de um encontro, a frustração do desencontro e o compartilhamento das alegrias e das aflições pareciam pertencer a outro tempo.
É difícil afirmar que uma época tenha sido melhor do que a outra. Também seria simplista atribuir essa transformação exclusivamente à internet. A violência urbana, as mudanças na organização das cidades, o crescimento dos condomínios fechados, as longas jornadas de trabalho e o enfraquecimento dos espaços públicos certamente participaram desse processo.
O que nos interessa é compreender aquilo que perdemos e como a internet e as redes sociais passaram a ocupar os espaços deixados pelo enfraquecimento da vida comunitária. Ao mesmo tempo que criam novas formas de conexão, elas reorganizam profundamente a subjetividade.
De alguma maneira, abdicamos de parte da experiência comunitária concreta e adentramos uma comunidade digital mediada por algoritmos. Nesse ambiente, a diferença tende a ser filtrada. Comunicamo-nos em bolhas que reforçam nossas crenças e nos devolvem repetidamente aquilo com que já estamos de acordo. A diferença, quando aparece, pode ser percebida como invasiva e eliminada por meio de um simples bloqueio.
A lógica algorítmica funciona como um espelho que devolve ao sujeito aquilo que ele já reconhece como seu. Pode mantê-lo em uma posição de alienação ou no interior de uma bolha narcísica, na qual a alteridade é progressivamente reduzida.
O ambiente virtual torna-se, assim, um refúgio ilusório. Nele, experimentamos uma sensação de onipotência e de convivência com muitos, mas não necessariamente com os diversos, uma vez que o narcisismo é refratário à diferença.
A repetição das imagens do mesmo oferece ao sujeito uma existência aparentemente sem sobressaltos, uma espécie de superfície lisa que produz sensação de completude e segurança. Ao mesmo tempo, tudo aquilo que difere do próprio feed pode ser vivido como ameaça. O mundo exterior deixa de ser um espaço de descoberta e passa a ser percebido por meio de um funcionamento defensivo ou persecutório.
Na clínica contemporânea, torna-se cada vez mais visível um sofrimento de caráter narcísico e identitário. Em diferentes estruturas e organizações psíquicas, encontramos dificuldades de reconhecer o Outro como sujeito, diante de sua sistemática redução ao mesmo.
É nesse ponto que a obra de Emmanuel Levinas oferece uma contribuição crucial. Para ele, o Outro não é apenas alguém com quem o Eu estabelece uma relação. O Outro interrompe a soberania do Eu, coloca-o em questão e o convoca a uma responsabilidade que não pode ser reduzida às suas próprias medidas.
A alteridade é justamente aquilo que resiste à assimilação e à transformação do Outro em uma imagem familiar. Mesmo quando o Eu está imerso nas imagens do mesmo e aprisionado à ilusão narcísica de que nada lhe falta, permanece uma brecha na qual o Outro pode se manifestar e desestabilizar sua aparente completude.
É nesse encontro — que rompe a lógica do espelho e introduz uma diferença que não pode ser inteiramente dominada — que o desejo pode se reabrir e o sujeito se deslocar de sua posição alienada.
Levinas situa a ética na responsabilidade diante do Outro. A psicanálise, por sua vez, convoca o sujeito a reconhecer o desejo e a assumir responsabilidade pela posição que ocupa diante dele. Embora sejam perspectivas diferentes, em ambas o sujeito é retirado de sua ilusão de soberania e confrontado com aquilo que não controla completamente.
A libertação da lógica algorítmica não exige a eliminação da tecnologia, mas a recuperação da possibilidade do encontro. Afinal, o Outro começa justamente onde termina nossa capacidade de selecionar, prever, filtrar e bloquear.
Enquanto o mundo investe trilhões de dólares em inteligência artificial, aguardamos, ansiosos, a transformação que está por vir. Não seria exagero afirmar que nos encontramos em um momento crucial da humanidade. Afinal, o que a inteligência artificial nos trará?
Ela nos afastará ainda mais daquilo que temos de mais humano, isto é, da convivência com a diferença? Ou poderá nos devolver algumas possibilidades de encontro, na medida em que se encarregue das tarefas repetitivas e cotidianas?
Há muitos anos, em meus estudos sobre a mística judaica, encontrei a ideia de que o mundo passaria por uma espécie de correção. De um lado, poderíamos ser engolidos por uma alienação profunda; de outro, conheceríamos uma espécie de paraíso na Terra, no qual as máquinas realizariam as funções necessárias à sobrevivência e nós, seres humanos, passaríamos a nos dedicar à nossa espiritualização e àquilo que verdadeiramente nos constitui.
O mais curioso é que esse destino dependeria de uma escolha. Não seria um futuro determinado pelas máquinas, mas pela posição assumida por cada ser humano diante delas.
Essa ideia aproxima-se, em alguma medida, daquilo que a psicanálise sustenta: cabe a cada sujeito autorizar-se no exercício de seu desejo e responsabilizar-se por ele.
Talvez a inteligência artificial não determine, por si mesma, o nosso futuro. Ela poderá libertar nosso tempo ou ocupar todos os espaços da existência; favorecer o encontro ou aperfeiçoar os mecanismos que nos protegem da diferença.
A escolha não está simplesmente entre aceitar ou rejeitar a tecnologia, mas entre utilizá-la para ampliar nossa abertura ao mundo ou permitir que ela nos encerre definitivamente na repetição do mesmo.
Ao final, talvez o verdadeiro desafio não seja saber até onde as máquinas poderão chegar, mas decidir o que nós, seres humanos, faremos com o tempo, a liberdade e a responsabilidade que elas poderão nos devolver.
Minha torcida é para que voltemos às ruas, aos encontros e desencontros, à alegria contida no simples brincar.